As mentiras da Auditoria Cidadã da Dívida

Em 2014 copiei um texto do feed de facebook do Carlos Góes, economista articulista do site Mercado Popular, de tendência liberal com preocupação social (um liberalismo levemente de esquerda). O texto falava sobre a propaganda mentirosa sobre o pagamento de juros da dívida pública, espalhada pela organização Auditoria Cidadã da Dívida, que possui fortes ligações e afinidades com o partido socialista PSOL.

Apesar de eu ser completamente contra o endividamento público, é preciso falar a verdade. O PSOL mente sobre o pagamento da dívida para instaurar a revolta na mente de seus seguidores, e fazer essa emoção se traduzir em votos e apoio para medidas ainda mais autoritárias do que simplesmente o governo se endividar em nome do povo.

Leiam e julguem por si próprios:

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Segundo a “Auditoria Cidadã da Dívida”, o governo destina mais ou menos 43% do Orçamento federal pra financiamento da dívida pública. /Isso é distorção deliberada do que é a verdade/.

Eles aglomeram duas coisas diferentes na mesma conta: (a) rolagem da dívida; e (b) serviço e amortização. Este último grupo é quando o governo tira uma parte do orçamento federal pra pagar o principal ou juros da dívida. Já o primeiro grupo é quando o governo emite dívida nova pra pagar dívida antiga (estendendo o prazo da dívida total).

Embora seja contabilmente parte do orçamento, quando o governo rola dívida ele não está alocando recursos públicos pra dívida, já que ele esta tomando recursos emprestados (ou seja que não foram arrecadados por meio de impostos) pra saldar obrigações passadas.

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Eu vou contar uma anedota pra mostrar porque a lógica desse pessoal é errada.

Vamos dizer que esse ano você tome um empréstimo de R$100, a juros de 10% ao ano, de mim.

Quando chega ao fim do ano, você me deve R$110. Só que você não guardou dinheiro. Então você toma R$110 emprestados com o Deco, também por 10%a.a., e me paga.

Quando chega no fim do ano que vem você também não guardou dinheiro e agora você deve R$121 pro Deco. Aí você pede esse dinheiro emprestado com o Nicolas e paga o Deco.

No fim do outro ano, você deve R$133,1 pro Nicolas. Você toma outro empréstimo, dessa vez do Davi, e paga o Nicolas.

Depois de um ano você vai dever R$146,41 pro Davi.

Quanto você gastou pagando sua dívida? Nada, já que você não guardou nenhum dinheiro pra saldar a dívida.

Pelo cálculo deles, quanto você teria “gastado”: R$354,1. Aí eles falam, “mas a gente já pagou essa dívida mais de três vezes, como é possível que a gente deva R$146,41?”

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Alguns cálculos rápidos (sem grande rigor analítico):

Segundo o Tesouro Nacional (sempre mais confiável que a LOA, que é uma estimativa), o governo usou R$662bi com operações da dívida pública em 2012, sendo que R$647bi foram rolados. Ou seja, o Governo tirou do orçamento federal R$15bi pra efetivamente financiar (amortizar) a dívida.

Segundo os dados da própria Auditoria, o orçamento federal de 2012 foi de R$1.7tri. Deduzindo os R$647bi rolados (que não são recursos públicos em stricto sensu), sobram R$1.05tri.

Os R$15bi efetivamente retirados do orçamento efetivo de R$1.05tri simbolizam cerca de 2% do orçamento federal. É um bocado. Mas não são 43%.

Cuidado com a memeficação da política. Nem tudo que é colocado num gráfico é realidade.

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As mentiras da Auditoria Cidadã da Dívida

19 comentários sobre “As mentiras da Auditoria Cidadã da Dívida

  1. Leandrokingjr disse:

    Muito simples, vamos fazer a auditoria então e envergonhar o PSOL então. Só gostaria de lembrar que no Equador houve uma redução de 70% da dívida pública e agora, na Grécia onde a coordenadora do movimento Maria Lucia Fatorelli estava auditando, foram apontadas inúmeras irregularidades disponíveis no site da Auditoria Cidadã da Dívida. Qual o motivo para não fazermos essa auditoria senhores??? Quem não deve não teme.

