A SARDINHA DA AVENUE FOCH

Publicado no site Liberzone no início de 2014.

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novo alvo dos socialistas ecolôs de Paris é a Avenue Foch (pronunciada fósh), um símbolo entre os endereços elitistas do mundo.

Esta via foi criada dentro do projeto de urbanização do presidente, e depois imperador, Napoleão III  entre 1850 e 1870, quando o seu capanga preferido, o prefeito Haussmann, derrubou 60% da cidade para construir uma cidade moderna nos padrões da época. O modelo a ser ultrapassado era São Petersburgo, e após 2,5 bilhões de francos gastos em 20 anos, o prefeito foi demitido deixando uma cidade com esgoto, iluminação a gás, banheiros públicos e, principalmente, à prova de fogo, com muralhas e espaço e trens suficientes para tropas se posicionarem e esmagarem revoltas facilmente. Paris tinha uma longa história de cidade turbulenta, e fácil de sitiar ou se revoltar.

A Avenida Foch foi então desenhada com 120 metros de largura e 1300 metros de comprimento, para que os burgueses de carruagem pudessem ver e ser vistos entre o Arco do Triunfo e o Bois de Boulogne (que estava sendo criado na época). Rapidamente se tornou um dos endereços mais chiques de Paris, atraindo os novos “barões” da indústria como os Rothschilds e os Onassis. Tomou o nome atual em 1929 após a morte do General Foch (que ganhou a batalha do Marne na Primeira Guerra Mundial e profetizou que, caso o Tratado de Versalhes concedesse a manutenção da união territorial da Alemanha, haveria guerra exatamente 20 anos depois). Hoje em dia, ou melhor, à noite, é um destino preferencial de prostitutas decadentes com carros próprios, que invertem a lógica tradicional da profissional à pied.

Além de ter um metro quadrado muito caro (média de 12 mil €/m²), os apartamentos são muito grandes e o preço atinge a estratosfera, na casa das dezenas de milhões de euros.  Na Segunda Guerra os alemães estabeleceram nessa avenida um escritório da Gestapo, onde escolhiam quais judeus seriam deportados para Auschwitz, e por isso os parisienses passaram a chamar a avenida de Avenue Boche (termo pejorativo que designava um alemão cabeça-dura). Há cinco anos atrás o governo andou perseguindo as escrituras dos ditadores africanos (Gabão, Congo, entre outros) com apartamento nessa avenida (os amigos dos ditadores do Qatar que também possuem apartamento lá, esses não, porque pode atrapalhar o investimento dos petrodólares na França). Segundo a fofoca, FHC e Sérgio Motta também compraram imóveis por lá.

Anne Hidalgo

Pois bem, os membros do PS (Parti Socialiste) de Paris, que como todo bom socialista gostam de uma arquitetura mais moderna, acham que o espaço pode ser melhor utilizado. Sua candidata nas eleições desse ano de 2014 é Anne Hidalgo, a atual première adjointe do prefeito também socialista Bertrand Delanoë, que termina seus dois mandatos, totalizando 13  anos, muito popular. Primeiro político francês de expressão a sair do armário publicamente, foi esfaqueado durante a Nuit Blanche por ser político e gay, mas mandou a festa continuar enquanto se encaminhava ao hospital. Ele foi o criador do Paris-Plages (vontade de ser Rio de Janeiro), do Vélib (as bicicletas públicas), do Autolib, do Tramway e mais recentemente da baixa de 80 para 70 km/h no Boulevard Péripherique (anel viário de 33 km ao redor da cidade).

Vejam, este senhor é um típico social-democrata de esquerda, que não se importa com quem você beija mas fica tremendo de medo se você entra em um carro (full disclosure: eu sou motorista de vans turísticas). Sem nenhum pudor ele sempre deixou claro que seu sonho era uma Paris de pedestres, onde o carro e a poluição seriam coisa do passado, mas através de uma estratégia maquiavélica de tornar o uso do carro um pesadelo, e quem disse que o governo não é eficiente em nada nunca tinha ouvido falar desse objetivo governamental que está sendo paulatinamente alcançado. Não é nenhum segredo que a prefeitura de Paris ganha zilhões com os estacionamentos e infrações de estacionamento, e que o estado recebe bazilhões com as multas de velocidade e infrações de trânsito (além da polícia dar proteção aos serviços de valet parking).

Um dia normal tem 170 km de bouchons (rolhas, engarrafamento) dentro e ao redor de Paris. Mas o transporte público e as bicicletas de 3000 euros vão nos salvar, algum dia aparentemente /sarc. Quem ganha de verdade com os Vélibs e os Autolibs são os moradores aisés de Paris e os conglomerados tais que JC Décaux, um exemplo de solução top-bottom corporativista que vira uma bandeira progressista, mesmo que tenha um custo de oportunidade milionário para o resto dos moradores.

