O dilema do confisco das armas

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Uma coisa que me toquei ontem é que o debate do direito de posse às armas é enquadrado no dilema moral do bonde sem controle (trolley) pelas pessoas que defendem o confisco.

O bonde descontrolado é a posse das armas. As pessoas numerosas que vão morrer caso “não se faça nada” são as vítimas das armas, e aquelas pessoas menos numerosas que estão na outra trilha são as pessoas que seriam salvas por armas caso elas não fossem confiscadas.

Os defensores do confisco estão (no geral) extremamente convencidos de que ele irá evitar a morte de muito mais pessoas, e não realizá-lo nos deixará com um saldo muito pior de vidas perdidas.

O raciocínio moral aqui é o do consequencialismo literal, você faz uma estimativa de quantas pessoas ficam vivas e outra de quantas morrem, e o resultado implica na escolha moral.
Obviamente pessoas não são máquinas, e pouquíssimas irão realmente buscar evidências robustas nas estatísticas e nas formulações de especialistas. Elas irão buscar na superfície os argumentos ou simples *memes* que irão reforçar a crença já estabelecida nas suas mentes (evitando a dissonância cognitiva, o sentimento desprazeroso associado a acreditar em duas coisas mutualmente exclusivas).

Mas caso sejam pressionadas, irão se encastelar neste cálculo consequencialista da estimativa de vidas salvas e perdidas. Tomar conhecimento desse fenômeno pode ajudar a compreender melhor o debate em torno das armas. Uma forma similar, sob o ponto de vista das premissas de justificativa moral, de enquadrar o assunto é através da análise econômica dos problemas sociais (ver Gary Becker).

*consequencialismo literal eu chamo aquele que ignora que o consequencialismo é apenas uma outra face do jusnaturalismo: os direitos naturais surgiram apenas pois eles causam boas consequências (sugiro o texto do Roderick Long sobre isso).

**caso fôssemos tentar enquadrar a defesa da posse de armas no mesmo dilema do bonde, precisaríamos separar em categorias complexas de vítimas: pessoas que morreriam por causa do confisco e que morreriam por causa da posse, levando em conta o máximo possível das consequências não esperadas (mercado negro) e das ineficiências da posse (pessoas podem falhar na autodefesa) e do confisco (apenas criminosos terão armas).

***uma defesa jusnaturalista da posse evitaria se enquadrar no dilema do bonde, visto que o valor individual do direito à posse de armas varia de indivíduo para indivíduo, e tem um valor pessoal dissociado das consequências da posse de armas de outra pessoa. Se A tem arma, ele não é culpado se B atirou em C.

O dilema do confisco das armas

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