O dilema do confisco das armas

XKCD
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Uma coisa que me toquei ontem é que o debate do direito de posse às armas é enquadrado no dilema moral do bonde sem controle (trolley) pelas pessoas que defendem o confisco.

O bonde descontrolado é a posse das armas. As pessoas numerosas que vão morrer caso “não se faça nada” são as vítimas das armas, e aquelas pessoas menos numerosas que estão na outra trilha são as pessoas que seriam salvas por armas caso elas não fossem confiscadas.

Os defensores do confisco estão (no geral) extremamente convencidos de que ele irá evitar a morte de muito mais pessoas, e não realizá-lo nos deixará com um saldo muito pior de vidas perdidas.

O raciocínio moral aqui é o do consequencialismo literal, você faz uma estimativa de quantas pessoas ficam vivas e outra de quantas morrem, e o resultado implica na escolha moral.
Obviamente pessoas não são máquinas, e pouquíssimas irão realmente buscar evidências robustas nas estatísticas e nas formulações de especialistas. Elas irão buscar na superfície os argumentos ou simples *memes* que irão reforçar a crença já estabelecida nas suas mentes (evitando a dissonância cognitiva, o sentimento desprazeroso associado a acreditar em duas coisas mutualmente exclusivas).

Mas caso sejam pressionadas, irão se encastelar neste cálculo consequencialista da estimativa de vidas salvas e perdidas. Tomar conhecimento desse fenômeno pode ajudar a compreender melhor o debate em torno das armas. Uma forma similar, sob o ponto de vista das premissas de justificativa moral, de enquadrar o assunto é através da análise econômica dos problemas sociais (ver Gary Becker).

*consequencialismo literal eu chamo aquele que ignora que o consequencialismo é apenas uma outra face do jusnaturalismo: os direitos naturais surgiram apenas pois eles causam boas consequências (sugiro o texto do Roderick Long sobre isso).

**caso fôssemos tentar enquadrar a defesa da posse de armas no mesmo dilema do bonde, precisaríamos separar em categorias complexas de vítimas: pessoas que morreriam por causa do confisco e que morreriam por causa da posse, levando em conta o máximo possível das consequências não esperadas (mercado negro) e das ineficiências da posse (pessoas podem falhar na autodefesa) e do confisco (apenas criminosos terão armas).

***uma defesa jusnaturalista da posse evitaria se enquadrar no dilema do bonde, visto que o valor individual do direito à posse de armas varia de indivíduo para indivíduo, e tem um valor pessoal dissociado das consequências da posse de armas de outra pessoa. Se A tem arma, ele não é culpado se B atirou em C.

O dilema do confisco das armas

O Fundamentalismo Religioso na Europa do Início do Século XXI

Fund TITULO

A França foi alvo, em 2015, de dois ataques terroristas espetaculares, não somente por ser um país que atrai a atenção do mundo inteiro, como também pela própria natureza e escopo dos ataques, dos mais mortíferos já perpetrados até então. Por terem sido ambos cometidos por muçulmanos, o debate em relação à natureza e ao estado atual do islamismo e sua integração com as outras culturas e religiões se faz cada vez mais importante e frequente.

Este artigo é o primeiro de uma série que pretendo escrever para tentar trazer à tona os fatos relevantes, e desvelar os mitos sobre o islamismo e o terrorismo a ele associado.


Para entender o fundamentalismo contemporâneo na Europa, pode-se usar como base a excelente pesquisa de 2013 do Dr. Ruud Koopmans (diretor de pesquisa do Berlin Social Science Center), chamada “Religious Fundamentalism and Hostility against Out-groups: A Comparison of Muslims and Christians in Western Europe“, na qual 9000 pessoas foram entrevistadas por telefone fixo e móvel sobre suas tendências religiosas.

Prof. Dr. Ruud Koopmans (David Ausserhofer)
Prof. Dr. Ruud Koopmans

Foram escolhidos dois grupos principais distribuídos em 6 países (Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Áustria e Suécia), cristãos nativos de um lado, e imigrantes de primeira e segunda geração do Marrocos e da Turquia do outro. A definição de fundamentalismo é essencial para o bom entendimento do fenômeno, e assim o pesquisador o definiu como a concordância explícita a três proposições, ou às três atitudes inter-relacionadas:

  1. Cristãos [Muçulmanos] devem retornar às raízes da religião.
  2. Existe apenas uma interpretação da Escritura Sagrada e todo cristão [muçulmano] deve aceitar essa interpretação.
  3. As regras da Bíblia [Corão] são mais importantes para mim que as leis do meu país.

Para relacionar o fundamentalismo à hostilidade a grupos externos, também perguntaram qual a concordância (sim ou não) para as seguintes afirmações (faça você também esse teste e descubra se você é hostil a grupos externos, aposto que muitos de vocês vão descobrir que têm pontos em comum com fundamentalistas):

  • Não quero Gays como amigos.
  • Não se pode confiar em Judeus.
  • Muçulmanos querem destruir a Cultura Ocidental (para nativos).
  • Países Ocidentais querem destruir o Islão (para muçulmanos).

Os achados foram muitos e bem interessantes, sendo os mais importantes:

  • Entre cristãos nativos o fundamentalismo ficou em 3% e as hostilidades oscilaram entre 8 e 22%, sendo essa última a desconfiança em relação ao Islão.
  • Entre imigrantes islâmicos de 1a e 2a geração o fundamentalismo ficou em 25% e as hostilidades oscilaram entre 22 e 61%, com cerca de 50% desconfiando do Ocidente querer o fim do Islão.
  • Sunitas, o maior ramo do islamismo mostram um grau significativamente maior de fundamentalismo que os Xiitas (outros estudos calculam 9 sunitas para cada xiita no mundo).
Fundamentalismo em cinco países da Europa
Fundamentalismo em cinco países da Europa

As quatro conclusões do estudo foram:

  • O fundamentalismo entre os imigrantes islâmicos europeus não é majoritário (44%). Ao mesmo tempo não pode ser considerado um fenômeno marginal, e é mais facilmente encontrado nas classes sociais mais pobres, apesar deste fato não explicar a diferença da maior frequência do fundamentalismo entre imigrantes islâmicos europeus do que entre cristãos nativos, cuja população mais pobre também agrega a maior parte dos seus fundamentalistas.
  • Não foram encontradas correlações entre frequência de fundamentalismo e o nível de repressão dos diferentes sistemas legais nacionais em relação aos imigrantes, nem com o nível percebido de hostilidade enfrentada por cada indivíduo entrevistado, o que enfraquece a teoria da “reatividade étnica e religiosa”.
  • Apesar aumentar a probabilidade, forte religiosidade não implica necessariamente em fundamentalismo. Dentre os entrevistados categorizados como “muito religiosos”, 8% dos cristãos, 21% dos xiitas e 50% dos sunitas concordaram com as 3 atitudes fundamentalistas.
  • Fundamentalismo é o maior indicador de hostilidade a grupos externos, tanto em cristãos quanto nos imigrantes islâmicos. Metade dos cristãos fundamentalistas acreditam que o Islão quer destruir a cultura Ocidental, e dois terços dos muçulmanos fundamentalistas acham que o Oeste quer acabar com o Islão. A rejeição aos gays e aos judeus é forte nos cristãos fundamentalistas, e ainda mais forte nos muçulmanos fundamentalistas.
Hostilidade a grupos externos
Hostilidade a grupos externos

Algumas ressalvas estabelecidas pelo próprio autor do estudo:

  • “Seria tolice interpretar os resultados como evidência de uma diferença fundamental e imutável entre o Cristianismo (liberal) e o Islamismo (fundamentalista).” Existem fundamentalistas cristãos, existem muçulmanos não fundamentalistas, os imigrantes muçulmanos na Europa vêm na maioria de áreas especialmente rurais e conservadoras dos seus países de origem, e os cristãos europeus tendem a ser menos religiosos e menos socialmente conservadores que os de outras regiões do mundo. Nos EUA a disparidade não existe, com maior tendência fundamentalistas entre os cristãos nativos (20%) e menor entre os imigrantes islâmicos (15%), em parte também graças à melhor posição sócio-econômica destes últimos nos EUA. Na Europa os conflitos se exacerbam pela maior disparidade cultural e sócio-econômica entre os dois grupos, e pela maior presença de muçulmanos entre a população europeia.
  • Dos entrevistados identificados como muçulmanos não fundamentalistas, grosseiramente um terço detém opiniões negativas sobre gays, judeus e a cultura ocidental, o que também quer dizer que uma maioria rejeita cada uma das opiniões negativas.
  • Se é possível dizer que existe “Islamofobia” por parte dos nativos, também se pode dizer que existe uma “Ocidentefobia” por grande parte dos imigrantes muçulmanos.
  • A hostilidade dos muçulmanos aos judeus é facilmente encontrada em muitos dos países de origem dos imigrantes.
  • Não se deve equacionar fundamentalismo e hostilidade com disposição para utilizar violência física. Obviamente tais tipos de atitude podem motivar uma minoria a agir violentamente, porém em pesquisas recentes, mesmo em muitos países de maioria muçulmana a rejeição ao uso da violência é majoritária entre os islâmicos.
  • É necessário pesquisar mais a fundo a ligação entre fundamentalismo religioso, radicalismo político e o uso da violência como meio para fins religiosos e políticos.

