O SAVOIR-FAIRE DA TORTURA ENSINADO À DITADURA BRASILEIRA

Artigo publicado no Liberzone em abril de 2014.

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Morto ano passado, a experiência do general francês Paul Aussaresses na repressão à independência da Argélia o levou a ensinar técnicas de interrogação e tortura no CIGS (Centro de Instrução da Guerra na Selva) em Manaus, de 1973 a 1975. Sua chocante história foi revelada por ninguém menos que o próprio general, após uma sequência de entrevistas espontâneas na imprensa francesa, depois escancarada no seu livro “Services spéciaux, Algérie 1955-1957 : Mon témoignage sur la torture “, de 2001 (e mais dois, um em 2001 e outro em 2008). As revelações tiraram do sono o debate sobre o uso da tortura na Argélia pelas forças francesas, e aproveitamos a semana do aniversário do golpe brasileiro para contar essa triste história de amizade entre os governos brasileiro e francês.

O general tinha todos os ingredientes de um vilão de filme do James Bond: era frio, calculista, assassino e torturador confesso, e para completar usava um tapa-olho. O olho esquerdo ferido na Segunda Guerra sempre o incomodou e, pouco tempo antes de sua morte em 2013 aos 95 anos, foi preciso removê-lo por conta de complicações resultantes de uma cirurgia de catarata. Outros olhos marcantes em sua vida, segundo ele, foram os da garota europeia encontrada após o massacre de El Halia na Argélia; os nacionalistas do FLN haviam-nos furados e ela andava topando contra as paredes ensanguentadas do vilarejo mineiro. Torturar os rebeldes não apagou essa visão da memória do general, mas foi sua principal justificativa moral para dizer que não sentia remorsos.

Penso que, se a tortura pode evitar a morte de inocentes, ela se justifica. É meu ponto de vista. Não a aprecio, não a aprecio, não a aprecio.” – respondeu à Folha de São Paulo em 2008. A reportagem foi realizada pela jornalista Leneide Duarte-Plon, brasileira radicada a França que lançará, justamente agora em abril de 2014, um livro sobre a colaboração de Aussaresses no Brasil.

O começo de sua carreira militar se deu na Resistência Francesa contra a invasão nazista, como paraquedista. Logo adentra o grupamento de contra-espionagem e é confundido com espiões e capturado pelo exército soviético a 150 km de Berlim após um salto mal calculado, no momento em que as forças armadas alemãs implodem. De volta à França desocupada, foi enviado para lutar contra a independência da Indochina como chefe de batalhão de paraquedistas. Os comunistas do Viet Nimh expulsaram os ocupadores europeus e mataram centenas de milhares de compatriotas nesse conflito.

Após a derrota e a retirada francesa do nascente Vietnã, Aussaresses foi enviado à Argélia, outra ex-colônia francesa em processo de insurreição. O primeiro-ministro socialista Guy Mollet se vê obrigado a tentar resolver o problema do terrorismo nacionalista do FLN (Fronte de Libertação Nacional), que não poupava civis em seus atentados à bomba. Em janeiro de 57 o FLN organizou uma greve nacional para coincidir com a reunião sobre a questão algeriana na jovem ONU, e o governo francês decidiu dar carta branca aos militares para garantir a ordem em Alger e reprimir a qualquer preço o FLN e sua greve.

“O que o governo queria dizer com isso? Eu sabia que, utilizando os mesmos métodos dos nazistas, eu chegaria a um resultado.”

Esse “a qualquer preço” levou o general Jacques Massus, responsável local, a designar o oficial de 39 anos Paul Aussaresses como chefe da contra-espionagem, uma equipe paralela e discreta, pronta a todas as tarefas sujas necessárias. Sua principal função era a de diariamente recolher nas diferentes prisões temporárias de Alger os prisioneiros promissores, que poderiam fornecer informações sobre o FLN. Após serem torturados através de espancamento, choque e afogamento, eles eram executados e seus corpos descartados no mar, acimentados ou em valas fora da cidade. Aussaresses escreveu anos depois ter assassinado dessa forma duas figuras centrais do FLN: Larbi Ben M’hidi, em um enforcamento aparentemente suicida, e o advogado Ali Boumendjel, este jogado pela janela do 6º andar.

Prisioneiros argelinos em campo de concentração francês
Prisioneiros argelinos em campo de concentração francês

A responsabilidade desses métodos desumanos não pode ser colocada toda nas costas dos militares; é preciso dividir com os representantes civis do governo francês que tinham inicialmente dado o carta branca e posteriormente mantinham um silêncio calculado mesmo tendo conhecimento tácito do que ocorria em Alger. Aussaresses contou que era boa e constante sua relação com o enviado do ministério da justiça Jean Bérard, que sabia da tortura e dos assassinatos. O ministro se chamava François Miterrand.

O torturador volta à França no mesmo ano, no contexto do desaparecimento do estudante ativista Maurice Audin. De 1960 a 1963 foi enviado como adido militar aos EUA, e chamado a ensinar no Forte Bragg, famoso centro de treinamento de contra-insurreição para forças especiais, os boinas verdes. Este centro é conhecido pelo treinamento da tortura em interrogação usada no Vietnã, e na recente Guerra ao Terror em Guantânamo e Abu Grhaib. Parte da fama vem também do filme Rambo, aluno fantasia do Forte Bragg. Paul Aussaresses nesse momento teve os primeiros contatos com militares latino-americanos, alguns dos quais voltaria a encontrar dez anos depois no Brasil.

Finalmente, em 1973 foi designado adido militar no Brasil do ditador Ernesto Geisel, e se tornou amigo próximo de João Figueiredo, então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informação) e futuro “presidente” da república. Outro frequente contato foi com Sérgio Fleury, figura particularmente nefasta dos esquadrões da morte e delegado niteroiense que dirigiu o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) em São Paulo. A tortura e a execução nessa época já estavam bem estabelecidos na ditadura brasileira, com a justificativa paranoica de combater a invasão comunista no Brasil. Para quem não lembra até onde ia essa paranoia, durante a presidência de Figueiredo, e com sua complacência, militares planejaram o atrapalhado atentado false flag do Riocentro (enquanto Elba Ramalho se apresentava no Dia dos Trabalhadores de 1981).

Delegado Sergio Fleury do DOPS
Delegado Sergio Fleury do DOPS

Durante o seu período no Brasil, Aussaresses deu aulas principalmente em Brasília e no CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva). Já eram passados quase uma década desde o começo da ditadura, e as técnicas e instituições de tortura tinham se sofisticado; um instrutor experimentado e embasado como Aussaresses, seguidor do teórico Roger Trinquier, era um importante recurso para a melhoria da eficiência da repressão política. Outros países mandavam oficiais para aprender no CIGS, e notavelmente o francês ensinou parte da polícia secreta de Pinochet (DINA) logo após o golpe que destituiu Allende. Golpe esse que contou com a ajuda militar brasileira, na forma de envio de aviões e armamentos.

