O Fundamentalismo Religioso na Europa do Início do Século XXI

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A França foi alvo, em 2015, de dois ataques terroristas espetaculares, não somente por ser um país que atrai a atenção do mundo inteiro, como também pela própria natureza e escopo dos ataques, dos mais mortíferos já perpetrados até então. Por terem sido ambos cometidos por muçulmanos, o debate em relação à natureza e ao estado atual do islamismo e sua integração com as outras culturas e religiões se faz cada vez mais importante e frequente.

Este artigo é o primeiro de uma série que pretendo escrever para tentar trazer à tona os fatos relevantes, e desvelar os mitos sobre o islamismo e o terrorismo a ele associado.


Para entender o fundamentalismo contemporâneo na Europa, pode-se usar como base a excelente pesquisa de 2013 do Dr. Ruud Koopmans (diretor de pesquisa do Berlin Social Science Center), chamada “Religious Fundamentalism and Hostility against Out-groups: A Comparison of Muslims and Christians in Western Europe“, na qual 9000 pessoas foram entrevistadas por telefone fixo e móvel sobre suas tendências religiosas.

Prof. Dr. Ruud Koopmans (David Ausserhofer)
Prof. Dr. Ruud Koopmans

Foram escolhidos dois grupos principais distribuídos em 6 países (Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Áustria e Suécia), cristãos nativos de um lado, e imigrantes de primeira e segunda geração do Marrocos e da Turquia do outro. A definição de fundamentalismo é essencial para o bom entendimento do fenômeno, e assim o pesquisador o definiu como a concordância explícita a três proposições, ou às três atitudes inter-relacionadas:

  1. Cristãos [Muçulmanos] devem retornar às raízes da religião.
  2. Existe apenas uma interpretação da Escritura Sagrada e todo cristão [muçulmano] deve aceitar essa interpretação.
  3. As regras da Bíblia [Corão] são mais importantes para mim que as leis do meu país.

Para relacionar o fundamentalismo à hostilidade a grupos externos, também perguntaram qual a concordância (sim ou não) para as seguintes afirmações (faça você também esse teste e descubra se você é hostil a grupos externos, aposto que muitos de vocês vão descobrir que têm pontos em comum com fundamentalistas):

  • Não quero Gays como amigos.
  • Não se pode confiar em Judeus.
  • Muçulmanos querem destruir a Cultura Ocidental (para nativos).
  • Países Ocidentais querem destruir o Islão (para muçulmanos).

Os achados foram muitos e bem interessantes, sendo os mais importantes:

  • Entre cristãos nativos o fundamentalismo ficou em 3% e as hostilidades oscilaram entre 8 e 22%, sendo essa última a desconfiança em relação ao Islão.
  • Entre imigrantes islâmicos de 1a e 2a geração o fundamentalismo ficou em 25% e as hostilidades oscilaram entre 22 e 61%, com cerca de 50% desconfiando do Ocidente querer o fim do Islão.
  • Sunitas, o maior ramo do islamismo mostram um grau significativamente maior de fundamentalismo que os Xiitas (outros estudos calculam 9 sunitas para cada xiita no mundo).
Fundamentalismo em cinco países da Europa
Fundamentalismo em cinco países da Europa

As quatro conclusões do estudo foram:

  • O fundamentalismo entre os imigrantes islâmicos europeus não é majoritário (44%). Ao mesmo tempo não pode ser considerado um fenômeno marginal, e é mais facilmente encontrado nas classes sociais mais pobres, apesar deste fato não explicar a diferença da maior frequência do fundamentalismo entre imigrantes islâmicos europeus do que entre cristãos nativos, cuja população mais pobre também agrega a maior parte dos seus fundamentalistas.
  • Não foram encontradas correlações entre frequência de fundamentalismo e o nível de repressão dos diferentes sistemas legais nacionais em relação aos imigrantes, nem com o nível percebido de hostilidade enfrentada por cada indivíduo entrevistado, o que enfraquece a teoria da “reatividade étnica e religiosa”.
  • Apesar aumentar a probabilidade, forte religiosidade não implica necessariamente em fundamentalismo. Dentre os entrevistados categorizados como “muito religiosos”, 8% dos cristãos, 21% dos xiitas e 50% dos sunitas concordaram com as 3 atitudes fundamentalistas.
  • Fundamentalismo é o maior indicador de hostilidade a grupos externos, tanto em cristãos quanto nos imigrantes islâmicos. Metade dos cristãos fundamentalistas acreditam que o Islão quer destruir a cultura Ocidental, e dois terços dos muçulmanos fundamentalistas acham que o Oeste quer acabar com o Islão. A rejeição aos gays e aos judeus é forte nos cristãos fundamentalistas, e ainda mais forte nos muçulmanos fundamentalistas.
Hostilidade a grupos externos
Hostilidade a grupos externos