Segundo uma pesquisa de 2009, os 38 milhões de muçulmanos são cerca de 5% da população europeia. O país com maior número absoluto de muçulmanos é a Rússia, com mais de 16 milhões de muçulmanos (40% do total), a maioria estabelecida e integrada há séculos, assim como na Albânia e no Kosovo, onde perfazem a maioria da população (80% e 90% respectivamente). Nos países do Centro e do Oeste europeu, os imigrantes recentes da Turquia, do Norte da África e do Sul da Ásia são mais comuns entre os muçulmanos. O segundo país europeu com maior população muçulmana é a Alemanha com 4 milhões (5% de sua população total), seguida por França com 3,5 milhões (6%), Albânia com 2,5 milhões, Kosovo com 2 milhões e o Reino Unido com 1,7 milhões (2,7%), números aproximados.

Juntando os achados da pesquisa sobre fundamentalismo com os da pesquisa sobre as populações muçulmanas, não se vê claramente nenhuma tendência indubitável de epidemia de “Ocidentefobia” na população fora dos fundamentalistas islâmicos que, a grosso modo, totalizariam 1.25% da população europeia, caso as mesmas frequências se apliquem nos países não pesquisados. Cristãos fundamentalistas, apesar de apresentarem menores índice de hostilidade a grupos externos que seus equivalentes islâmicos, são mais numerosos (2.28%)* que estes últimos na população geral europeia.

Não se pode esquecer também que, mesmo em uma sociedade de tendência liberal e secular como a Europeia, ainda existe uma parcela significativa da população que rejeita gays, judeus e o islamismo (de modo geral, não apenas os tipos violentos de islamismo). Isso pode apontar para uma falha nas instituições europeias, tanto quanto para a inevitabilidade do tribalismo nas relações humanas. De qualquer maneira, o fundamentalismo islâmico se diferencia em grau, mas não em essência, do fundamentalismo cristão, levados em conta os parâmetros da pesquisa aqui discutida.


 

**Update em 27-Nov-2015

Eu havia feito um cálculo errado sem levar em conta que 3% dos cristãos nativos não são a mesma coisa que 3% da população total. Levando em conta que os cristãos são 76% da população Europeia, refiz o cálculo para 2.28%.

Parágrafo antes de corrigir:
“Cristãos fundamentalistas, apesar de apresentarem menores índice de hostilidade a grupos externos que seus equivalentes islâmicos, teriam mais que o dobro (3%) do tamanho da população destes últimos na população geral europeia.”

**Caso você discorde de alguma opinião ou fato apresentado no artigo, por favor especifique exatamente o que é, e cite a parte do artigo que aponta para essa discordância.

 

O Fundamentalismo Religioso na Europa do Início do Século XXI

Pesquisa: Perfil Ideológico do Corpo Universitário Francês

Saiu uma primeira grande pesquisa sobre o perfil ideológico do Corpo Universitário Francês, com 2000 entrevistados, entre professores, estudantes e pesquisadores. Ela reverbera os achados de pesquisas anteriores em países ricos anglófonos.

Que Pensent les Penseurs – PUG (Presses Universitaires de Grenoble)
Collection :Libres cours Politique – octobre 2015 – 27 Euros

 – Professeur de sciences économiques, Université de Lille 1

 – Professeur de sciences politiques, Sciences Po Grenoble

Alguns achados:
————————————————– População / Universidade
Ateu                                                             18%     /       50%
De Esquerda                                               36%    /       73%
Pais de Esquerda                                               igual
Puritanismo                           mais forte e frequente na Universidade
Anticapitalismo                                        < 33%   /   “maciçamente”

Meus comentários:
A análise demonstrou que convicções de esquerda (“anticapitalismo”) prevêem tanto ateísmo, quanto puritanismo moral. Confiança na ciência correlaciona bem com ateísmo, mas não correlaciona necessariamente com puritanismo.

Os universitários acreditam muito mais que o resto da sociedade que a Ciência pode resolver problemas econômicos e ambientais. Esta crença aumenta quanto MENOS se é especialista no assunto.

O mesmo nível de convicções de esquerda pode ser encontrado em outro setor da sociedade: o funcionalismo público, onde existe o mesmo tipo de compromisso na defesa do papel do Estado na regulação e ordenação da sociedade, tanto mais quanto mais alta a posição (ou seu potencial) na hierarquia.

Como o Mercado não recompensa diretamente o status Universitário, a percepção dessa ruptura influencia em suas opiniões.

Conclusão do estudo resumida e traduzida:
“No fim, fica claro que as opiniões e atitudes dos universitários e pesquisadores são fortemente dependentes do contexto no qual eles evoluem profissionalmente: uma hierarquia baseada no diploma e nos concursos, um status de funcionário do Estado e uma concorrência presumida entre ciência e religião. Em outros termos, eles valorizam pelas suas opiniões e atitudes aquilo que lhes valoriza em suas atividades profissionais e que lhes confere um status social.”

Fontes:

1 – https://theconversation.com/chercheur-dis-moi-qui-tu-es-49867

2 – http://www.pug.fr/produit/1250/9782706124273

Pesquisa: Perfil Ideológico do Corpo Universitário Francês

OS 5 PIORES ARGUMENTOS CONTRA O LIVRE COMÉRCIO

Artigo publicado em junho de 2014 no Liberzone.

By Raphael Moras de Vasconcellos

freemarket

Imagine a cena: você está naquele pé-sujo onde os hipsters se encontram em Botafogo, os carros parados no engarrafamento da Mena Barreto, as baratinhas se escondendo entre o quibe e o ovo colorido. Um barbudo simpático e antenado bate o copo de requeijão no balcão, esparramando Itaipava para todos os lados, e solta aquele argumento contra o comércio, afinal o importante na vida é compartilhar, é se realizar, é um outro mundo possível, é a cultura e a arte.

Todo mundo vai concordar, quem quer se passar por um coxinha, aliás Sebastião, me vê essa coxinha aí, NÃO, aquela sem mosca, isso, esquenta pra mim faz favor chefe, valeu, hmmm, tem coentro. Mas como eu ia dizendo, ninguém quer falar dessa coisa enfadonha que é o mercado como processo emergente da cooperação entre indivíduos buscando satisfazer suas necessidades materiais e espirituais.
Mas se você quiser fazer o papel de chato, aqui vão os 5 piores argumentos contra o livre comércio.

1. Comércio é exploração

Venha trabalhar ao ar livre na companhia de pessoas com o mesmo objetivo que você (tirinha – Arnaldo Branco™)
Venha trabalhar ao ar livre na companhia de pessoas com o mesmo objetivo que você (tirinha – Arnaldo Branco™)

A concepção atual do comércio como uma atividade essencialmente imoral e exploradora é o resultado da propaganda descerebrada de uma versão deturpada dos argumentos do nosso querido tio Marx: o empresário fica rico sem fazer nada extraindo mais-valia do trabalho dos empregados, ou pelo menos ganha muito mais do que seria justo pelo seu trabalho de gerenciamento da produção. O problema é que a realidade e os argumentos de Marx não são tão simples assim.

Como bom discípulo de Adão Ferreira e David Ricardo, Marx acreditava que o valor de uma mercadoria manufaturada (veja bem, não qualquer produto ou serviço) advinha exclusivamente da soma total do trabalho humano despendido para fabricá-la. Tomando essa teoria do valor do trabalho como verdadeira, segue-se logicamente que, se o empresário consegue lucrar com a venda das mercadorias após ter pago o salário dos empregados, isso quer dizer que o trabalho não foi pago na sua totalidade.

Os compradores da mercadoria aceitam pagar um preço X pelas horas despendidas nas mercadorias, e uma grande parte desse dinheiro fica com o empresário, justamente com quem menos trabalhou na produção das mercadorias. Os empregados aceitam esse absurdo por causa da instituição cultural da propriedade privada dos meios de produção. O estado democrático moderno é a ferramenta dos capitalistas (detentores dos meios de produção) para manter, proteger e continuar extraindo mais-valia das horas de trabalho dos empregados.

Apesar de estar correto sobre o estado ser a maior ferramenta de extração de renda que existe e sobre grande parte da concentração de capital ser decorrente disso, Marx não foi rápido o bastante para examinar as noções nascentes de marginalismo na ciência econômica que viriam a derrubar de vez a teoria de valor do trabalho. O preço das mercadorias não são uma função exclusiva do trabalho humano. Uma mercadoria disponível hoje vale mais que a mesma mercadoria disponível somente amanhã. O trabalho principal do empresário é identificar sinais de oferta e demanda nos preços de mercado e assumir os riscos de falência de um empreendimento. Os empregados são agentes econômicos que vendem seu trabalho, recebendo pelo seu trabalho antes da mercadoria ser vendida aos consumidores.

Muita coisa evoluiu na ciência econômica desde Marx, mas a sociedade não costuma exatamente ficar acompanhando empolgada essa evolução. Outra razão pela continuação do uso desse argumento da exploração é o fato nem sempre reconhecido de que o estado continua criando e protegendo, através do peso das leis e da força de suas armas, esquemas de extração de renda dos setores produtivos (empresários e empregados) para setores politicamente bem conectados, vide Eike Batista e a FIFA. Como o grosso da prosperidade mundial depende da indústria de consumo em massa, e não pelo consumo do 1% dos mais ricos, e a massa é composta na sua maioria por empregados e micro-empresários, podemos ver que Marx tinha razão de ficar furioso.