O encontro dos ditadores Figueiredo e Pinochet
O encontro dos ditadores Figueiredo e Pinochet

Mas essa não era a única função do antigo paraquedista. Ele atuou como ponte na transferência e na negociação de tecnologia militar da França ao Brasil, como os caças Mirage da empresa Dassault que interessavam ao governo brasileiro. Junto à empresa Thomson-Brandt (hoje Thalles), pareciam ser as duas principais privilegiadas na amizade militar entre Brasil e França, em acordos políticos não muito diferentes do que se tentou recentemente com os caças Rafale. Não por acaso, logo após o fim de sua função no Brasil em 1975, ele se aposentou do exército e se tornou mercador de armas da empresa… Thomson-Brandt, que viria a ser nacionalizada nos anos 80 por Miterrand. Militares brasileiros que facilitavam os contratos na empresa do torturador tornado comerciante ganhavam comissões por sua ajuda.

Até suas entrevistas e revelações espontâneas, viveu uma vida discreta na região vinícola do Baixo Reno, na Alsácia, cercado de florestas e castelos. A partir da reportagem publicada na primeira página do Le Monde em maio de 2001, foi reaberto o debate sobre o colonialismo do governo francês e a sua tradição de uso de tortura pelos seus militares, assunto extremamente contemporâneo caso se investigue as ligações de instrutores como Aussaresses, as intervenções militares francesas na África e no Oriente Médio, e os interesses armamentícios corporativos de empresas como a Societé Dassault.

Seu livro mencionado no início deste artigo o rendeu um processo de apologia à tortura, no qual foi condenado a pagar uma multa de €75.000. O presidente Jacques Chirac, em um exercício de hipocrisia, determinou a retirada de uma das suas numerosas medalhas, sem contudo estender-se sobre a responsabilidade do governo francês como um todo.

A vida e obra deste militar serve como lição de até onde a obediência ao governo, disfarçado de Pátria ou Nação, pode levar. Em seu distorcido código ético, ele afirma que a diferença entre a resistência francesa e a argelina era a ordem do general de Gaulle ao respeito à Convenção de Genebra, sem crer em nenhuma semelhança entre dois povos combatendo invasores estrangeiros. Quando lembrado que tampouco respeitou a Convenção no seu “trabalho” em Alger, faz apelo à diferença entre os motivos da Gestapo e de sua equipe de tortura: os alemães torturavam e matavam pela raça enquanto os franceses estavam salvando a vida de inocentes que poderiam morrer nos atentados de nacionalistas argelinos. A tortura seria um meio neutro, o fim é que separaria o certo do errado. A colaboração entre os serviços de informação dos dois governos seriam uma forma de “salvar o Ocidente da ameaça vermelha”.

Para finalizar deixo uma resposta emblemática deste general para quem o valor da vida humana depende de sua afiliação política:

“FOLHA – No livro o sr. narra o episódio de tortura de uma mulher que veio ao Brasil para, segundo o general Figueiredo, espionar o senhor. Figueiredo o fez vir de Manaus às pressas para mostrar a moça, já irreconhecível depois das sessões. Ele depois o informou que ela morrera no hospital. Nunca questionou o método bárbaro usado para obter informações daquela mulher?
AUSSARESSES – De jeito algum! A morte dessa mulher era (sic) um ato de defesa.”

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ERRATA – este artigo mencionava o primeiro-ministro Guy Mollet como “presidente”, grato ao Luiz Giaconi pelo aviso.

Referências para pesquisa deste artigo:

– 23.11.2000 FLORENCE BEAUGÉ Les aveux du général Aussaresses : “Je me suis résolu à la torture”LE MONDE

– 12.12.2000 JEAN-DOMINIQUE MERCHET Général basses oeuvres LIBERATION

– 04.05.2001 JEAN-DOMINIQUE MERCHET Aussaresses raconte «sa» guerre LIBERATION

– 19.05.2001 FLORENCE BEAUGÉ Le secret du général Aussaresses LE MONDE

– 27.11.2001 BRIGITTE VITAL-DURAND La torture, «sans plaisir» mais sans remords non plusLIBERATION

– 09.11.2005 SORJ CHALANDON Le supplice LIBERATION

– 29.06.2006 MARK BENJAMIN Torture teachers SALON

– 04.05.2008 LENEIDE DUARTE-PLON A tortura se justifica quando pode evitar a morte de inocentesFOLHA

– 16.06.2008 GREGORY PAPIN Paul Aussaresses L’Interview VICE

– 22.07.2012 EDUARDO FEBBRO O general francês que veio ensinar a torturar no Brasil CARTA MAIOR

– 04.12.2013 REDAÇÃO Mort du général Aussaresses, tortionnaire en Algérie LIBERATION

– 21.12.2013 REDAÇÃO General francês e professor de torturas do exército brasileiro REVISTA FORUM

– 07.01.2014 LENEIDE DUARTE-PLON Os últimos vestígios da França colonial OBSERVATORIO DA IMPRENSA

– 15.01.2014 LENEIDE DUARTE-PLON Mestre em tortura CARTA CAPITAL

– 30.03.2014 CHICO OTAVIO Doutrina dos porões: a escola que disciplinou a tortura OGLOBO

– 30.03.2014 JOSÉ CASADO Riocentro: documentos revelam que Figueiredo encobriu atentadoOGLOBO

Artigo Paul_Aussaresses WIKIPEDIA em francês

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O SAVOIR-FAIRE DA TORTURA ENSINADO À DITADURA BRASILEIRA

A SARDINHA DA AVENUE FOCH

Publicado no site Liberzone no início de 2014.

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novo alvo dos socialistas ecolôs de Paris é a Avenue Foch (pronunciada fósh), um símbolo entre os endereços elitistas do mundo.

Esta via foi criada dentro do projeto de urbanização do presidente, e depois imperador, Napoleão III  entre 1850 e 1870, quando o seu capanga preferido, o prefeito Haussmann, derrubou 60% da cidade para construir uma cidade moderna nos padrões da época. O modelo a ser ultrapassado era São Petersburgo, e após 2,5 bilhões de francos gastos em 20 anos, o prefeito foi demitido deixando uma cidade com esgoto, iluminação a gás, banheiros públicos e, principalmente, à prova de fogo, com muralhas e espaço e trens suficientes para tropas se posicionarem e esmagarem revoltas facilmente. Paris tinha uma longa história de cidade turbulenta, e fácil de sitiar ou se revoltar.