    1. Façam a auditoria que quiser, por mim quanto mais transparência melhor. O que é o contrário que a Sra. Fatorelli está fazendo, espalhando falsos números para aumentar a histeria em torno do tema. Eu sou contra qualquer dívida pública, não somente os juros, mas o que importa aqui é apresentar fatos e não invenções.

  2. Madson disse:

    O exemplo anedótico é simplório. Qualquer pessoa, ainda no senso comum, sabe que ao rolar uma dívida o aumento do seu montante não é tão ínfimo como o exposto. O grave é negligenciar a população que o endividamento da dívida brasileira vem crescendo, assustadoramente, à custa dos baixos investimentos sociais e ainda veicular nas mídias que já pagamos a mesma. Se queres transparência de verdade ajude na luta pela auditoria que aliás deveria ser uma obrigação do estado não só por uma questão ética mas por um preceito legal e constitucional.

    1. O exemplo não é anedótico, é a base da crítica da tal Auditoria, é uma mentira. Se você possui outros dados, mostrando que “não é tão ínfimo”, por favor me mostre.

      A dívida é realmente um problema enorme, e os partidos deveriam parar de aumentá-la, ao invés de ficar propondo o não pagamento. O próprio PSOL, partido por trás dessa Auditoria, quer tudo gratuito, transporte, educação, saúde, e pra pagar isso somente com impostos ou dívidas, então não vejo muita seriedade nesse pessoal.

      A dívida já está aí transparentemente um absurdo, e não precisamos de ninguém ficar criando mentiras sobre os juros para criticar a dívida.

  3. Fernando disse:

    Amigo,
    Vamos juntar dois fatos:
    No começo de 2015 a dívida pública federal estava em 2,4 trilhões de reais.
    No mercado primário de leilões da dívida publica, apenas 11 bancos estão habilitados a participar. Pesquisei rápidamente na internet e somei os lucros que tais bancos tiveram em 2014, chegando a cifra de 50 bilhões (arredondando p cima).
    De acordo com a sua “anedota” , vc quer nos fazer acreditar que esse bancos conseguem levantar anualmente 2,5 trilhões de reais para reimprestar ao governo pra fazer essa rolagem da dívida??

    Simplificando ainda mais o meu modelo até chegar ao seu:
    No final do ano eu pego 2,4 trilhões com deco pra pagar minha dívida. E no final do outro ano ainda mais com Nicolas, e depois ainda mais com Davi.

    A conta não fecha, nem os bancos (ou deco, Nicolas e Davi) dispõe de tamanha liquidez ou crédito para tal operação.

  4. nelson cardoso disse:

    Vamos fazer a auditoria da dívida pública brasileira e ver quem esta com a razão.

    Islândia conseguiu acabar com um governo corrupto e parasita. Prendeu os responsáveis pela crise financeira, mandando para a prisão. Começou a redigir uma nova Constituição feita por eles e para eles. E hoje, graças à mobilização, será o país mais próspero de um ocidente submetido a uma tenaz crise de dívida.

    Vamos seguir o exemplo da Islândia.

    Leia mais: http://forum.antinovaordemmundial.com/Topico-isl%C3%A2ndia-triplicar%C3%A1-seu-crescimento-em-2012-ap%C3%B3s-a-pris%C3%A3o-de-pol%C3%ADticos-e-banqueiros#ixzz3llD3W3p7

  5. Alan disse:

    Realizar uma auditoria significa investigação, transparência. E a auditoria não fala em calote, mas sim no cumprimento da realização de uma auditoria da dívida conforme previsto na Constituição Federal de 1988. Então por que o medo? e os juros e amortizações da dívida está sim sendo pagos por meio da alta carga tributária e dos cortes em investimentos em educação, saúde, infraestrutura etc. O movimento da auditoria cidadã tem cumprido um papel fundamental ao desmascarar esse sistema da dívida e seus mecanismos financeiros de espoliação. http://www.auditoriacidada.org.br/e-por-direitos-auditoria-da-divida-ja-confira-o-grafico-do-orcamento-de-2012/

    1. Os que vêm aqui criticar meu post parece que não querem ler, querem cegamente defender.

      Por mim haveria zero dívida, e por mim cada presidente e deputado autorizando uma dívida deveria ser impedido. Por mim o orçamento federal seria facilmente verificado por cada cidadão, que poderia auditar independentemente a dívida como quisesse.