Só não precisava elocubrar tanto, né?

2. Comércio é ganância e egoísmo

Passa o Nutella, brou.
Eu lavei a mão antes de vir pra mesa, fio.

Não é à toa que o pão sempre foi usado como imagem para metáforas sobre a economia (olha uma boa ideia para um artigo aí). Segundo o argumento da ganância, a venda do pão é uma forma inferior de interação social em comparação à doação ou ao simples compartilhamento do pão entre irmãos. Se fôssemos usar o exemplo do carpinteiro de Nazaré, não precisaríamos nem glorificar de pé o amor fraternal, já que ele era uma padaria mágica ambulante sempre que pedia com bastante força para o papai do céu. Jesus foi a primeira pessoa a refutar Milton Friedman. EXISTE café da manhã grátis.

A maior falha do argumento é que ele ignora séculos de ciência econômica e de aumento da expectativa e qualidade de vida através do comércio. Adão Ferreira famosamente escreveu que “não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu auto-interesse“, porque sabia que a abundância de produtos ou a riqueza das nações não dependem principalmente da fraternidade entre os homens. Para a prosperidade dos desconhecidos, não importa a cor preferida do padeiro: se ele  não fizer pães que as pessoas queiram comprar, ele irá passar fome, porém se atender o interesse dos clientes irá comer bem e até guardar o excedente para melhorar o aquecimento da sua casa.

Nós humanos somos programados evolutivamente para desconfiar das pessoas desconhecidas, categorizá-las como competidoras em um mundo de recursos escassos. Minha tribo eu conheço, mas os outros bilhões de pessoas estão aí para pegar as maçãs da árvore antes de mim. O comércio com dinheiro é uma ferramenta que emergiu socialmente em milênios através da tentativa e erro, levado adiante por pessoas inovadoras que racionalmente calcularam que era mais positivo para a sobrevivência e o desfrute da vida trocar que tomar. Eu dedico meu tempo a me especializar em oferecer um serviço de forma eficiente, e se eu encontrar alguém que pense de forma parecida, podemos ambos beneficiar dessa eficiência, obtendo mais recursos com menos esforço.

Se um número suficiente de pessoas pensar assim, teremos uma sociedade baseada na troca, rejeitando significativamente a violência como meio de obtenção de recursos. Pois não se engane, é muito bonito falar de caridade e fraternidade, mas recursos são meios inevitáveis para a sobrevivência e o desfrute da vida. Ninguém pode doar aquilo que não tem.

3. Comércio gera desigualdade de renda

Nada mais atual que denunciar o aumento da desigualdade causado pelo capitalismo selvagem e desenfreado. O economista acadêmico francês que inspirou o programa de governo do presidente François Hollande, Thomas Piketty, acabou de publicar um livro técnico que se mantém entre os betsellers do ano há algum tempo, falando justamente sobre essa injustiça e pedindo por uma rede mundial de vigilância governamental contra as grandes fortunas. O mesmo economista foi uma das fontes para um relatório da ong OXFAM no começo do ano, criticando o fato das 85 pessoas mais ricas do mundo concentrarem 50% do patrimônio mundial.

Estatísticas generalizadoras ao longo de séculos e englobando continentes sempre serão algo impreciso, mas vamos olhá-las admitindo uma grande margem de erro. Em 1809, nenhum país do mundo tinha uma expectativa de vida média maior que 40 anos, e as rendas médias anuais por pessoa em dólares ajustados para a inflação e poder de compra não passava de U$ 3000 nos países mais ricos. Hoje quase nenhum país tem expectativa de vida abaixo de 40 anos, e a maioria está bem acima disso, com alguns acima de 80 anos. As rendas médias por país estão na grande maioria acima dos U$ 3000. E essas melhorias vieram mesmo com um aumento populacional de 1 para 7 bilhões. De 1990 a 2010 a ONU considera que a taxa de extrema pobreza diminuiu pela metade no mundo.

Pode-se tentar argumentar que as conquistas políticas, governamentais, foram as responsáveis por essas melhorias, mas é preciso logo abandonar essa teoria pois quem produz a riqueza que é usada pelo governo, os impostos, são os comerciantes. Sem comércio não há grande melhoria de qualidade de vida em uma sociedade complexa.

Dentro da hipótese da desigualdade de renda como sendo algo negativo por si só, sob o medo plausível de que a concentração de poder econômico capture o poder político e cultural, sempre caímos em duas soluções autoexcludentes. A mais difundida eu diria que é a proposta de aumentar o uso do estado para transferir renda do mais ricos aos mais pobres. Essa proposta se baseia na ideia de que comércio é basicamente algo explorador. A menos difundida é a proposta de diminuir o uso do estado para que o poder econômico não possa capturar o poder político, e se baseia na ideia de que o comércio é basicamente algo justo. Obviamente existem pessoas que defendem uma mistura confusa dos dois. Como por exemplo no relatório da OXFAM:

“Uma certa desigualdade econômica é essencial para gerar crescimento e progresso, recompensando aqueles com talento, habilidades arduamente adquiridas, e a ambição de inovar e assumir riscos empreendedoriais. Contudo, os extremos níveis de concentração ocorrendo hoje ameaçam excluir centenas de milhões de pessoas dos benefícios advindos de seus talentos e trabalho.”

A desigualdade decorrente do comércio, sem contar a guerra que é o seu contrário, não gera crescimento, é uma consequência das diferenças do uso do tempo, recursos e conhecimento entre fulanos e beltranos. Liberais (e qualquer economista sereno) argumentariam que não é a desigualdade econômica o principal desestimulador da prosperidade, e sim o mau uso da máquina estatal. Liberais radicais diriam que qualquer uso do estado é destruidor de recursos na sociedade, por se pautar pelo uso da força institucional no estabelecimento de monopólios. Liberais mais radicais afirmam com todas as letras que a desigualdade econômica tende ao seu mínimo quanto menos poder o estado tem de criar e proteger os monopólios, que através da proibição da concorrência comercial impedem artificialmente os mais pobres de prosperar.

Nem o livro de Piketty, “O Capital no Século XXI”, serve como base para o argumento. O livro não diz que existe um aumento constante da desigualdade de renda desde o começo da coleta de dados, apenas afirma que houve aumento desde os anos 80. Podemos ver em seus dados que a desigualdade de renda varia para cima e para baixo entre 1800 e 2000, enquanto sabemos que o comércio reconhecidamente teve um aumento exponencial. Pare de culpar o comércio pela pobreza: sua erradicação se dá através do comércio.

4. Comércio gera monopólios e as corporações vão dominar o mundo

50 R$ / centímetro quadrado
50 R$ / centímetro quadrado

Caso o comerciante seja deixado livre em sua atuação, naturalmente ele irá enriquecer e dominar todos os concorrentes pequenos, enriquecendo ainda mais sem competição, até o ponto de poder dominar um próximo setor e assim por diante, chegando em um cenário onde as corporações são os verdadeiros governos. Diferente do governo, que quer nosso bem, as corporações buscam apenas o lucro sem prestar atenção no bem estar dos consumidores.

Para desfazer a confusão inicial de termos, é preciso esclarecer algumas coisas. Existem dois tipos ideais de monopólio: o monopólio natural acontece onde uma firma se impõe através da maior eficiência e dos menores custos de operação, oferecendo os menores preços do mercado; e o monopólio artificial ou legal ocorre quando o monopolizador se utiliza de meios, invariavelmente o governo, para impedir a entrada de novos concorrentes no setor, oferecendo um serviço de custos e preços maiores que o que se esperaria em um setor não monopolizado de forma artificial.

Como o governo é usado para criar monopólios artificiais? Qualquer governo existente é necessariamente o monopólio da justiça e da segurança em determinada região, portanto o governo não é uma instituição que pode pretender combater monopólios sendo ela mesmo o monopólio dos dois serviços mais influentes na formação e manutenção de monopólios. Então o argumento de que comércio leva a monopólios cai geralmente nessas duas situações. Ou o monopólio existente oferece um serviço bom a preços acessíveis, ou o monopólio existente oferece preços distorcidos com a ajuda do governo.

Podemos abrir parênteses para admitir que, em uma sociedade hipotética onde as corporações tivessem que devolver tudo que ganharam com a ajuda muscular do governo, a distribuição e formação de capital seria muito diferente e mais homogênea do que a estrutura atual, levando provavelmente à formação de um menor número de monopólios naturais. Esse é um dos argumentos principais da atual ala esquerdista (não coletivista nem autoritária) do liberalismo. Mesmo admitindo essa hipótese, continuamos com a constatação de que o tipo verdadeiramente ruim de monopólio é aquele criado e mantido pelas armas e togas do estado.

Se você começou a pensar em telecomunicações, saiba que os governos detêm o monopólio da concessão de licenças de uso do espaço eletromagnético, e fecham a entrada a muitas chaves, lucrando politicamente e fazendo seus grupos preferidos lucrarem lindamente com esse funil. Se você pensou nas grandes gravadoras e nos grandes conglomerados de eletrônicos, saiba que os governos criaram e usam o dinheiro dos impostos para proteger os direitos artificiais de “propriedade” intelectual. Sob o ponto de vista das modernas teorias de apropriação original (a propriedade privada é uma tecnologia social de respeito à posse de quem primeiro se apropriou fisicamente de algo), deveríamos chamar patentes e copyrights de monopólios intelectuais protegidos pelo estado.