Admitindo que estou reclamando de barriga cheia, se compararmos com a prefeitura do Rio, volto à Anne Hidalgo e seu projeto para a Avenida Foch. A avenida perderia sua via central que se tornaria um parque parcialmente ocupado por conjuntos habitacionais sociais (cités ou HLMs – Habitations à Loyer Modéré) e comércio. Os carros poderiam circular somente pelas duas vias laterais de uma pista cada (ou duas se proibirem o estacionamento de carros).

Segundo os objetivos oficiais progressistas™, o projeto serviria para devolver o espaço aos pedestres parisienses, para fazer entrar o Bois de Boulogne em Paris, tirar a universidade Paris-Dauphine do isolamento e fazer o 16éme arrondissement participar da “mistura social” através de novos moradores pobres e de classe média. Para além de suas boas intenções, ficamos sabendo de coisas mais concretas como os potenciais 400 mil metros quadrados de espaço para construções, sejam HLMs ou imóveis comerciais.

Todo mundo fica feliz, menos os atuais moradores do local, não é? Do lado político, a candidata não arrisca nada pois provavelmente não receberia mesmo votos desta parte da cidade. Quem é classe média pode ter o gosto de sentir um pouco de vingança contra quem mora lá, e quem é pobre pode sonhar em ganhar um apartamento gratuito novo, financiado sabe-se lá como pela entidade que tudo provê. E alguém vai ser encarregado de construir, desenhar, de demolir, de regular, de fiscalizar, decorar… Quantos empregos… o projeto vai dinamizar a economia! Ou pelo menos é o que quem não conhece a lei do custo de oportunidade vai pensar (keynesianismo, hello!). Muito mais que empregos, serão muitos contratos, e já imagino o comichão dos bolsos e o formigamento nos corredores cheios de interessados, que devem eles mesmos ter soprado a sugestão em algum momento nos ouvidos da candidata. Interesses privados sempre tentam usar a força do estado para criar oportunidades para si em detrimento dos outros.

Ou seja, o roteiro de teatro está todo bem amarrado: uma parte dos moradores da Avenida Foch ficará insatisfeita, os cofres da Prefeitura irão usar dinheiro público para subsidiar os investimentos iniciais, os cofres dos bancos cartelizados da república irão fornecer o resto do financiamento, empresários bem conectados e minimamente profissionais serão encarregados de criar esse sonho, a classe média terá a promessa de apartamentos para seus filhos desempregados, e a classe pobre terá a promessa de casa gratos. Bilhões passarão diante dos olhos de Madame Hidalgo, enquanto o dinheiro vai secar para o crédito de outros empreendimentos. Os preços da mão-de-obra e dos materiais de construção vão aumentar em Paris para alimentar este monstro faminto, criado a partir do sonho artificial de um grupo de pessoas que nunca deve ter dormido um única noite na região.

Longe de mim ficar defendendo genericamente os moradores da famosa avenida. Minha crítica é sempre em relação aos programas de cima para baixo de uma instituição que não respeita os direitos individuais. Uma grande parte dos apartamentos da avenida devem provavelmente ter sido comprados com dinheiro arrancado de inocentes pelos governos de outros países. Mas isso não isenta o próprio governo francês de ser a raiz dos problemas de habitação na França, seja através dos impostos e regulamentações trabalhistas e imobiliários, seja através de programas como o haussmanniano que subsidiou de forma faraônica a modernização de Paris, elitizando o espaço e expulsando os antigos moradores pobres. Se as pessoas ficam chocadas com os orçamentos e posses de grandes corporações, me espanta que não se espantem com as posses e orçamentos de governos, e no caso, da prefeitura de Paris. Qual é a empresa que possui espaço vago para construir em Paris, é dona da terra, do ar e do subterrâneo, e ao mesmo é dona das regras de construção dentro de Paris?

Oh, l’insanité, mes amis. A ordem espontânea dos mercados verdadeiramente livres nunca foi muito presente no setor imobiliário parisiense. Desde a urbanização de Napoleão III existe uma lei que regula e regulamenta de forma arcaica e estrita a construção imobiliária em Paris. Porque será que existe escassez de espaço habitacional e comercial em Paris??? Pelo menos a cidade é bonita e atrai turistas. Se é assim, por mim que expulsem todos os moradores menos eu, e transformem tudo em hotéis, assim terei mais clientes.

Democracia, no fundo, é isso: usar o governo para puxar a sardinha para o seu lado.

A SARDINHA DA AVENUE FOCH

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