A Avenida Foch foi então desenhada com 120 metros de largura e 1300 metros de comprimento, para que os burgueses de carruagem pudessem ver e ser vistos entre o Arco do Triunfo e o Bois de Boulogne (que estava sendo criado na época). Rapidamente se tornou um dos endereços mais chiques de Paris, atraindo os novos “barões” da indústria como os Rothschilds e os Onassis. Tomou o nome atual em 1929 após a morte do General Foch (que ganhou a batalha do Marne na Primeira Guerra Mundial e profetizou que, caso o Tratado de Versalhes concedesse a manutenção da união territorial da Alemanha, haveria guerra exatamente 20 anos depois). Hoje em dia, ou melhor, à noite, é um destino preferencial de prostitutas decadentes com carros próprios, que invertem a lógica tradicional da profissional à pied.

Além de ter um metro quadrado muito caro (média de 12 mil €/m²), os apartamentos são muito grandes e o preço atinge a estratosfera, na casa das dezenas de milhões de euros.  Na Segunda Guerra os alemães estabeleceram nessa avenida um escritório da Gestapo, onde escolhiam quais judeus seriam deportados para Auschwitz, e por isso os parisienses passaram a chamar a avenida de Avenue Boche (termo pejorativo que designava um alemão cabeça-dura). Há cinco anos atrás o governo andou perseguindo as escrituras dos ditadores africanos (Gabão, Congo, entre outros) com apartamento nessa avenida (os amigos dos ditadores do Qatar que também possuem apartamento lá, esses não, porque pode atrapalhar o investimento dos petrodólares na França). Segundo a fofoca, FHC e Sérgio Motta também compraram imóveis por lá.

Anne Hidalgo

Pois bem, os membros do PS (Parti Socialiste) de Paris, que como todo bom socialista gostam de uma arquitetura mais moderna, acham que o espaço pode ser melhor utilizado. Sua candidata nas eleições desse ano de 2014 é Anne Hidalgo, a atual première adjointe do prefeito também socialista Bertrand Delanoë, que termina seus dois mandatos, totalizando 13  anos, muito popular. Primeiro político francês de expressão a sair do armário publicamente, foi esfaqueado durante a Nuit Blanche por ser político e gay, mas mandou a festa continuar enquanto se encaminhava ao hospital. Ele foi o criador do Paris-Plages (vontade de ser Rio de Janeiro), do Vélib (as bicicletas públicas), do Autolib, do Tramway e mais recentemente da baixa de 80 para 70 km/h no Boulevard Péripherique (anel viário de 33 km ao redor da cidade).

Vejam, este senhor é um típico social-democrata de esquerda, que não se importa com quem você beija mas fica tremendo de medo se você entra em um carro (full disclosure: eu sou motorista de vans turísticas). Sem nenhum pudor ele sempre deixou claro que seu sonho era uma Paris de pedestres, onde o carro e a poluição seriam coisa do passado, mas através de uma estratégia maquiavélica de tornar o uso do carro um pesadelo, e quem disse que o governo não é eficiente em nada nunca tinha ouvido falar desse objetivo governamental que está sendo paulatinamente alcançado. Não é nenhum segredo que a prefeitura de Paris ganha zilhões com os estacionamentos e infrações de estacionamento, e que o estado recebe bazilhões com as multas de velocidade e infrações de trânsito (além da polícia dar proteção aos serviços de valet parking).

Um dia normal tem 170 km de bouchons (rolhas, engarrafamento) dentro e ao redor de Paris. Mas o transporte público e as bicicletas de 3000 euros vão nos salvar, algum dia aparentemente /sarc. Quem ganha de verdade com os Vélibs e os Autolibs são os moradores aisés de Paris e os conglomerados tais que JC Décaux, um exemplo de solução top-bottom corporativista que vira uma bandeira progressista, mesmo que tenha um custo de oportunidade milionário para o resto dos moradores.

Admitindo que estou reclamando de barriga cheia, se compararmos com a prefeitura do Rio, volto à Anne Hidalgo e seu projeto para a Avenida Foch. A avenida perderia sua via central que se tornaria um parque parcialmente ocupado por conjuntos habitacionais sociais (cités ou HLMs – Habitations à Loyer Modéré) e comércio. Os carros poderiam circular somente pelas duas vias laterais de uma pista cada (ou duas se proibirem o estacionamento de carros).

Segundo os objetivos oficiais progressistas™, o projeto serviria para devolver o espaço aos pedestres parisienses, para fazer entrar o Bois de Boulogne em Paris, tirar a universidade Paris-Dauphine do isolamento e fazer o 16éme arrondissement participar da “mistura social” através de novos moradores pobres e de classe média. Para além de suas boas intenções, ficamos sabendo de coisas mais concretas como os potenciais 400 mil metros quadrados de espaço para construções, sejam HLMs ou imóveis comerciais.

Todo mundo fica feliz, menos os atuais moradores do local, não é? Do lado político, a candidata não arrisca nada pois provavelmente não receberia mesmo votos desta parte da cidade. Quem é classe média pode ter o gosto de sentir um pouco de vingança contra quem mora lá, e quem é pobre pode sonhar em ganhar um apartamento gratuito novo, financiado sabe-se lá como pela entidade que tudo provê. E alguém vai ser encarregado de construir, desenhar, de demolir, de regular, de fiscalizar, decorar… Quantos empregos… o projeto vai dinamizar a economia! Ou pelo menos é o que quem não conhece a lei do custo de oportunidade vai pensar (keynesianismo, hello!). Muito mais que empregos, serão muitos contratos, e já imagino o comichão dos bolsos e o formigamento nos corredores cheios de interessados, que devem eles mesmos ter soprado a sugestão em algum momento nos ouvidos da candidata. Interesses privados sempre tentam usar a força do estado para criar oportunidades para si em detrimento dos outros.

Ou seja, o roteiro de teatro está todo bem amarrado: uma parte dos moradores da Avenida Foch ficará insatisfeita, os cofres da Prefeitura irão usar dinheiro público para subsidiar os investimentos iniciais, os cofres dos bancos cartelizados da república irão fornecer o resto do financiamento, empresários bem conectados e minimamente profissionais serão encarregados de criar esse sonho, a classe média terá a promessa de apartamentos para seus filhos desempregados, e a classe pobre terá a promessa de casa gratos. Bilhões passarão diante dos olhos de Madame Hidalgo, enquanto o dinheiro vai secar para o crédito de outros empreendimentos. Os preços da mão-de-obra e dos materiais de construção vão aumentar em Paris para alimentar este monstro faminto, criado a partir do sonho artificial de um grupo de pessoas que nunca deve ter dormido um única noite na região.