Olhe em volta. Os monopólios não são uma decorrência do comércio.

5. Comércio leva ao materialismo consumista e niilista

Pintura rupestre no Parque Nacional do Catimbau (ou da Capivara?)
Pintura rupestre no Parque Nacional do Catimbau (ou da Capivara?)

O ser humano tem uma alma, que deve ser cultivada e devemos deixar dela aflorar os melhores e mais belos sentimentos. O comércio é uma daquelas atividades que incentivam os sentimentos mais baixos, temporais, carnais, nas pessoas. Ao invés de se preocupar com o belo, com o vivo, com o divino, o comerciante passa o dia a contar suas moedas, a procurar formas de persuadir mais pessoas a comprar seus badulaques inúteis.

Eu tenho uma certa dificuldade em compreender esse argumento, pois sinto um desgosto natural por dogmas, sejam eles religiosos ou estilísticos. Se alguém gosta de coisas banais como colecionar bilhetes de trem, se outrém passa o dia pensando nas Musas, se fulaném sonha em ter toda a coleção de Ferraris ou bolsas Hermés, quem sou eu para gastar tempo tendo a pretensão de enculcar o divino no Outro. Isso não é o mesmo que dizer que não influenciamos as pessoas à nossa volta. Posso preferir música clássica e buscar convencer meus amigos disso, sem querer institucionalizar essa minha preferência na sociedade.

Deixando de lado esse primeiro defeito do argumento, logo vemos que o comércio não tem nada de conflitante com a busca do belo e do divino, ao contrário essas coisas dependem diretamente do comércio. A não ser que queiramos limitar a arte à pintura rupestre, nossos artistas precisarão de suportes e acessórios para elevar nossos espíritos. Os filósofos e intelectuais precisarão de alguém que possa alimentá-los, visto que não plantam nem colhem com suas mãos delicadas. Quem vai fabricar as toneladas de bebida alcólica necessárias para a atividade dos músicos? Sem contar a fabricação de seus intrumentos?

A verdade sempre foi e sempre será a de que as sociedades que mais avançaram na arte e na filosofia foram sociedades que conseguiram acumular maiores excedentes de recursos do comércio. Mesmo as sociedades guerreiras que conseguiram chegar a um alto patamar cultural primeiro saquearam os frutos do comércio do invadido para logo depois passar a taxar e viver do comércio dos mesmos.

Com todas as reclamações e mimimis da humanidade nos dias de hoje, estamos em um patamar cultural nunca antes alcançado. Qualquer Zé das Couves pode ouvir toda a obra de Bethoven, ler Cervantes, ver as pinturas de Da Vinci. Pode-se aprender qualquer língua, pode-se traduzir instantaneamente qualquer texto, pode-se editar qualquer som, realizar um curta-metragem, tirar milhares de fotos. A mania humana de idealizar o passado é risível: um único smartphone é mais potente que a Enciclopédia de Diderot. E isso tudo graças ao comércio.

Os verdadeiros niilistas dizem: mas nada se ganhou com esse acesso e essa abundância, o povão não tem educação nem cultura e prefere consumir X (insira aqui seu produto cultural menos preferido, o roque imperialista, o funk ostentação, o pagode universitário, o techno-maxixe, dê asas à sua imaginação). A isso eu respondo que é uma mentira deslavada: nunca houve proporcionalmente ou quantitativamentetantas pessoas letradas no mundo. É claro que tem muita coisa para melhorar, principalmente na educação pública “gratuita” que é um fracasso a nível mundial. Mas somos forçados a constatar a força da tecnologia e do comércio como vetores de educação e conhecimento.

Conclusão

O barbudinho ficou com uma cara de poucos amigos, a cerveja esquentou, aquela gatinha foi no banheiro… Mas pelo menos você deixou algumas coisas mais claras. O mundo está mais iluminado pelo saber. Enquanto você falava, seu Sebastião vendeu algumas cervejas, coxinhas, refris, pingas e fogo-paulistas. Os engradados de garrafas vazias vão sendo empilhados, o caixa vai engordando, e os hipsters de Botafogo seguem falando mal do comércio, antes de voltarem para casa, dormirem e levantarem novamente para participar voluntariamente no dia seguinte do emaranhado sem fim e completamente humano do mercado globalizado. Os cãos ladram mas a caravana sempre passa.

OS 5 PIORES ARGUMENTOS CONTRA O LIVRE COMÉRCIO

O LIBERALISMO VAI ALÉM DO DEBATE SOBRE O USO DA FORÇA NA SOCIEDADE

Artigo publicado em 2 de maio de 2014 no Liberzone.

By Raphael Moras de Vasconcellos

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No seu artigo “The Future of Libertarianism”, de 1º de maio de 2014, Llewellyn Rockwell, conhecido discípulo anarco-capitalista de Murray Rothbard, busca criticar a recente discussão sobre se o libertarianismo restringe-se a estabelecer o papel adequado do uso da força na sociedade, ou se agrega outras reivindicações morais, como por exemplo a defesa da tolerância social. O proponente inicial dessa discussão foi o left-libertarian radical Charles Johnson no artigo “Libertarianism through thick and thin”, posteriormente apoiado pelos seus colegas Roderick Long, Gary Chartier e Sheldon Richman, que receberia ainda o apoio de Jeffrey Tucker em seu artigo “Against Libertarian Brutalism”.

A tese central de sua crítica é a de que o liberalismo se desvirtuou quando passou a estabelecer novos princípios além daquele de Não Agressão (PNA). O libertarianismo seria a continuação purificada do liberalismo clássico pois, segundo Rothbard, não traz nenhuma teoria moral no seu bojo. Alguns exemplos de argumentos no artigo supracitado:

  1. “Isso se dá porque o libertarianismo per se não se atém a nenhuma teoria moral geral ou pessoal.” (“That is because libertarianism per se has no general or personal moral theory.“)
  2. “Como se perverteu a antes venerável palavra liberalismo? Justamente por causa da aderência a novos valores.” (“How did the once-venerable word liberalism become perverted in the first place? Precisely because of thickism.“)
  3. “é errado impor a outros libertários qualquer variação idiossincrática que chegaram a inserir na nossa venerável tradição.” (“is wrong (…) to impose on other libertarians whatever idiosyncratic spin they happen to have placed on our venerable tradition“)

Independente de que lado do debate “thick/thin” você esteja, os argumentos de Rockwell me parecem inconsistentes. O paradigma que sustenta os atuais estados nações é uma versão de governança liberal concebida nas revoluções americana e francesa, com fortes influências de seu antecessor, o estado monárquico absolutista, e outras novas como o ordoliberalismo alemão.

O movimento americano Democrata, hoje chamado de “liberalism”, portanto não tem nada a ver com“thick libertarianism”, é apenas um liberalismo aguado com pinceladas socialistas e progressistas, assim como o movimento Republicano americano é um liberalismo aguado com pinceladas conservadoras.

Ademais do fato de o Princípio da Não-Agressão ser em si uma teoria moral, como toda ideologia o é, a leitura de qualquer reconhecido autor liberal anterior a Rothbard mostra que o liberalismo possui uma vasta e consistente teoria moral que não se restringe ao princípio da não agressão, mesmo que não seja exatamente o que se propõe chamar de “thick” libertarianism. Para chegar no questionamento sobre o uso da força na sociedade foi preciso discutir e continuar evidenciando variados aspectos da interação social entre os indivíduos.

John Locke baseou sua defesa do direito à liberdade sobre o princípio de igualdade entre os homens, uma igualdade negativa, de que um homem não pode nascer com mais direitos que outro homem (ou mulher, obviamente):

“O “estado de Natureza” é regido por um direito natural que se impõe a todos, e com respeito à razão, que é este direito, toda a humanidade aprende que, sendo todos iguais e independentes, ninguém deve lesar o outro em sua vida, sua saúde, sua liberdade ou seus bens; todos os homens são obra de um único Criador todo-poderoso e infinitamente sábio, todos servindo a umúnico senhor soberano, enviados ao mundo por sua ordem e a seu serviço; são portanto sua propriedade, daquele que os fez e que os destinou a durar segundo sua vontade e de mais ninguém.” (Parágrafo 6, capítulo 2, Segundo Tratado sobre o Governo Civil, John Locke)

Baseou o direito à propriedade privada sobre o princípio da aquisição original através do trabalho (que Adam Smith usou para desenvolver a teoria do valor trabalho e a sua análise da riqueza das nações). Mas continuava a basear tudo isso sobre o princípio da igualdade inerente aos homens.