Algumas ressalvas estabelecidas pelo próprio autor do estudo:

  • “Seria tolice interpretar os resultados como evidência de uma diferença fundamental e imutável entre o Cristianismo (liberal) e o Islamismo (fundamentalista).” Existem fundamentalistas cristãos, existem muçulmanos não fundamentalistas, os imigrantes muçulmanos na Europa vêm na maioria de áreas especialmente rurais e conservadoras dos seus países de origem, e os cristãos europeus tendem a ser menos religiosos e menos socialmente conservadores que os de outras regiões do mundo. Nos EUA a disparidade não existe, com maior tendência fundamentalistas entre os cristãos nativos (20%) e menor entre os imigrantes islâmicos (15%), em parte também graças à melhor posição sócio-econômica destes últimos nos EUA. Na Europa os conflitos se exacerbam pela maior disparidade cultural e sócio-econômica entre os dois grupos, e pela maior presença de muçulmanos entre a população europeia.
  • Dos entrevistados identificados como muçulmanos não fundamentalistas, grosseiramente um terço detém opiniões negativas sobre gays, judeus e a cultura ocidental, o que também quer dizer que uma maioria rejeita cada uma das opiniões negativas.
  • Se é possível dizer que existe “Islamofobia” por parte dos nativos, também se pode dizer que existe uma “Ocidentefobia” por grande parte dos imigrantes muçulmanos.
  • A hostilidade dos muçulmanos aos judeus é facilmente encontrada em muitos dos países de origem dos imigrantes.
  • Não se deve equacionar fundamentalismo e hostilidade com disposição para utilizar violência física. Obviamente tais tipos de atitude podem motivar uma minoria a agir violentamente, porém em pesquisas recentes, mesmo em muitos países de maioria muçulmana a rejeição ao uso da violência é majoritária entre os islâmicos.
  • É necessário pesquisar mais a fundo a ligação entre fundamentalismo religioso, radicalismo político e o uso da violência como meio para fins religiosos e políticos.

Segundo uma pesquisa de 2009, os 38 milhões de muçulmanos são cerca de 5% da população europeia. O país com maior número absoluto de muçulmanos é a Rússia, com mais de 16 milhões de muçulmanos (40% do total), a maioria estabelecida e integrada há séculos, assim como na Albânia e no Kosovo, onde perfazem a maioria da população (80% e 90% respectivamente). Nos países do Centro e do Oeste europeu, os imigrantes recentes da Turquia, do Norte da África e do Sul da Ásia são mais comuns entre os muçulmanos. O segundo país europeu com maior população muçulmana é a Alemanha com 4 milhões (5% de sua população total), seguida por França com 3,5 milhões (6%), Albânia com 2,5 milhões, Kosovo com 2 milhões e o Reino Unido com 1,7 milhões (2,7%), números aproximados.

Juntando os achados da pesquisa sobre fundamentalismo com os da pesquisa sobre as populações muçulmanas, não se vê claramente nenhuma tendência indubitável de epidemia de “Ocidentefobia” na população fora dos fundamentalistas islâmicos que, a grosso modo, totalizariam 1.25% da população europeia, caso as mesmas frequências se apliquem nos países não pesquisados. Cristãos fundamentalistas, apesar de apresentarem menores índice de hostilidade a grupos externos que seus equivalentes islâmicos, são mais numerosos (2.28%)* que estes últimos na população geral europeia.

Não se pode esquecer também que, mesmo em uma sociedade de tendência liberal e secular como a Europeia, ainda existe uma parcela significativa da população que rejeita gays, judeus e o islamismo (de modo geral, não apenas os tipos violentos de islamismo). Isso pode apontar para uma falha nas instituições europeias, tanto quanto para a inevitabilidade do tribalismo nas relações humanas. De qualquer maneira, o fundamentalismo islâmico se diferencia em grau, mas não em essência, do fundamentalismo cristão, levados em conta os parâmetros da pesquisa aqui discutida.


 

**Update em 27-Nov-2015

Eu havia feito um cálculo errado sem levar em conta que 3% dos cristãos nativos não são a mesma coisa que 3% da população total. Levando em conta que os cristãos são 76% da população Europeia, refiz o cálculo para 2.28%.

Parágrafo antes de corrigir:
“Cristãos fundamentalistas, apesar de apresentarem menores índice de hostilidade a grupos externos que seus equivalentes islâmicos, teriam mais que o dobro (3%) do tamanho da população destes últimos na população geral europeia.”

**Caso você discorde de alguma opinião ou fato apresentado no artigo, por favor especifique exatamente o que é, e cite a parte do artigo que aponta para essa discordância.

 

O Fundamentalismo Religioso na Europa do Início do Século XXI

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