Longe de mim ficar defendendo genericamente os moradores da famosa avenida. Minha crítica é sempre em relação aos programas de cima para baixo de uma instituição que não respeita os direitos individuais. Uma grande parte dos apartamentos da avenida devem provavelmente ter sido comprados com dinheiro arrancado de inocentes pelos governos de outros países. Mas isso não isenta o próprio governo francês de ser a raiz dos problemas de habitação na França, seja através dos impostos e regulamentações trabalhistas e imobiliários, seja através de programas como o haussmanniano que subsidiou de forma faraônica a modernização de Paris, elitizando o espaço e expulsando os antigos moradores pobres. Se as pessoas ficam chocadas com os orçamentos e posses de grandes corporações, me espanta que não se espantem com as posses e orçamentos de governos, e no caso, da prefeitura de Paris. Qual é a empresa que possui espaço vago para construir em Paris, é dona da terra, do ar e do subterrâneo, e ao mesmo é dona das regras de construção dentro de Paris?

Oh, l’insanité, mes amis. A ordem espontânea dos mercados verdadeiramente livres nunca foi muito presente no setor imobiliário parisiense. Desde a urbanização de Napoleão III existe uma lei que regula e regulamenta de forma arcaica e estrita a construção imobiliária em Paris. Porque será que existe escassez de espaço habitacional e comercial em Paris??? Pelo menos a cidade é bonita e atrai turistas. Se é assim, por mim que expulsem todos os moradores menos eu, e transformem tudo em hotéis, assim terei mais clientes.

Democracia, no fundo, é isso: usar o governo para puxar a sardinha para o seu lado.

A SARDINHA DA AVENUE FOCH

O GALO CASTRADO

Artigo originalmente publicado no site Liberzone no início de 2014.

Galo

No dia 3 de janeiro, a Newsweek (que era de papel, agora é online, e voltará a ser de papel nos EUA em março de 2014) publicou um artigo sobre a “Queda da França” que fez tempestade, e as marolas chegaram ao commentariat liberal brasileiro que em grande parte se jogou com vontade na prática do Schadenfreude, “está vendo? O capitalismo está ganhando do Socialismo!”.

Houve uma esperada reação por parte dos defensores de l’État, mas também por uma enxurrada de franceses que pensaram wtf, uma gringa moradora de Paris resolveu fazer french bashing? Qual é a parada do novo dono da Newsweek, um francês chamado Etienne Uzac? A autora Janine Di Giovani, que parece ser uma correspondente de guerra minimamente séria e respeitada, imediatamente sumiu, sua conta de twitter foi deletada, e convenientemente ela parece estar no Sudão se protegendo de balas e bombas. Uma corega veio em sua defesa chamando a França de galo que virou avestruz.

Quando Júlio César chegou ao Hexágono (o mapa da França nos lembra e é chamado deste polígono) mais ou menos 50 antes de Cristo, chamou o povo celta que ali habitava de gauleses, porque esses “índios” tribais cultuavam o galo, animal orgulhoso, d’allure fière, brigão, adúltero e que fica gritando quando todo mundo quer dormir (qualquer semelhança com o povo atual não é mera coincidência). Será mesmo que esse povo enterrou a cabeça na areia e não quer mais ouvir a voz da razão (americana)?

Para o étranger mais liberal ou conservador, o artigo é uma pâtisserie irresistível, e para os socialistas francófilos é um motivo crivado de ultrajes. Mas a verdade nua e crua é que o artigo é uma bosta, um rejeton jornalístico. A mina não teve a dignidade de verificar números, citar fontes, nada. Não passa de on-dit, de contar o que ouviu o vizinho falar  através da parede. Em Paris você ouve quase tudo que seus vizinhos fazem, mas pelo menos as janelas costumam ser de vidro duplo.

Antes de citar as mais óbvias inverdades do artigo, quero deixar claro que não estou defendendo “a França”, muito menos o governo e seus programas, e a primeira idiotice do artigo, mas que é norma na mídia e nas cabeças do mundo inteiro em geral, é a confusão entre sociedade e governo. Para mim é claro que são coisas diferentes, que aquela não deveria ser sujeita àquele, e que se um governo faz um monte de cagadas, não se pode culpar a sociedade como um todo, isso seria um tipo pervasivo de coletivismo vertical.

A autora compara a fuga atual de franceses, supostamente por causa do atual presidente Flanby, à revogação do edito de Nantes pelo absolutista Luís Quatorzinho, causa da fuga de cerca de 700.000 protestantes para países vizinhos mais acolhedores. Sério? Então porque houve um aumento de apenas 1.1% dessa fuga em 2012, contra 6% em 2011? Será que o Francisco Holanda (quase homônimo com o Chico Buraco né não?), primeiro presidente “socialista” desde 1995, inventou o sistema de imposto na França? “Since the arrival of Socialist President François Hollande in 2012, income tax and social security contributions in France have skyrocketed”.

Será que em 2011 pagávamos zero porcento de imposto? Óbvio que não, o que este presidente milionário hipócrita fez foi apelar para o mais baixo populismo de viés social-democrata e começar um programa de aumento de impostos para as grandes fortunas, que não foi totalmente estabelecido, e provavelmente vai parar por aí. Sim, os magnatas e BIG CEOs nominalmente passarão a “contribuir” mais para o leviatã, mas a gente sabe que todo mundo consegue escapar do fisco não é? Sejamos pobres ou ricos, sempre há uma brecha, e os magnatas contratam os melhores especialistas para isso. Então não desperdice humidade pelos personagens da Revolta de Atlas, o governo também parasita neles, mas parasita muito mais no resto, e invariavelmente eles se aproveitam desse parasitismo como explica a teoria da captura.

As they say, the problem with the French is they have no word for entrepreneur. ” É de dar pena, essa palavra é francesa, e os ingleses a adotaram no século XIX. Vocês sabiam que no século 11 um normando (um tipo de viking afrancesado, imagine o governo transformando o líder do Comando Vermelho em prefeito de Nilópolis) chamado Guilherme o Conquistador atravessou o Canal da Mancha e meteu a porrada na elite anglo-saxã enquanto eles discutiam quem ia ser o novo déspota, e se transformou ele mesmo no King of the Black Cocada. A partir daí, my friends, branco falou somente francês na corte real inglesa até meados de 1400, e até hoje dois terços das palavras da língua do Bardo de Avon advêm da língua de Molière, quem diria. Você que fica rindo da Franceball e suas bandeiras brancas não conhecia esse nobre francês que fez bully com os pobres ingleses, certo?

Does he realize Rome is burning?” Aqui ela chega aos píncaros da hipérbole, a França está queimando, e logo em seguida nos deixa confusos com uma série de elogios sobre a excelente infra-estrutura, o TGV, a Airbus, a LVMH (que está grafado errado no artigo), a melhor indústria agrícola, a maior indústria turística, e mais adiante ainda fala do excelente sistema de saúde. O que concluir desta construção incoerente de argumentos? Ela te faz pensar em Roma sob as chamas, e depois pinta o paraíso. Certamente não dá para comparar o sistema de saúde francês com o SUS, mas peralá, como todo sistema estatal monopolístico e subsidiado com impostos o daqui também sofre com a burocracia, a ineficiência e a espera, não me parece um modelo a ser copiado. “Masterful state-subsidized schools”… Ela consegue colocar o filho dela numa escola de elite em Paris, enquanto o sistema nacional sofre de échec scolaire em massa, notadamente dos balieusards (suburbanos) que vivem em cités(conjuntos habitacionais estatais).