“Ainda que a terra e todas as criaturas inferiores pertençam em comum a todos os homens, cada um guarda a propriedade de sua própria pessoa; sobre esta ninguém tem qualquer direito, exceto ela. Podemos dizer que o trabalho de seu corpo e a obra produzida por suas mãos são propriedade sua. Sempre que ele tira um objeto do estado em que a natureza o colocou e deixou, mistura nisso o seu trabalho e a isso acrescenta algo que lhe pertence, por isso o tornando sua propriedade. Ao remover este objeto do estado comum em que a natureza o colocou, através do seu trabalho adiciona-lhe algo que excluiu o direito comum dos outros homens. Sendo este trabalho uma propriedade inquestionável do trabalhador, nenhum homem, exceto ele, pode ter o direito ao que o trabalho lhe acrescentou, pelo menos quando o que resta é suficiente aos outros, em quantidade e em qualidade.” (Parágrafo 27, capítulo 5, Segundo Tratado sobre o Governo Civil, John Locke)

Voltaire era um crítico mordaz da monarquia francesa e defensor da paz e do comércio, que segundo ele incitava a tolerância e a diversidade cultural:

“Entrai na bolsa de Londres, esse local mais respeitável que muitas cortes; aí vereis delegados de todas as nacionalidades para utilidade dos homens. Aí o judeu, o maometano e o cristão tratam-se uns aos outros como se fossem da mesma religião e não chamam infiéis senão aqueles que fazem bancarrota; aí o presbiteriano fia-se no anabaptista, o anglicano aceita a promessa do quaker. Ao sair destas assembleias, pacíficas e livres, uns vão à sinagoga, outros beber; este vai baptizar-se, numa grande pia baptismal em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; o outro vai cortar o prepúcio ao filho e mandar dizer alguma algavariada em hebreu, de que não perceberá uma palavra; aqueles vão à igreja esperar a inspiração divina com o chapéu na cabeça e todos estão contentes. Se não existisse, em Inglaterra, senão uma religião, o despotismo seria de recear; se só existissem duas degolar-se-iam reciprocamente; mas, como existem trinta, vivem em paz e felizes.” (“Cartas Filosóficas (ou Cartas de Londres sobre os Ingleses)”, Editorial Fragmentos, Voltaire)

Denis Diderot se dedicou ao esforço hercúleo de compilar, empreender e difundir o conhecimento humano na primeira enciclopédia francesa, sendo alvo da censura do governo e da igreja, mas influenciando o mundo inteiro com essa obra essencialmente liberal, que trazia contribuições de Voltaire, Montesquieu e Jean-Jacques Rousseau. John Stuart Mill foi um defensor do discurso feminista de igualdade negativa entre homens e mulheres. Os membros do movimento abolicionista inglês eram liberais, e assim por diante encontraremos o liberalismo defendendo muito mais que o simples uso da força na sociedade. É sempre possível encontrar nessas defesas a influência do debate sobre o uso da força, mas isso não exclui outras influências do seu desenvolvimento.

O Princípio de Não-Agressão, enquanto princípio, foi teorizado somente no século vinte por Murray Rothbard, especialmente em seu livro “A Ética da Liberdade”. O “libertarianism” é um movimento do pós-guerra americano muito centrado na figura de Rothbard, emprestando parte da filosofia objetivista, não exatamente liberal, de Ayn Rand. Alguns podem defender que esse é o verdadeiro herdeiro do liberalismo clássico, mas como então ser herdeiro querendo esquecer toda a sua tradição moral?

Uma ironia é que a palavra “libertaire” foi primeiro usada para designar uma corrente política pelo francês Joséph Dejacque em seu jornal novaiorquino do meio do século XIX, e significava… socialista. Dejacque estava afirmando que libertaires não tinham as mesmas opiniões machistas que as defendidas pelo anarquista Pierre-Joseph Proudhon. É verdade que o termo inglês libertarian havia sido usado na Inglaterra no fim do século XVIII para denotar informalmente defensores da existência do livre-arbítrio humano (William Belsham em 1789) ou defensores da liberdade na esfera social (jornal London Packet em 1796).

Os anarquistas atuais reclamam o uso de libertarian, libertário ou libertaire do mesmo jeito que os libertários reclamam o uso de liberalism. Alguns lembram que o socialismo original, aquele não autoritário, comunal e não comunista, é também um fruto do liberalismo por ser posterior e tratar de temas similares (igualdade) de forma similar (aquisição através do trabalho) com objetivos similares (uma sociedade melhor, mais livre e justa). Mas o que importa é que palavras são aquilo que as pessoas fazem delas e uma palavra pode carregar significados muitas vezes antagônicos.

Pessoalmente não quero participar do debate libertarianismo “thick/thin“, pois acho que o liberalismo clássico não precisa ser chamado de libertarianismo, nem combina com a influência inconsistente do Objetivismo. O problema com a palavra liberalismo somente existe nos EUA. O economista Daniel Klein estabeleceu o site Liberalism Unrelinquished para coletar assinaturas de libertarians famosos na tentativa de recuperar o uso da palavra liberalism, conseguindo o apoio de diversas figuras conhecidas. É verdade que por outro lado é difícil desassociar a palavra liberalismo do espantalho do “neoliberalismo”: seus críticos tentam vender o estado inchado, violento e mantenedor de cartéis como se fora uma proposta liberal.

De qualquer forma acredito que não se pode dizer que liberalismo se restringe à defesa do Princípio da Não-Agressão, nem que ele não inclui diversas propostas morais. Por exemplo, não se pode ser um misantropo e ao mesmo tempo querer defender coerentemente a filosofia liberal: o liberalismo é uma declaração de amor à humanidade.

O LIBERALISMO VAI ALÉM DO DEBATE SOBRE O USO DA FORÇA NA SOCIEDADE

5 TECNOLOGIAS ESSENCIAIS QUE UM DIA FORAM COMBATIDAS

Artigo postado no Liberzone em 23 de Abril de 2014

By Raphael Moras de Vasconcellos

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Você já reparou que a humanidade tem o costume milenar de combater todo tipo de inovação tecnológica? Na cultura ocidental esse pessimismo foi imortalizado através de mitos como o rebelde Prometeu, que ousou desafiar Zeus e restaurar o uso do fogo pela humanidade, o destemido Ícaro que voou perto demais do sol, e a maçã proibida do Jardim do Éden. Felizmente a realidade tem o costume de nos mostrar que exagerar no medo da tecnologia é uma grande besteira.

Desde os tempos das cavernas, quando era importante ter medo da novidade (cada barulho poderia ser o desabamento da caverna ou a chegada de um predador), até os dias de hoje, onde é importante ter medo do medo da novidade, quantas tecnologias provocaram uma reação que agora nos parece risível? É isso que eu quero ajudá-los a descobrir nessa lista das 5 tecnologias essenciais que um dia foram combatidas:

1. Sócrates achava que a palavra escrita emburrecia as pessoas

Sem escrever o nome na camisa, como saber o nome do jogador???
Depois teve que pendurar as chuteiras.

Platão nos conta um diálogo que Sócrates teria tido com seu chamego Fedro, mancebo provocante e instigador. Flerta daqui, xaveca dali, Fedro o convence a discursar sobre diversos assuntos, entre outros a invenção da escrita. Sócrates fala então de quando o deus egípcio Thoth ofereceu diversas artes novas ao rei Thamuz, que morava em Tebas (atual Luxor, onde Napoleão “ganhou de presente” o obelisco da Place de la Concorde), e uma dessas artes era a palavra escrita. Orgulhoso de seus inventos, Thoth afirma entusiasmado que a escrita ajudaria os egípcios pois:

“Esta arte, caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória; portanto, com a escrita inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria.”

Ao invés de agradecer, o desgramento do rei responde:

“…tu não inventastes um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites para teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em conseqüência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.”

Fedro, a velhice amoleceu minha antiga rigidez intelectual.
Fedro, a velhice amoleceu minha antiga rigidez intelectual.

Entendeu? Se você aprender algo em um livro, nada terás aprendido jovem gafanhoto, é preciso um professor com uma licença de filósofo falante auferida em três vias de cartório para poder haver REAL ENSINO™. Fora do discurso dialético patenteado pelos gregos, nada funciona como método de busca de conhecimento. Sócrates (e Platão que também defendeu essa tese) erraram o gol por algumas centenas de kilômetros, pois como sabemos a escrita é usada por 84% dos humanos com mais de 15 anos, e foi evoluída até chegar em seu ápice, o MIgUxXxEixXx…….

2. A socialite desprezada porque não queria comer com as mãos

Ainda hoje nos países árabes (e na Índia) é muito comum comer com as mãos, e os costumes se estabeleceram na especialização da mão direita para comer, apertar mãos e escrever. Esta mão deve sempre estar limpa, pois entrará em contato direto com a comida que todos partilharão. A mão esquerda… ela é considerada suja, porque a ela restam todas as outras tarefas. Pobre mão esquerda.

Leia esse livro, sério.
Subitamente o título deste livro ganha uma nova e insalubre conotação.

Hoje sabemos que esse costume não basta, afinal os germes e os vírus estão por toda parte. Mas as pessoas na Europa medieval não sabiam disso, e comiam felizes com as mãos, sem se importar muito com qual, onde e quando.

Todo mundo comia com as mãos, beleza? Era aquela lambança divertida, dedões sendo lambidos e chupados com gosto e as línguas estalando no céu da boca numa sinfonia de glutões. Por volta do ano 1000, schlurps e nhacs eram a norma em qualquer mesa na Europa, do nobre ao lacaio. A diferença era na qualidade do pano de limpar as mãos, e se a roupa seria lavada ou não depois de cada orgia alimentícia.

Até a chegada de uma riquinha chamada Maria Argyropoulina, sobrinha do Imperador Basil II de Bizâncio, que se mudou para Veneza ao se casar com Giovanni, filho do Doge (espécie de presidente de cada república italiana) desta cidade, Pietro Orseolo II. De cara, ela não causou boa impressão com seus modos educados e sofisticados, onde já se viu? Mas o que realmente sacramentou a opinião pública contra a socialite foi o par de talheres pontiagudos que ela usava para cutucar a comida e levá-la até sua boca. Ultraje!