      O problema é que esse pessoal da ADDC mente sobre os números, e isso é imperdoável.

      1. João Paulo disse:

        Mas então o governo brasileiro estaria contando a nova dívida como recurso já que eles colocam como o pagamento dos juros.

  6. Anônimo disse:

    “Frequentemente, pessoas ligadas ao governo afirmam que parte destes 40,3% seria apenas “rolagem” ou “refinanciamento” da dívida, ou seja, o pagamento de amortizações (principal) da dívida por meio da emissão de novos títulos (nova dívida). Portanto, isto seria apenas uma troca de títulos velhos por novos, não representando custo para o país.

    Porém, a recente CPI da Dívida realizada na Câmara dos Deputados revelou que grande parte desta “rolagem” ou “refinanciamento” contabilizada pelo governo não representa pagamento de principal, mas sim, o pagamento de juros. Portanto, a capacidade de endividamento do país está sendo utilizada para pagar juros e encher o bolso dos bancos, ao invés de, por exemplo, financiar a melhoria da saúde, educação, transportes, etc.”

  7. Fernando disse:

    Li seu post, achei super interessante. Defendia cegamente a Auditoria sem saber a respeito desses números inflados. Infelizmente, como não sou economista, não sei muito bem quem fala a verdade, mas entendi tudo que escreveu, foi claro e didático.
    Sobre a Auditoria, contínuo defendendo, independente de ser 0.5% / 1% ou 1000%. Não acho que faça sentido não apoiar auditar a dívida só pq o valor lhe parece pequeno. Não é porque chegamos no valor de 2% que não precisamos resolver o problema. Se fosse assim não precisaríamos nem pagar nada, já que é tão pouquinho. Afinal, os 2 centavos de troço nunca voltam.

  8. João disse:

    É de chorar os comentários do pessoal. Nenhum conseguiu rebater teus argumentos.Por sinal, já tinha detectado essa “falha” do Movimento de Auditoria Cidadã. Questionei eles na época e eles não responderam, só ficaram no lero lero. Vamos falar a verdade que pouca gente sabe: um calote ou moratória da dívida quebraria TODOS os bancos, TODOS os Fundos de Previdências, TODAS as segurados. Enfim, desde o aposentado que ganha 1000 reais, até o poupador que tem 2000 reais na poupança estariam lascados. Não se deixem enganar de que os detentores da dívida são apenas alguns banqueiros malvadões. É legítimo pedir auditoria da dívida, mas 99,99 % das pessoas não fazem a mínima ideia das repercussões que um calote causaria. No site do Tesouro tem o percentual detido por cada um na dívida. Em resumo, boa parte dos brasileiros são credores e devedores da dívida, sem ao menos saber que são credores, Basta ter uma conta bancária com 1 real pra ser remunerado com recursos com lastro em títulos públicos. Tem uma foram de diminuir a dívida: gastar menos do que se arrecada. Simples assim, O resto são falácias, que se aproveitam da falta de conhecimento do cidadão médio sobre o assunto.