“But the past two years have seen a steady, noticeable decline in France. There is a grayness that the heavy hand of socialism casts.” Então ela volta à parte negativa e determina que o problema da França é o socialismo, entrando na eterna batalha pantanosa de definições ideológicas. Não tenho como entrar nessa barafunda agora, mas basicamente: a “França” é uma república social-democrata com alto intervencionismo econômico, e as diferenças deste sistema para o inglês, por exemplo, são cosméticas (90% dívida pública/PIB para os dois), pelo menos no debate socialismo-capitalismo.

Adiantando um pouco o que deverei escrever em outro artigo, a França é mais um país tomado pelo corporativismo buro-tecnocrata ordo-liberal, o que pode ser caridosamente chamado de neoliberalismo (que não é a mesma coisa que capitalismo, socialismo nem liberalismo, pfvr). Para explicar os problemas macroeconômicos não basta chamar qualquer coisa que você não goste de algum termo guarda-chuva como socialismo.

A estatística de 5.5 milhões de desempregados é sim oficial, mas como todo governo, o francês somente comenta a categoria dos desempregados que estão procurando emprego. Agora, 8 dólares o litro de leite em Paris? Eu tive que rir, eu compro em Paris por aproximadamente 1 euro, ou ela nunca desce do salto alto para comprar o leite no mercadinho em frente ao Jardim do Luxemburgo onde mora, ou ela está mentindo deliberadamente.

“With the end of the reign of Gaullist (conservative) Nicolas Sarkozy (the French hated his flashy bling-bling approach) the French ushered in the rotund, staid Hollande. Almost immediately, taxes began to rise.” Como ela tem acesso a dados que ninguém mais possui? Em nenhum lugar ela cita fontes, e não se consegue achar ninguém afirmando a mesma coisa pelas internets. Em 1995 quando entrou o gaulista Chirac do mesmo partido UMP que Sarkô, a carga fiscal era de 43%, e 16 anos de governo UMP a taxa subiu para 44.2, de onde não deve ter mexido muito em menos de dois anos de PS. Onde está o profissionalismo desta jornalista?

Não existe nada como fraldas ou creches gratuitas, existem associações beneficentes, ajuda estatal para pais pobres de recém-nascidos, creches associativas, creches municipais pesadamente subsidiadas… A reeducação muscular pós-parto é para fortalecer o canal vaginal, uma medida preventiva, e não para diminuir a barriga e sensualizar as MILFs, sacrebleu!

“Who cares about the BRICS – the emerging markets of Brazil, Russia, India, China, and South Africa – when we have Paris? It is a tunnel-vision philosophy that will kill France.” A China é o segundo maior investidor na França, o Brasil é o QUARTO. O mercado de vinhos de luxo de Bordeaux atualmente está todo bagunçado por causa da febre Château Lafitte entre os milionários chineses, e o número de turistas chineses em Paris só não foi maior que o de brasileiros e americanos em 2012. Qual é o critério que ela utiliza na análise da visão (de negócios? cultural?) de um povo para crer que um país vai ser MORTO?

A partir desse momento a autora cita opiniões de amigos seus reclamando de coisas que seriam impossíveis ser causadas pelo presidente que entrou há pouco tempo, escolas, inovação, línguas estrangeiras, dá preguiça de ler esses argumentos preguiçosos. Como eu disse, parece fofoca de comadre.

Enfim, leitores da Liberzone, as poucas meias verdades que ela usa como base para o artigo (elitismo e hipocrisia dos políticos, nanny welfare state, desemprego e encargos trabalhistas, intervencionismo) não são suficientes para passar a mão na cabeça dos inúmeros absurdos que a escritora cometeu com o intuito desonesto de criar uma polêmica populista e manipuladora. Lutemos contra o estado, mas contra o real e não o inventado. Critiquemos o intervencionismo com argumentos embasados. E, principalmente: parem de torcer por uma visão Polandball da França, é bom para rir, mas faz passar vergonha em qualquer roda de festa bobo.

O GALO CASTRADO

O pai do Anarquismo defendia a propriedade privada

Os anarquistas deveriam conhecer melhor as ideias de Proudhon sobre a propriedade.

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Escrevo este pequeno artigo para atacar o mito que vem sendo propalado há mais de um século e meio por defensores e opositores igualmente ignorantes ou desonestos: que a anarquia se sustenta sobre a proposição de que toda propriedade é roubo. Não pretendo refutar Proudhon nem confirmá-lo, apenas tratar deste mito específico.

Nada poderia ser mais longe da verdade, como vou demonstrar cortando o mal pela raiz. Não são somente liberais, socialistas e conservadores que contam em seu meio uma maioria de pessoas que nunca buscaram saber o mínimo sobre aquilo que dizem defender: os anarquistas, por alguma razão desconhecida, me parecem ser assolados por uma “maior maioria” desses confusos partidários.

Entre em alguma discussão de anarquistas na internet e creio ser muito difícil encontrar algo além de uma visão hermética e caricatural do movimento.

Mas estou a divagar. Sabemos que a anarquia tem uma longa história desde que seu termo foi apropriado pelo economista Pedro-Josefo Proudhon, que se declarava socialista, mas de uma tradição não-coletivista, anti-comunista, ou seja, não acreditava que o coletivo deve ter a prioridade sobre as necessidades e vontades do indivíduo. Seu socialismo era direcionado à diminuição radical, na impossibilidade do desaparecimento, das disparidades de poder entre os membros da sociedade.

Sua principal bronca era, obviamente, contra o Estado: “Aquele que botar as mão sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo.” Les Conféssions d’un Révolutionnaire (1849) pg 15. Eu também, Pruda, eu também.

Essa é a fonte principal de injustiças, segundo Proudhon: “Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, identificado, doutrinado, aconselhado, controlado, avaliado, pesado, censurado, comandado por outros que não têm nem o título nem a ciência, nem a virtude…” – Idée générale de la révolution au XIXème siècle (1851) pg 341.

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Mas, como todo bom anarquista, o Estado não era para ele a única fonte de injustiças. A instituição “propriedade” (propriété) era um dos alicerces das disparidades de poder: “Propriedade é roubo”. Espere um momento, roubo pressupõe a existência de propriedade. Pois é, Pruda era um polemista, e apesar de ser o culpado por essa patifaria semântica, ele não poderia imaginar que século e meio depois um exército de zumbis repetiria esse mantra sem pensar um segundo no seu significado subjacente.