Me passa esse treco aqui, esposa!
“Porque não ouvi a vovó, os italianos são uns selvagens invejosos!”

No Oriente Médio e no Império Bizantino, o garfo já vinha sendo usado desde o século VII pela nobreza, e no século X era popular entre as famílias abastadas dessas regiões. Mas na Europa somente a faca tinha lugar na mesa. Portanto podemos imaginar o escândalo que foi chegar aquela metida a besta, quero dizer, aquela pessoa phyna e começar a usar um prolongador para evitar o contato direto com a comida, provavelmente fazendo cara de nojinho.

Apesar da inovação higiênica, Maria morreu contaminada pela praga dois anos depois, ironia fatal. Para alguns padres, foi uma ação direta de Deus reprovando o uso de tais instrumentos do demônio. Deus teria parado de cuidar de seus afazeres atemporais, deixado de lado a administração do universo e de Todas As Coisas Existentes, para dar uma lição nesta agressora de sagrados dogmas. Segundo São Pedro Damião:

“Deus na Sua sabedoria providenciou o homem com garfos naturais – seus dedos. Dessa maneira é um insulto a Ele substituí-los por artificiais garfos metálicos na hora de comer.”

Sapiência e benevolência.
Não deixo essa estrangeira garfar a atenção da glr!

Que sapiência, que elucubração iluminada, deve ser por isso que foi canonizado.

O garfo levou mais alguns séculos para se tornar popular entre os italianos, e somente com a chegada de Maria de Médicis na França, para se tornar a rainha chifruda e se casar com Henrique II, é que ele foi introduzido nas cortes francesas. No século XVII as pessoas levavam garfos e facas consigo para quando precisassem deles na hora de comer, e por isso a cutelaria se tornou um símbolo de status. Luís XIV foi talvez o maior responsável pela tortura que se tornou a etiqueta à mesa, antes da chegada da nossa santa salvadora Danuza Leão. Agora a gente pode comer com o garfo na mão direita, que é chique descontraído.

3. O escriba que odiava a impressão de livros

A luz me incomoda então deixo a cortina fechada.
Malditos livros e seu acesso ao conhecimento e ao iluminismo.

Apesar da escrita ter sobrevivido aos resmungos de Platão Sócrates, não era moleza escrever em lápides de mármore. O papiro vinha do longínquo Egito para a Europa e os pergaminhos de couro eram caros e matavam os animaizinhos bonitinhos. Foi preciso esperar até o século XIII para o papel chegar de caravana da China, através do Oriente Médio, nas Oropa. Ufa!

Nessa época a educação era para poucos (como hoje em dia no trânsito carioca) e 99% da população ativa era condenada diariamente ao pesado trabalho na roça. O poder se concentrava ao redor dos senhores da guerra (os nobres) e os porteiros do paraíso (a igreja), que também eram os únicos com motivação, tempo e dinheiro para acumular os caríssimos e pesados tomos de conhecimento. Assim os monges dos grandes centros cristãos aprendiam a copiar os tratados de filosofia e teologia, garantindo a preservação e a passagem dos clássicos da antiguidade.

Sugiro os omeletes da Mère Poulard e o carneiro do pré-salé.
Biblioteca pública medieval à prova d’água e com sistema anti-ingleses.

Muito obrigado padres, apesar da igreja ter recebido muito bem pelos serviços. Mas não descansem muito tempo sobre seus traseiros! Um ourives alemão, morador da bela cidade de Estrasburgo, no meio do século XV inventou o aparelho mais influente do segundo milênio; não estou falando de nenhum instrumento de tortura medieval, e sim de Johannes Gutenberg e sua prensa de tipos móveis. Engraçado que em inglês fica mais impressionante, printing press, em português parece imprensa e ninguém sabe direito do que se está falando. Enfim, o barangandã que imprime livros idênticos em série e em grandes quantidades.

Os escribas subitamente não tinham mais emprego garantido, e até a igreja passou a imprimir indulgências (os terrenos no céu) nas novas máquinas, então nada mais lógico que algum padre se levantar e mostrar as desvantagens da novidade. Xará contemporâneo e patrício de Gutenberg, o monge escriba Johannes Trithemius escreveu o mimimi “De laude scriptorum manualium” (Elogio aos Escribas), onde lembrava a todos que:

“[O escritor,] enquanto está escrevendo sobre bons assuntos, de algum modo é introduzido através do ato de escrever no conhecimento dos mistérios e grandemente iluminado na sua mais recôndita alma; pois esses assuntos que escrevemos imprimimos mais firmemente na memória… Enquanto ele está ruminando sobre as Escrituras ele é frequentemente inflamado por elas.”

De bouas, ralando aqui pra receber em dobro no céu, kkkkkkkk!
De bouas, ralando aqui pra receber em dobro no céu, kkkkkkkk!

Isso lembra o discurso de algum filósofo grego sentado embaixo de alguma árvore? Ironicamente, tudo isso precisou ser IMPRESSO NUM LIVRO para que outras pessoas lessem sobre a desvantagem da impressão de livros. O monge seguia dizendo que o esforço desumano de copiar livros gigantescos ajudava a construir e endurecer o bom caráter dos monges, que de outra maneira não teriam p. nenhuma para fazer e todos sabem que o ócio é o playground do Tinhoso. Ademais, as letras escritas à mão eram mais bonitas, os livros impressos eram difíceis de achar, blá blá blá, se ferrou capelão, hoje em dia a escrita é apenas uma arte hipster realizada em molesquines ou uma forma de punição para o Bart Simpson.

O LIVRO GANHOU, graças a Deusenberg.

Minha mãe fabricava vinho.
Like a boss.

 4. A revista Nature publicou um artigo contra a eletricidade em 1889

Fique longe!
Risco de Shock de Monstro.

Sabe esse Exemplo de Seriedade que é a revista Nature? Pois é, nada mais vanguardamente iconoclasta do que atacar uma das torres de marfim da ciência sob um ângulo privilegiado: o das previsões que falharam espetacularmente. O homem não é perfeito, nem mesmo os articulistas aprovados pelo conselho editorial da Nature, e o artigo “A Vingança da Natureza contra a Engenhosidade” de  Charles Hallock, na edição de novembro de 1889, prova isso. Não é um artigo apenas contra a eletricidade, é praticamente uma condenação da inovação, uma maldição à engenhosidade humana. Veja por si mesmo(a):

“A natureza sempre foi muito liberal e beneficente com a raça humana. (…) Nada ficava a desejar. (…) Mas, com o aumento do conhecimento que seguiu-se À Queda, surgiram desejos incontroláveis; e esse desejo insaciado é a punição fixada pela desobediência primitiva. (…) Desde o começo o objetivo constante do homem foi o de neutralizar essa punição, e restaurar através de seu próprio esforço aquela condição imaculada e abençoada de quando o contentamento não deixava nada mais a ser desejado.”

Se a punição veio depois do pecado original, o objetivo do homem não seria o pecado, ao invés da neutralização da punição?
Se a punição veio depois do pecado original, o objetivo do homem não seria o pecado, ao invés da neutralização da punição?

Um fundamentalista religioso hoje escreveria de forma menos erudita, mas certamente aplaudiria esses argh-jumentos. Ler isso em uma revista que deveria ESTIMULAR a indagação, que certamente não abriga em seu bojo conceitual o contentamento intelectual, é de lascar. O que acontece se você busca solucionar problemas econômicos através de inovações tecnológicas?

“(…) novas punições e angústias persistentemente e inexoravelmente seguem cada nova invenção (…). Súbitas calamidades e novas doenças não apenas surgem diante dos olhos, mas são originadas pelas novas engenhocas que foram inicialmente vistas como benefícios e maravilhosos aperfeiçoamentos. (…) locomoção rápida envolve fatalidades, inventos mecânicos para diminuir o esforço do trabalho empobrecem multitudes enquanto beneficiam apenas uma pequena parcela; e não somente os inventos econômicos, como também os dispositivos estéticos exercem uma influência reflexiva sobre a saúde e o conforto daqueles que os utilizam. O mundo da moda torna-se o vestíbulo do cemitério.”

Vestíbulo do cemitério? QUE QUE CÊ TÁ FALANDO CARA, poderia ser mais claro?

“De fato, pode ser afirmado como um postulado, em princípios gerais, que a relação é de 100 malefícios para cada benefício conquistado pelas invenções humanas.”

[Sai da sala, faz um café. Observa as montanhas ao longe, pensando no passado e no futuro. Volta para o computador.]

Fala isso não broder.
Quer dizer que foi tudo uma grande ilusão?

Errrrrrr. Continuando.

“Mas o trabalho progressivo do homem não está apenas destruindo a si mesmo, mas está acelerando a destruição da Terra, com cujo destino final a humanidade está comumente envolvida, de acordo com as escrituras. (…) assim que o seu esforço for corado com sucesso, a destruição do mundo não é mais uma questão de séculos, mas de anos.”