  9. Para aprofundarmos o debate democrático, pode-se consultar no link abaixo o orçamento federal previsto para 2016 (PLOA 2016), disponibilizado no site do Orçamento Federal do próprio governo – http://www.orcamentofederal.gov.br/orcamentos-anuais/orcamento-2016/ploa/orcamento-cidadao-2016.pdf/view
    Na página 18 verifica-se, para o ano corrente, a previsão de pagamento de juros e amortização da dívida no valor de 463,9 bilhões de reais, enquanto que a rolagem da dívida apresenta o montante de 885,00 bilhões de reais. O autor tem razão em argumentar que não se deve somar os valores e denominá-los como gastos da dívida pública. Entretanto, isso não resume o valioso trabalho da associação Auditoria Cidadã da Dívida. Pois bem, considerando-se o montante de R$ 463,9 bilhões de reais, o tema é de extrema importância e merece grande parte da nossa atenção e estudo, caros cidadãos brasileiros. Devemos compará-los a outros números. Consultando-se o mesmo documento acima descrito, encontro na página 26 a especificação das despesas para o ano de 2016. Vejamos: Educação – R$ 103 bilhões de reais; Saúde – R$ 100,4 bilhões de reais, totalizando 203,4 bilhões de reais, ou seja, poderemos gastar com saúde e educação menos da metade do que poderá ser pago apenas com juros e amortização da dívida pública. A Auditoria Cidadã da Dívida possui uma luta de causa muito nobre. Não se resume apenas a questão da auditoria, mas em apontar e demonstrar o Sistema da Dívida – existência de privilégios macroeconômicos e legais para subtração de recursos públicos do orçamento, ano após ano. Conforme visto, prioriza-se no Brasil o pagamento da dívida pública acima das demais questões sociais (saúde, transporte, educação etc). Pergunto: Que mal faria uma auditoria? Controle e transparência não deve ser visto como problemas em regimes democráticos. Pra mim esta é a questão central. Não é tema da grande mídia. Não está na boca dos políticos. É muito sério. E triste. Onde está o debate a respeito do imposto sobre grandes fortunas (artigo 153 VII, CF) em plena crise econômica com metas de reajuste fiscal? Só se fala em escândalos de corrupção. Cortina de fumaça. Cabe a cada um abrir bem os olhos e estudarmos por nós mesmos. Está acima da superficial distinção partidária: esquerda-direita (petralhas x coxinhas). Precisamos nos unir para um Brasil melhor e o caminho é buscarmos a nossa própria formação e educação, sempre com respeito aos nossos semelhantes. Devemos confrontar ideias e não pessoas. Pessoas não são ideias. Uma melhor ideia não significa uma pessoa melhor ou superior. Grato ao autor do texto pela viabilização dessa interação com os nobres irmãos.

  10. Manoel disse:

    Não acredita que, diante de um tema de tal importância, o teu post ficou raso e politizado? Com o título já buscou desclassificar todo o trabalho feito pela ACD. Se as coisas são simples, como descreve no post, não teríamos crise. Uma auditoria não faria mal a nenhuma pessoa honesta do povo brasileiro, apenas prejudicaria aqueles que tentam lográ-lo. Acho que com a tua inteligência poderia contribuir para isso acontecer, ao invés de partidarizar o debate e tentar estancar as tentativas de transparência por parte do governo, dos bancos e etc. Obrigado por nos abrir os olhos quanto aos números que talvez esteja inflados, porém, lembremos que eles são inflados pelos dois lados, de acordo com os interesses de quem faz o discurso. Tem gente que diz que o país está quebrado e que precisa cortar programas, tem gente que diz que o país está quebrado e precisa colocar mais imposto nos empresários. O mais inteligente, acredito que seja, é ficar ao lado de quem quer entender como tudo isso funciona, quanto é devido e como podemos pagar e o que é justo pagar.🙂
    Abraço!

  11. Eu era muito entusiasta da ADDC, mas acho que me deixei seduzir muito facilmente com suas propostas. Concordo com Fattorelli que a dívida deve passar por maior transparência e concordo que pode haver uma engenharia financeira agravando nossa dívida desnecessariamente. Agora, forjar números é imperdoável. Quando comecei a ler contraposições à ADDC, fiquei bem frustrado, primeiro porque eu estava seduzido, segundo porque eu queria que meu TCC seguisse a versão de Fattorelli. É muito grave alguém espalhar tão convictamente números falsos do orçamento!

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