Proudhon tinha aprendido e adotado a dialética, o diálogo entre contradições aparentes de Hegel, através de Marx, em longas conversas noturnas em Paris (segundo o próprio Marx), antes do alemão ser expulso da cidade-luz em 1843 por criticar o governo alemão. Além de se inspirar em Proudhon, assim como em seus conterrâneos socialistas, e chamá-los depois de socialistas utópicos, Marx considerava especialmente a dialética de Proudhon um exercício incompetente e infrutífero.

Enfim, na sua obra seminal O que é a Propriedade, de 1840, Proudhon reinterpretou uma frase originalmente empregada por Brissot de Warville em 1780, o qual havia escrito: “Car cette propriété exclusive est un crime véritable dans la nature (Porque essa propriedade exclusiva é um verdadeiro crime na natureza.“) – Recherches philosophiques sur le droit de propriété consideré dans la nature (1780) pg 42. Brissot acreditava que a propriedade era um direito passageiro, justificado temporariamente pelas necessidades fisiológicas das pessoas. Numa analogia, um riacho seria propriedade tanto do lobo quanto do cordeiro. Por isso que os selvagens da América ofereciam suas mulheres aos franceses, eles se serviam das mulheres sem ciúmes, sem achar que eram sua propriedade. Pois é, Brissot era bastante confuso e machista, considerava as mulheres um recurso a ser usado por homens quando o desejo assim o determinasse.

Divago novamente… Proudhon escreveu em 1840: “la propriété, c’est le vol“. Explicou, ecoando Maquiavel, que a maioria dos títulos de propriedade da sua época (o sistema) se baseavam em algum roubo original antepassado (origem do sistema), o germe do conceito de “acumulação primitiva” de capital mais tarde compartilhado por Marx. O Estado é a expressão moderna do roubo generalizado perpretado através do tempo por invasores que expulsaram ou dominaram os camponeses, criando as classes de dominadores e de dominados. Os nobres e os servos, os mestres e os escravos, a divisão social feudal europeia.

Seja porque as terras roubadas e a riqueza dos seus donos exploradores passaram por novas mãos, seja pela penúria que essa concentração causava em quem não possui meios de subsistência, a propriedade (que existe atualmente) é (largamente baseada em) roubo, na hipérbole proudhoniana. Mas principalmente porque Proudhon segue a teoria do valor trabalho à risca, como Marx, e vê no lucro, espoliação.

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Existem diversas manifestações deste roubo, cujo conjunto de leis subjacentes Proudhon chama de droit d’aubaine: o lucro que toma parte do trabalho do operário; o aluguel que usurpa o direito de ocupação; os juros que impedem a participação no investimento. Proudhon jogou nesse mesmo balaio os privilégios políticos estilo comissões, pensões estatais e molhadas de mão.

Proudhon conclui este livro propondo diversas justificativas pelas quais “la propriété est impossible“. Existem várias versões digitais deste livro em português onde somente esta parte é citada, começando por “A propriedade é impossível porque é homicida.” Muitos anarquistas coletivistas conhecem apenas a parte que lhes interessa. As justificativas desta impossibilidade foram escritas para o leitor não esquecer que está diante de um inimigo feroz “da propriedade”: o conjunto histórico das injustiças que levaram à concentração de poder e de capital, que empobrece, esfomeia, brutaliza, e mata aqueles que não possuem propriedade.

Até aí estamos diante do Proudhon prestidigitador, escolhendo apenas as formulações que cobrem o conceito de propriedade com um véu de magia negra. Felizmente era ele um polemista de propensão honesta, seja por natureza ou por necessidade, como veremos nas declarações posteriores. Ao enviar o seu recém publicado livro à academia de Besançon, circunscrição acadêmica à qual pertencia como pensionário, junto a uma carta explicando as razões de sua investigação sobre a natureza da propriedade, Proudhon foi rechaçado duramente pelos seus colegas da região da Franche-Comté.

No prefácio da segunda edição do mesmo livro, em 1849, o filósofo explica como além do opróbio, ainda arriscava ser preso pelo procurador do rei, e foi salvo apenas graças a um famoso socialista chamado Auguste Blanqui, cuja carta de 1841 Proudhon transcreveu ipsis litteris. Blanqui faz uma defesa apaixonada das intenções e da sapiência demonstradas por Proudhon, porém pede encarecidamente que ele esqueça o tal papo de fim da propriedade; é preciso ser reformista e tudo o mais.

Pierre-Joseph agradece de coração a ajuda e a carta, e desabafa: “Tanta controvérsia me cansa e me aborrece. A inteligência despendida nos combates de palavra é como aquela empregada na guerra: é inteligência perdida. O sr. Blanqui reconhece que existe dentro da propriedade uma multitude de abusos, odiosos abusos; da minha parte, chamo exclusivamente propriedade a soma desses abusos” (grifo meu, original abaixo).

Não é difícil imaginar a fadiga provocada por incessantes explicações sobre o que realmente ele quis dizer com “propriedade é roubo”, ao ponto de um socialista reconhecido (que mais tarde seria eleito, in absentia pois prisioneiro, a líder da Comuna de Paris) pedir-lhe comedimento e moderação!

No mesmo ano deste prefácio, Proudhon confessa ainda em outro livro que sua hipérbole era justificada como protesto:

Nos meus primeiros livros, atacando de frente a ordem estabelecida, eu dizia, por exemplo: A propriedade, é o roubo! Tratava-se de protestar, de por assim dizer colocar em relevo a deficiência de nossas instituições. Era a única coisa a me ocupar no momento. Além disso, no livro onde eu demonstrava, por A mais B, essa espantosa proposição, também tinha o cuidado de protestar contra qualquer conclusão comunista. No livro Sistema de Contradições Econômicas, após ter lembrado e confirmado minha primeira definição, adicionei uma outra completamente contrária, porém fundada sobre considerações de outra ordem, que não podiam nem destruir a primeira argumentação nem ser destruída por ela: A propriedade, é a liberdade. A propriedade, é o roubo; a propriedade, é a liberdade: essas duas proposições são igualmente demonstradas e subsistem uma ao lado da outra no [livro] Sistema de Contradições.”

Na Declaração de fundação de seu Banque du Peuple, tentativa bem intencionada mas fracassada de instituir seu mutalismo de crédito não remunerado, Proudhon explicou que apesar de ser contra nunca quis proibir a cobrança de juros e de aluguel, desde que, claro está, fossem uma manifestação da propriedade justamente adquirida:

Protesto, que fazendo a crítica da propriedade, ou por melhor dizer do conjunto de instituições das quais a propriedade é o pivô, nunca quis atacar os direitos individuais reconhecidos por leis anteriores, nem contestar a legitimidade das posses adquiridas, nem provocar uma repartição arbitrária dos bens, nem levantar obstáculos à livre e regular aquisição, por venda e troca, das propriedades; nem mesmo interditar ou eliminar, por decreto soberano, o arrendamento [aluguel de terras produtivas] e os juros sobre o capital.