Destruição demorada essa hein? Faltou aceleração, talvez? Qual é a diferença desse argumento para o atual apocalipse dos gases de efeito estufa? Nenhuma. Faz sentido, afinal a reciclagem é um dos princípios mal utilizados pelo ambientalismo apocalíptico. Carlinhos Mal-Humorado finalmente explica porque está tão preocupado com o futuro da humanidade:

“Atualmente nosso mais perigoso animal de estimação é a eletricidade – no telégrafo, na lâmpada de rua e no telefone. Introduzimos a energia elétrica nas nas mais simples indústrias domésticas (…) como uma teia em volta de nossa moradia, e preenchemos nossa atmosfera com os filamentos da morte.” Bom nome pra banda de trash-punk-metal, FILAMENTOS DA MORTE. “O público declama que a luz elétrica não é essencial ao bem estar social. Não é uma necessidade mas um luxo. Abolindo-a reduzimos consideravelmente o perigo.”

Qual perigo, Carlinhos decidiu não explicar, mas se formos acreditar nele, a eletricidade é uma Shelob que convidamos a morar com a gente.

A rede elétrica me pegou.
Vítima da eletricidade.

“O telefone é o mais perigoso de todos pois entra em cada moradia. Sua interminável rede de fios é uma ameaça perpétua à vida e à propriedade. No seu melhor papel é apenas uma conveniência. Nunca foi uma necessidade.”

O que dizer, já que estou escrevendo em um computador, para publicar na internet?

5. A revista Scientific American publicou em 1859 um artigo contra o jogo de xadrez

Mais uma vítima do xadrez desregulamentado.

Eu tento me preparar para todos os tipos de absurdos, mas admito que esse ataque foi inusitado demais. Aparentemente tudo começou com a vitória de um americano chamado Paul Morphy em um torneio disputado com mestres enxadristas europeus. Houve uma turnê de reconhecimento ao feito, e ele foi tratado como hoje são tratados os ganhadores de medalhas olímpicas: recepções, feiras e banquetes. Se o caso parasse por aí não haveria consequências, mas algo sinistro estava acontecendo… Os jovens americanos estavam, segurem-me senão vou desmaiar, ficando viciados em xadrez:

“(…) uma perniciosa excitação de aprender e jogar xadrez se espalhou por todo o país, e numeroso clubes para a prática deste jogo se formaram em cidades e vilas.” OH, QUE HORROR! Até nas pobres vilas??? “Porque deveríamos lamentar isso?” Não sei, me conta!!! “Xadrez é um mero passatempo de caráter deveras inferior, que rouba valioso tempo da mente que poderia de outro modo ser consacrado a mais nobres conquistas, ao mesmo tempo que não oferece nenhum benefício ao corpo.”

Hmmm… Somente isso, um divertimento inútil? Tipo ouvir funk ostentação? Mas e todo aquele papo de ajudar na memória e no pensamento estratégico, Napoleão que o diga?

Você não tem mais peças de roupa para apostar, gatchenha.
STRIP CHESS!!!!

“Essas opiniões são, na nossa opinião, extremamente errôneas. Napoleão o Grande, que tinha uma grande paixão por xadrez, era frequentemente vencido por um rude merceeiro em Santa Helena. Nem Shakspeare (sic), Milton, Newton, nem qualquer outro dos Grandes da terra, adquiriram proficiência no jogo de xadrez. Aqueles que se tornaram os mais renomados jogadores parecem ter sido dotados de uma peculiar faculdade intuitiva de fazer os movimentos certos, ao mesmo tempo que possuem faculdades muito ordinárias para outros propósitos.”

OUCH! Uma pessoal genial então tem que ser horrível em xadrez, estou entendendo a causalidade. Para colocar uns arrebites de platina a mais no caixão desse jogo fedorento, a revista nos avisa as consequências, ou deveríamos dizer, a FALTA de consequências da prática do xadrez:

“Um jogo de xadrez não adiciona um único fato novo à mente; não estimula um único pensamento bonito; não serve a nenhum propósito para polir e aperfeiçoar as nobres faculdades. Pessoas engajadas em ocupações sedentárias não deveriam nunca praticar esse triste jogo; elas requerem exercícios ao ar livre para a recreação – não essa forma de esgrima mental. (…) Melhor deixá-los dançar, cantar, jogar bola, fazer ginástica, vagar pelos bosques ou pela beira do mar, que jogar xadrez.”

Peão é um bicho burro mesmo.
Peão é um bicho burro mesmo.

Você quase me convenceu, estou quase desistindo de instalar aquele xadrez animado, onde o rei degola os peões, o cavalo atropela o bispo, etc.

“Um jovem gentil-homem de nosso conhecimento, que veio a adquirir uma certa habilidade como jogador, recentemente empurrou para longe o tabuleiro de xadrez após um jogo, declarando: Já gastei muito tempo nisso; não aguento mais jogar; esse foi a minha última partida. Recomendamos essa resolução a todos que tolamente se deixaram levar pela presente febre do xadrez, pois habilidade neste jogo não é uma conquista nem útil, nem graciosa.”

Pronto, depois de me contar sobre esse caso isolado, anônimo e anedótico, você me convenceu de forma científica e definitiva da necessidade premente de abandonar o vício de tão vil passatempo.

Nego não se decide.
Mais tarde seria o contrário: xadrez: BOM; dançar: RUIM.

Conclusão

Como vimos nesse episódio, amiguinhos, a tecnologia obviamente espanta os caretões e assusta os atrasados. Quando você vai ver, POU, já era mano, a vanguarda passou o rodo e você é notícia de jornal velho. Mas alguém sempre vai dizer: a tecnologia é uma faca de dois legumes, pode ser usada para o bem mas também para o mal. Homens maus existiram antes da tecnologia ser tecnologizada, e sem tecnologia os homens bons estão em desvantagem contra os homens maus. Ausência de tecnologia não erradica o mal, apenas desarma o bem.

Eu sei, você descobriu, sou contra a Campanha do Desgarfamento… A FAVOR DE QUE TODOS TENHAM DIREITO AO USO DE GARFOS!!!

O verde, o amarelo, o mundo é tão...
O bem vence o mal, espanta o temporal.

Links de referência:

Scientific American / New Series, Volume 1, Issue 1 [pp. 1-16] – Chess-Playing Excitement

Wondermark.com – True Stuff: Monk vs. the Printing Press

Wondermark.com – True Stuff: The Menace of Telephones

Wondermark.com – True Stuff: Socrates vs. the Written Word

MIT.edu – Phaedrus by Plato

Venice Blog – The History of the Fork

Design Sponge – Past and Present: History of the Fork + Collecting & Care

The Gospel According to the Romans – Religious Opposition to the Table Fork

5 TECNOLOGIAS ESSENCIAIS QUE UM DIA FORAM COMBATIDAS

O SAVOIR-FAIRE DA TORTURA ENSINADO À DITADURA BRASILEIRA

Artigo publicado no Liberzone em abril de 2014.

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Morto ano passado, a experiência do general francês Paul Aussaresses na repressão à independência da Argélia o levou a ensinar técnicas de interrogação e tortura no CIGS (Centro de Instrução da Guerra na Selva) em Manaus, de 1973 a 1975. Sua chocante história foi revelada por ninguém menos que o próprio general, após uma sequência de entrevistas espontâneas na imprensa francesa, depois escancarada no seu livro “Services spéciaux, Algérie 1955-1957 : Mon témoignage sur la torture “, de 2001 (e mais dois, um em 2001 e outro em 2008). As revelações tiraram do sono o debate sobre o uso da tortura na Argélia pelas forças francesas, e aproveitamos a semana do aniversário do golpe brasileiro para contar essa triste história de amizade entre os governos brasileiro e francês.

O general tinha todos os ingredientes de um vilão de filme do James Bond: era frio, calculista, assassino e torturador confesso, e para completar usava um tapa-olho. O olho esquerdo ferido na Segunda Guerra sempre o incomodou e, pouco tempo antes de sua morte em 2013 aos 95 anos, foi preciso removê-lo por conta de complicações resultantes de uma cirurgia de catarata. Outros olhos marcantes em sua vida, segundo ele, foram os da garota europeia encontrada após o massacre de El Halia na Argélia; os nacionalistas do FLN haviam-nos furados e ela andava topando contra as paredes ensanguentadas do vilarejo mineiro. Torturar os rebeldes não apagou essa visão da memória do general, mas foi sua principal justificativa moral para dizer que não sentia remorsos.

Penso que, se a tortura pode evitar a morte de inocentes, ela se justifica. É meu ponto de vista. Não a aprecio, não a aprecio, não a aprecio.” – respondeu à Folha de São Paulo em 2008. A reportagem foi realizada pela jornalista Leneide Duarte-Plon, brasileira radicada a França que lançará, justamente agora em abril de 2014, um livro sobre a colaboração de Aussaresses no Brasil.

O começo de sua carreira militar se deu na Resistência Francesa contra a invasão nazista, como paraquedista. Logo adentra o grupamento de contra-espionagem e é confundido com espiões e capturado pelo exército soviético a 150 km de Berlim após um salto mal calculado, no momento em que as forças armadas alemãs implodem. De volta à França desocupada, foi enviado para lutar contra a independência da Indochina como chefe de batalhão de paraquedistas. Os comunistas do Viet Nimh expulsaram os ocupadores europeus e mataram centenas de milhares de compatriotas nesse conflito.

Após a derrota e a retirada francesa do nascente Vietnã, Aussaresses foi enviado à Argélia, outra ex-colônia francesa em processo de insurreição. O primeiro-ministro socialista Guy Mollet se vê obrigado a tentar resolver o problema do terrorismo nacionalista do FLN (Fronte de Libertação Nacional), que não poupava civis em seus atentados à bomba. Em janeiro de 57 o FLN organizou uma greve nacional para coincidir com a reunião sobre a questão algeriana na jovem ONU, e o governo francês decidiu dar carta branca aos militares para garantir a ordem em Alger e reprimir a qualquer preço o FLN e sua greve.

