O GALO CASTRADO

Artigo originalmente publicado no site Liberzone no início de 2014.

Galo

No dia 3 de janeiro, a Newsweek (que era de papel, agora é online, e voltará a ser de papel nos EUA em março de 2014) publicou um artigo sobre a “Queda da França” que fez tempestade, e as marolas chegaram ao commentariat liberal brasileiro que em grande parte se jogou com vontade na prática do Schadenfreude, “está vendo? O capitalismo está ganhando do Socialismo!”.

Houve uma esperada reação por parte dos defensores de l’État, mas também por uma enxurrada de franceses que pensaram wtf, uma gringa moradora de Paris resolveu fazer french bashing? Qual é a parada do novo dono da Newsweek, um francês chamado Etienne Uzac? A autora Janine Di Giovani, que parece ser uma correspondente de guerra minimamente séria e respeitada, imediatamente sumiu, sua conta de twitter foi deletada, e convenientemente ela parece estar no Sudão se protegendo de balas e bombas. Uma corega veio em sua defesa chamando a França de galo que virou avestruz.

Quando Júlio César chegou ao Hexágono (o mapa da França nos lembra e é chamado deste polígono) mais ou menos 50 antes de Cristo, chamou o povo celta que ali habitava de gauleses, porque esses “índios” tribais cultuavam o galo, animal orgulhoso, d’allure fière, brigão, adúltero e que fica gritando quando todo mundo quer dormir (qualquer semelhança com o povo atual não é mera coincidência). Será mesmo que esse povo enterrou a cabeça na areia e não quer mais ouvir a voz da razão (americana)?

Para o étranger mais liberal ou conservador, o artigo é uma pâtisserie irresistível, e para os socialistas francófilos é um motivo crivado de ultrajes. Mas a verdade nua e crua é que o artigo é uma bosta, um rejeton jornalístico. A mina não teve a dignidade de verificar números, citar fontes, nada. Não passa de on-dit, de contar o que ouviu o vizinho falar  através da parede. Em Paris você ouve quase tudo que seus vizinhos fazem, mas pelo menos as janelas costumam ser de vidro duplo.

Antes de citar as mais óbvias inverdades do artigo, quero deixar claro que não estou defendendo “a França”, muito menos o governo e seus programas, e a primeira idiotice do artigo, mas que é norma na mídia e nas cabeças do mundo inteiro em geral, é a confusão entre sociedade e governo. Para mim é claro que são coisas diferentes, que aquela não deveria ser sujeita àquele, e que se um governo faz um monte de cagadas, não se pode culpar a sociedade como um todo, isso seria um tipo pervasivo de coletivismo vertical.

A autora compara a fuga atual de franceses, supostamente por causa do atual presidente Flanby, à revogação do edito de Nantes pelo absolutista Luís Quatorzinho, causa da fuga de cerca de 700.000 protestantes para países vizinhos mais acolhedores. Sério? Então porque houve um aumento de apenas 1.1% dessa fuga em 2012, contra 6% em 2011? Será que o Francisco Holanda (quase homônimo com o Chico Buraco né não?), primeiro presidente “socialista” desde 1995, inventou o sistema de imposto na França? “Since the arrival of Socialist President François Hollande in 2012, income tax and social security contributions in France have skyrocketed”.

Será que em 2011 pagávamos zero porcento de imposto? Óbvio que não, o que este presidente milionário hipócrita fez foi apelar para o mais baixo populismo de viés social-democrata e começar um programa de aumento de impostos para as grandes fortunas, que não foi totalmente estabelecido, e provavelmente vai parar por aí. Sim, os magnatas e BIG CEOs nominalmente passarão a “contribuir” mais para o leviatã, mas a gente sabe que todo mundo consegue escapar do fisco não é? Sejamos pobres ou ricos, sempre há uma brecha, e os magnatas contratam os melhores especialistas para isso. Então não desperdice humidade pelos personagens da Revolta de Atlas, o governo também parasita neles, mas parasita muito mais no resto, e invariavelmente eles se aproveitam desse parasitismo como explica a teoria da captura.

As they say, the problem with the French is they have no word for entrepreneur. ” É de dar pena, essa palavra é francesa, e os ingleses a adotaram no século XIX. Vocês sabiam que no século 11 um normando (um tipo de viking afrancesado, imagine o governo transformando o líder do Comando Vermelho em prefeito de Nilópolis) chamado Guilherme o Conquistador atravessou o Canal da Mancha e meteu a porrada na elite anglo-saxã enquanto eles discutiam quem ia ser o novo déspota, e se transformou ele mesmo no King of the Black Cocada. A partir daí, my friends, branco falou somente francês na corte real inglesa até meados de 1400, e até hoje dois terços das palavras da língua do Bardo de Avon advêm da língua de Molière, quem diria. Você que fica rindo da Franceball e suas bandeiras brancas não conhecia esse nobre francês que fez bully com os pobres ingleses, certo?