Eu creio que todas essas manifestações da atividade humana devem continuar a ser livres e facultativas a todos; eu não admito por elas outras modificações, restrições e supressões, que aquelas que resultam naturalmente e necessariamente da universalização do princípio de reciprocidade, e da lei de síntese que eu proponho.

Alguns anos mais velho, rugas a mais na testa, no seu livro A Teoria da Propriedade, de 1866, podemos ler formulações bastante reformadoras e “lockeanas“, do tipo:

Para que o cidadão seja qualquer coisa dentro do Estado, não basta que seja livre em sua pessoa; é preciso que sua personalidade se apoie, como a do Estado, sobre uma porção de matéria que ele possui em toda soberania, como o Estado possui a soberania do domínio público. Esta condição é preenchida pela propriedade. Servir de contra-peso ao poder público, equilibrar com o Estado, por esse meio assegurar a liberdade individual: essa é então, no sistema político, a função principal da propriedade. Elimine esta função ou, o que dá no mesmo, retire da propriedade o caráter absolutista na qual a reconhecemos e que a distingue; imponha a ela condições, declare-a intransferível e indivisível: imediatamente ela perde sua força; ela não pesa mais nada; ela torna a ser um simples benefício autorizado; uma dependência do governo, sem ação contra ele.

Do mesmo livro, uma pérola anti-comunista: “Do princípio que a propriedade, irreverenciosa quanto ao príncipe, rebelde à autoridade, anárquica enfim, é a única força que poderia servir de contra-peso ao Estado, provem este corolário: que a propriedade, absolutismo dentro de um outro absolutismo, é ainda para o Estado um elemento de divisão. O poder do Estado é um poder de concentração; dê-lhe a vazão, e toda a individualidade logo desaparecerá, absorvida na coletividade; a sociedade tomba no comunismo; a propriedade, ao contrário, é um poder de descentralização, porque ela mesma é absoluta, ela é anti-despótica, anti-unitária; nela está o pricípio de toda federação: e é por isso que a propriedade, autocrática por essência, transportada a uma sociedade política, ela se torna republicana.

Acho que há bastantes exemplos que demonstram o jogo de luzes de Proudhon; enquanto atrai o olhar do espectador para um fato importante, com a outra mão esconde o trunfo para poder mostrar na hora que for conveniente. Certamente socialistas coletivistas e comunistas poderão atacar este presente artigo e encadear uma barreira de citações anti-propriedade do filósofo. Mas será um exercício vão: já desmascaramos nosso “Proupriedhon“. Não foi à toa que Jean Jaurés, unificador dos movimentos socialistas franceses, em um discurso na Assembleia Nacional em 1910, afirmou que Proudhon tinha sido “um grande liberal e um grande socialista”.

Termino com este extrato do livro De la justice dans la Révolution et dans l’Église (1858) pg 303, por conter mais uma defesa à propriedade privada, e um ataque canhoto a Bastiat, com quem debateu sobre o assunto da moralidade da cobrança de juros:

A dificuldade do problema consiste em que a propriedade aparece primeiro como um fato tão necessário à existência do indivíduo quanto da vida social, e que se demonstra em seguida, por meio de uma análise rigorosa, que este fato, indispensável, fecundo, emancipador, salvador, é da mesma natureza, no fundo, que aquele que a consciência universal condena sob o nome de roubo.

Desta contradição exposta por mim à luz do dia, que ninguém queria jamais expor em praça pública, concluíram que eu queria destruir a propriedade. Destruir uma concepção do espírito, uma força econômica, destruir a instituição que esta força e esta concepção fomentam, é tão absurdo quanto destruir a matéria. […]

O que eu buscava, em 1840, definindo a propriedade, o que eu quero hoje, não é a destruição, eu o disse à exaustão: teria sido cair com Rousseau, Platão, Louis Blanc ele mesmo e todos os adversários da propriedade, no comunismo, contra o qual eu protesto de todas as minhas forças; o que eu exijo para a propriedade é uma balança.

Não é à toa que o espírito dos povos armou a Justiça com este instrumento de precisão. A Justiça, com efeito, aplicada à economia, não é outra coisa que uma balança perpétua; ou, para me exprimir de uma maneira ainda mais exata, a Justiça, no que concerne a repartição dos bens, não é outra coisa que a obrigação imposta a todo cidadão e à todo Estado, nas suas relações de interesses, de se conformar à lei de equilíbrio que se manifesta em toda a economia, e cuja violação, acidental ou voluntária, é o princípio da miséria.

Os economistas fazem supor que não é prerrogativa da razão humana intervir na determinação deste equilíbrio, que deve-se deixar os braços da balança oscilarem sem ajuda, e seguí-los passo a passo nas nossas operações. Eu sustento que é lá uma ideia absurda; que tanto valeria oferecer uma reprimenda à Convenção Nacional de ter reformado os pesos e medidas, pela razão que, não conhecendo o metro usado por Deus para organizar o mundo, o mais seguro seria deixar cada um escolher uma medida arbitrária. Liberdade de pesos e medidas! é a consequência do livre comércio. Este precioso corolário escapou à apreciação de Bastiat.

*Agradecimentos a Gabriel Felippi pela revisão

O pai do Anarquismo defendia a propriedade privada

Cifras de Beijo Partido de Toninho Horta em Diamond Land

Olá pessoal,

No fim de 2014, durante a gravidez da Anna, eu fiquei meio obsessivo com algumas Bossas do Tom Jobim, mas especialmente com Beijo Partido do Toninho Horta. Devo ter demorado no total uns dois meses, entre os horários que eu podia, tirando os acordes exatos contidos na versão bilíngüe de 1988 do álbum Diamond Land, com a Joyce providenciando os vocais em inglês.

É uma música excepcionalmente bela, e bastante complexa. A introdução está meio tom acima, a música começa a parte em português meio tom abaixo, e muda para mais meio tom abaixo na parte em inglês, terminando com o fade em loop minimalista numa passagem entre dissonante e “resolvedora”.

A letra fala de dor e amor, como grande parte da canção popular, porém com aquela realidade fantástica interpretada pela atemporalidade dos vales escondidos das montanhas de Minas, o coração mineral que bombeia melancolia cristalina para a cultura do resto do país.

Eu adoro, em suma, hehe.

Os acordes estão na ordem que aparecem, e não repito acordes nesta transcrição. Certamente muitos estão cifrados incorretamente, lembrem que eu sou um mero guia de turismo, e o quinto acorde, onde terminam os acordes inéditos da introdução, obviamente é um A#7(13), desculpem a falha.

O último acorde da quinta linha [B7sus2(13)] é o começo da passagem para a parte em inglês, que começa no terceiro acorde da sexta linha [EbM7(9)].

Se você achar útil essa transcrição, por favor dê um alô através de raphaelmoras@gmail.com, vou considerar um milagre.