“O que o governo queria dizer com isso? Eu sabia que, utilizando os mesmos métodos dos nazistas, eu chegaria a um resultado.”

Esse “a qualquer preço” levou o general Jacques Massus, responsável local, a designar o oficial de 39 anos Paul Aussaresses como chefe da contra-espionagem, uma equipe paralela e discreta, pronta a todas as tarefas sujas necessárias. Sua principal função era a de diariamente recolher nas diferentes prisões temporárias de Alger os prisioneiros promissores, que poderiam fornecer informações sobre o FLN. Após serem torturados através de espancamento, choque e afogamento, eles eram executados e seus corpos descartados no mar, acimentados ou em valas fora da cidade. Aussaresses escreveu anos depois ter assassinado dessa forma duas figuras centrais do FLN: Larbi Ben M’hidi, em um enforcamento aparentemente suicida, e o advogado Ali Boumendjel, este jogado pela janela do 6º andar.

Prisioneiros argelinos em campo de concentração francês
Prisioneiros argelinos em campo de concentração francês

A responsabilidade desses métodos desumanos não pode ser colocada toda nas costas dos militares; é preciso dividir com os representantes civis do governo francês que tinham inicialmente dado o carta branca e posteriormente mantinham um silêncio calculado mesmo tendo conhecimento tácito do que ocorria em Alger. Aussaresses contou que era boa e constante sua relação com o enviado do ministério da justiça Jean Bérard, que sabia da tortura e dos assassinatos. O ministro se chamava François Miterrand.

O torturador volta à França no mesmo ano, no contexto do desaparecimento do estudante ativista Maurice Audin. De 1960 a 1963 foi enviado como adido militar aos EUA, e chamado a ensinar no Forte Bragg, famoso centro de treinamento de contra-insurreição para forças especiais, os boinas verdes. Este centro é conhecido pelo treinamento da tortura em interrogação usada no Vietnã, e na recente Guerra ao Terror em Guantânamo e Abu Grhaib. Parte da fama vem também do filme Rambo, aluno fantasia do Forte Bragg. Paul Aussaresses nesse momento teve os primeiros contatos com militares latino-americanos, alguns dos quais voltaria a encontrar dez anos depois no Brasil.

Finalmente, em 1973 foi designado adido militar no Brasil do ditador Ernesto Geisel, e se tornou amigo próximo de João Figueiredo, então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informação) e futuro “presidente” da república. Outro frequente contato foi com Sérgio Fleury, figura particularmente nefasta dos esquadrões da morte e delegado niteroiense que dirigiu o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) em São Paulo. A tortura e a execução nessa época já estavam bem estabelecidos na ditadura brasileira, com a justificativa paranoica de combater a invasão comunista no Brasil. Para quem não lembra até onde ia essa paranoia, durante a presidência de Figueiredo, e com sua complacência, militares planejaram o atrapalhado atentado false flag do Riocentro (enquanto Elba Ramalho se apresentava no Dia dos Trabalhadores de 1981).

Delegado Sergio Fleury do DOPS
Delegado Sergio Fleury do DOPS

Durante o seu período no Brasil, Aussaresses deu aulas principalmente em Brasília e no CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva). Já eram passados quase uma década desde o começo da ditadura, e as técnicas e instituições de tortura tinham se sofisticado; um instrutor experimentado e embasado como Aussaresses, seguidor do teórico Roger Trinquier, era um importante recurso para a melhoria da eficiência da repressão política. Outros países mandavam oficiais para aprender no CIGS, e notavelmente o francês ensinou parte da polícia secreta de Pinochet (DINA) logo após o golpe que destituiu Allende. Golpe esse que contou com a ajuda militar brasileira, na forma de envio de aviões e armamentos.

O encontro dos ditadores Figueiredo e Pinochet
O encontro dos ditadores Figueiredo e Pinochet

Mas essa não era a única função do antigo paraquedista. Ele atuou como ponte na transferência e na negociação de tecnologia militar da França ao Brasil, como os caças Mirage da empresa Dassault que interessavam ao governo brasileiro. Junto à empresa Thomson-Brandt (hoje Thalles), pareciam ser as duas principais privilegiadas na amizade militar entre Brasil e França, em acordos políticos não muito diferentes do que se tentou recentemente com os caças Rafale. Não por acaso, logo após o fim de sua função no Brasil em 1975, ele se aposentou do exército e se tornou mercador de armas da empresa… Thomson-Brandt, que viria a ser nacionalizada nos anos 80 por Miterrand. Militares brasileiros que facilitavam os contratos na empresa do torturador tornado comerciante ganhavam comissões por sua ajuda.

Até suas entrevistas e revelações espontâneas, viveu uma vida discreta na região vinícola do Baixo Reno, na Alsácia, cercado de florestas e castelos. A partir da reportagem publicada na primeira página do Le Monde em maio de 2001, foi reaberto o debate sobre o colonialismo do governo francês e a sua tradição de uso de tortura pelos seus militares, assunto extremamente contemporâneo caso se investigue as ligações de instrutores como Aussaresses, as intervenções militares francesas na África e no Oriente Médio, e os interesses armamentícios corporativos de empresas como a Societé Dassault.

Seu livro mencionado no início deste artigo o rendeu um processo de apologia à tortura, no qual foi condenado a pagar uma multa de €75.000. O presidente Jacques Chirac, em um exercício de hipocrisia, determinou a retirada de uma das suas numerosas medalhas, sem contudo estender-se sobre a responsabilidade do governo francês como um todo.

A vida e obra deste militar serve como lição de até onde a obediência ao governo, disfarçado de Pátria ou Nação, pode levar. Em seu distorcido código ético, ele afirma que a diferença entre a resistência francesa e a argelina era a ordem do general de Gaulle ao respeito à Convenção de Genebra, sem crer em nenhuma semelhança entre dois povos combatendo invasores estrangeiros. Quando lembrado que tampouco respeitou a Convenção no seu “trabalho” em Alger, faz apelo à diferença entre os motivos da Gestapo e de sua equipe de tortura: os alemães torturavam e matavam pela raça enquanto os franceses estavam salvando a vida de inocentes que poderiam morrer nos atentados de nacionalistas argelinos. A tortura seria um meio neutro, o fim é que separaria o certo do errado. A colaboração entre os serviços de informação dos dois governos seriam uma forma de “salvar o Ocidente da ameaça vermelha”.

Para finalizar deixo uma resposta emblemática deste general para quem o valor da vida humana depende de sua afiliação política:

“FOLHA – No livro o sr. narra o episódio de tortura de uma mulher que veio ao Brasil para, segundo o general Figueiredo, espionar o senhor. Figueiredo o fez vir de Manaus às pressas para mostrar a moça, já irreconhecível depois das sessões. Ele depois o informou que ela morrera no hospital. Nunca questionou o método bárbaro usado para obter informações daquela mulher?
AUSSARESSES – De jeito algum! A morte dessa mulher era (sic) um ato de defesa.”

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ERRATA – este artigo mencionava o primeiro-ministro Guy Mollet como “presidente”, grato ao Luiz Giaconi pelo aviso.

Referências para pesquisa deste artigo:

– 23.11.2000 FLORENCE BEAUGÉ Les aveux du général Aussaresses : “Je me suis résolu à la torture”LE MONDE

– 12.12.2000 JEAN-DOMINIQUE MERCHET Général basses oeuvres LIBERATION

– 04.05.2001 JEAN-DOMINIQUE MERCHET Aussaresses raconte «sa» guerre LIBERATION

– 19.05.2001 FLORENCE BEAUGÉ Le secret du général Aussaresses LE MONDE

– 27.11.2001 BRIGITTE VITAL-DURAND La torture, «sans plaisir» mais sans remords non plusLIBERATION

– 09.11.2005 SORJ CHALANDON Le supplice LIBERATION

– 29.06.2006 MARK BENJAMIN Torture teachers SALON

– 04.05.2008 LENEIDE DUARTE-PLON A tortura se justifica quando pode evitar a morte de inocentesFOLHA

– 16.06.2008 GREGORY PAPIN Paul Aussaresses L’Interview VICE

– 22.07.2012 EDUARDO FEBBRO O general francês que veio ensinar a torturar no Brasil CARTA MAIOR

– 04.12.2013 REDAÇÃO Mort du général Aussaresses, tortionnaire en Algérie LIBERATION

– 21.12.2013 REDAÇÃO General francês e professor de torturas do exército brasileiro REVISTA FORUM

– 07.01.2014 LENEIDE DUARTE-PLON Os últimos vestígios da França colonial OBSERVATORIO DA IMPRENSA

– 15.01.2014 LENEIDE DUARTE-PLON Mestre em tortura CARTA CAPITAL

– 30.03.2014 CHICO OTAVIO Doutrina dos porões: a escola que disciplinou a tortura OGLOBO

– 30.03.2014 JOSÉ CASADO Riocentro: documentos revelam que Figueiredo encobriu atentadoOGLOBO

Artigo Paul_Aussaresses WIKIPEDIA em francês

O SAVOIR-FAIRE DA TORTURA ENSINADO À DITADURA BRASILEIRA