Does he realize Rome is burning?” Aqui ela chega aos píncaros da hipérbole, a França está queimando, e logo em seguida nos deixa confusos com uma série de elogios sobre a excelente infra-estrutura, o TGV, a Airbus, a LVMH (que está grafado errado no artigo), a melhor indústria agrícola, a maior indústria turística, e mais adiante ainda fala do excelente sistema de saúde. O que concluir desta construção incoerente de argumentos? Ela te faz pensar em Roma sob as chamas, e depois pinta o paraíso. Certamente não dá para comparar o sistema de saúde francês com o SUS, mas peralá, como todo sistema estatal monopolístico e subsidiado com impostos o daqui também sofre com a burocracia, a ineficiência e a espera, não me parece um modelo a ser copiado. “Masterful state-subsidized schools”… Ela consegue colocar o filho dela numa escola de elite em Paris, enquanto o sistema nacional sofre de échec scolaire em massa, notadamente dos balieusards (suburbanos) que vivem em cités(conjuntos habitacionais estatais).

“But the past two years have seen a steady, noticeable decline in France. There is a grayness that the heavy hand of socialism casts.” Então ela volta à parte negativa e determina que o problema da França é o socialismo, entrando na eterna batalha pantanosa de definições ideológicas. Não tenho como entrar nessa barafunda agora, mas basicamente: a “França” é uma república social-democrata com alto intervencionismo econômico, e as diferenças deste sistema para o inglês, por exemplo, são cosméticas (90% dívida pública/PIB para os dois), pelo menos no debate socialismo-capitalismo.

Adiantando um pouco o que deverei escrever em outro artigo, a França é mais um país tomado pelo corporativismo buro-tecnocrata ordo-liberal, o que pode ser caridosamente chamado de neoliberalismo (que não é a mesma coisa que capitalismo, socialismo nem liberalismo, pfvr). Para explicar os problemas macroeconômicos não basta chamar qualquer coisa que você não goste de algum termo guarda-chuva como socialismo.

A estatística de 5.5 milhões de desempregados é sim oficial, mas como todo governo, o francês somente comenta a categoria dos desempregados que estão procurando emprego. Agora, 8 dólares o litro de leite em Paris? Eu tive que rir, eu compro em Paris por aproximadamente 1 euro, ou ela nunca desce do salto alto para comprar o leite no mercadinho em frente ao Jardim do Luxemburgo onde mora, ou ela está mentindo deliberadamente.

“With the end of the reign of Gaullist (conservative) Nicolas Sarkozy (the French hated his flashy bling-bling approach) the French ushered in the rotund, staid Hollande. Almost immediately, taxes began to rise.” Como ela tem acesso a dados que ninguém mais possui? Em nenhum lugar ela cita fontes, e não se consegue achar ninguém afirmando a mesma coisa pelas internets. Em 1995 quando entrou o gaulista Chirac do mesmo partido UMP que Sarkô, a carga fiscal era de 43%, e 16 anos de governo UMP a taxa subiu para 44.2, de onde não deve ter mexido muito em menos de dois anos de PS. Onde está o profissionalismo desta jornalista?

Não existe nada como fraldas ou creches gratuitas, existem associações beneficentes, ajuda estatal para pais pobres de recém-nascidos, creches associativas, creches municipais pesadamente subsidiadas… A reeducação muscular pós-parto é para fortalecer o canal vaginal, uma medida preventiva, e não para diminuir a barriga e sensualizar as MILFs, sacrebleu!

“Who cares about the BRICS – the emerging markets of Brazil, Russia, India, China, and South Africa – when we have Paris? It is a tunnel-vision philosophy that will kill France.” A China é o segundo maior investidor na França, o Brasil é o QUARTO. O mercado de vinhos de luxo de Bordeaux atualmente está todo bagunçado por causa da febre Château Lafitte entre os milionários chineses, e o número de turistas chineses em Paris só não foi maior que o de brasileiros e americanos em 2012. Qual é o critério que ela utiliza na análise da visão (de negócios? cultural?) de um povo para crer que um país vai ser MORTO?

A partir desse momento a autora cita opiniões de amigos seus reclamando de coisas que seriam impossíveis ser causadas pelo presidente que entrou há pouco tempo, escolas, inovação, línguas estrangeiras, dá preguiça de ler esses argumentos preguiçosos. Como eu disse, parece fofoca de comadre.

Enfim, leitores da Liberzone, as poucas meias verdades que ela usa como base para o artigo (elitismo e hipocrisia dos políticos, nanny welfare state, desemprego e encargos trabalhistas, intervencionismo) não são suficientes para passar a mão na cabeça dos inúmeros absurdos que a escritora cometeu com o intuito desonesto de criar uma polêmica populista e manipuladora. Lutemos contra o estado, mas contra o real e não o inventado. Critiquemos o intervencionismo com argumentos embasados. E, principalmente: parem de torcer por uma visão Polandball da França, é bom para rir, mas faz passar vergonha em qualquer roda de festa bobo.

O GALO CASTRADO

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