Cifras de Beijo Partido
Cifras de Beijo Partido
Cifras de Beijo Partido de Toninho Horta em Diamond Land

As mentiras da Auditoria Cidadã da Dívida

Em 2014 copiei um texto do feed de facebook do Carlos Góes, economista articulista do site Mercado Popular, de tendência liberal com preocupação social (um liberalismo levemente de esquerda). O texto falava sobre a propaganda mentirosa sobre o pagamento de juros da dívida pública, espalhada pela organização Auditoria Cidadã da Dívida, que possui fortes ligações e afinidades com o partido socialista PSOL.

Apesar de eu ser completamente contra o endividamento público, é preciso falar a verdade. O PSOL mente sobre o pagamento da dívida para instaurar a revolta na mente de seus seguidores, e fazer essa emoção se traduzir em votos e apoio para medidas ainda mais autoritárias do que simplesmente o governo se endividar em nome do povo.

Leiam e julguem por si próprios:

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Segundo a “Auditoria Cidadã da Dívida”, o governo destina mais ou menos 43% do Orçamento federal pra financiamento da dívida pública. /Isso é distorção deliberada do que é a verdade/.

Eles aglomeram duas coisas diferentes na mesma conta: (a) rolagem da dívida; e (b) serviço e amortização. Este último grupo é quando o governo tira uma parte do orçamento federal pra pagar o principal ou juros da dívida. Já o primeiro grupo é quando o governo emite dívida nova pra pagar dívida antiga (estendendo o prazo da dívida total).

Embora seja contabilmente parte do orçamento, quando o governo rola dívida ele não está alocando recursos públicos pra dívida, já que ele esta tomando recursos emprestados (ou seja que não foram arrecadados por meio de impostos) pra saldar obrigações passadas.

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Eu vou contar uma anedota pra mostrar porque a lógica desse pessoal é errada.

Vamos dizer que esse ano você tome um empréstimo de R$100, a juros de 10% ao ano, de mim.

Quando chega ao fim do ano, você me deve R$110. Só que você não guardou dinheiro. Então você toma R$110 emprestados com o Deco, também por 10%a.a., e me paga.

Quando chega no fim do ano que vem você também não guardou dinheiro e agora você deve R$121 pro Deco. Aí você pede esse dinheiro emprestado com o Nicolas e paga o Deco.

No fim do outro ano, você deve R$133,1 pro Nicolas. Você toma outro empréstimo, dessa vez do Davi, e paga o Nicolas.

Depois de um ano você vai dever R$146,41 pro Davi.

Quanto você gastou pagando sua dívida? Nada, já que você não guardou nenhum dinheiro pra saldar a dívida.

Pelo cálculo deles, quanto você teria “gastado”: R$354,1. Aí eles falam, “mas a gente já pagou essa dívida mais de três vezes, como é possível que a gente deva R$146,41?”

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Alguns cálculos rápidos (sem grande rigor analítico):

Segundo o Tesouro Nacional (sempre mais confiável que a LOA, que é uma estimativa), o governo usou R$662bi com operações da dívida pública em 2012, sendo que R$647bi foram rolados. Ou seja, o Governo tirou do orçamento federal R$15bi pra efetivamente financiar (amortizar) a dívida.

Segundo os dados da própria Auditoria, o orçamento federal de 2012 foi de R$1.7tri. Deduzindo os R$647bi rolados (que não são recursos públicos em stricto sensu), sobram R$1.05tri.

Os R$15bi efetivamente retirados do orçamento efetivo de R$1.05tri simbolizam cerca de 2% do orçamento federal. É um bocado. Mas não são 43%.

Cuidado com a memeficação da política. Nem tudo que é colocado num gráfico é realidade.

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As mentiras da Auditoria Cidadã da Dívida

Edward Snowden in an AMA

Question in the 23rd Feb 2015 AMA:

What’s the best way to make NSA spying an issue in the 2016 Presidential Election? It seems like while it was a big deal in 2013, ISIS and other events have put it on the back burner for now in the media and general public. What are your ideas for how to bring it back to the forefront?

Edward Snowden:

This is a good question, and there are some good traditional answers here. Organizing is important. Activism is important.

At the same time, we should remember that governments don’t often reform themselves. One of the arguments in a book I read recently (Bruce Schneier, “Data and Goliath”), is that perfect enforcement of the law sounds like a good thing, but that may not always be the case. The end of crime sounds pretty compelling, right, so how can that be?

Well, when we look back on history, the progress of Western civilization and human rights is actually founded on the violation of law. America was of course born out of a violent revolution that was an outrageous treason against the crown and established order of the day. History shows that the righting of historical wrongs is often born from acts of unrepentant criminality. Slavery. The protection of persecuted Jews.
But even on less extremist topics, we can find similar examples. How about the prohibition of alcohol? Gay marriage? Marijuana?

Where would we be today if the government, enjoying powers of perfect surveillance and enforcement, had — entirely within the law — rounded up, imprisoned, and shamed all of these lawbreakers?

Ultimately, if people lose their willingness to recognize that there are times in our history when legality becomes distinct from morality, we aren’t just ceding control of our rights to government, but our agency in determing thour futures.

How does this relate to politics? Well, I suspect that governments today are more concerned with the loss of their ability to control and regulate the behavior of their citizens than they are with their citizens’ discontent.
How do we make that work for us? We can devise means, through the application and sophistication of science, to remind governments that if they will not be responsible stewards of our rights, we the people will implement systems that provide for a means of not just enforcing our rights, but removing from governments the ability to interfere with those rights.

You can see the beginnings of this dynamic today in the statements of government officials complaining about the adoption of encryption by major technology providers. The idea here isn’t to fling ourselves into anarchy and do away with government, but to remind the government that there must always be a balance of power between the governing and the governed, and that as the progress of science increasingly empowers communities and individuals, there will be more and more areas of our lives where — if government insists on behaving poorly and with a callous disregard for the citizen — we can find ways to reduce or remove their powers on a new — and permanent — basis.

Our rights are not granted by governments. They are inherent to our nature. But it’s entirely the opposite for governments: their privileges are precisely equal to only those which we suffer them to enjoy.

We haven’t had to think about that much in the last few decades because quality of life has been increasing across almost all measures in a significant way, and that has led to a comfortable complacency. But here and there throughout history, we’ll occasionally come across these periods where governments think more about what they “can” do rather than what they “should” do, and what is lawful will become increasingly distinct from what is moral.

In such times, we’d do well to remember that at the end of the day, the law doesn’t defend us; we defend the law. And when it becomes contrary to our morals, we have both the right and the responsibility to rebalance it toward just ends.

Source: https://np.reddit.com/r/IAmA/comments/2wwdep/we_are_edward_snowden_laura_poitras_and_glenn/courx1i?context=3

Edward Snowden in an AMA