Quem foi Gustave de Molinari?

Tradução livre do artigo Qui était Molinari originalmente escrito em francês por Olivier Golinvaux na segunda-feira, 9 de março de 2009 para o sítio internet do Institut Économique Molinari.
Gustave de Molinari

Introdução à obra de Molinari

De tamanho médio, com uma cabeleira abundante, míope mas todavia capaz de ler sem a ajuda de óculos, portando um bigode e um cavanhaque, sofrendo somente de uma ligeira dificuldade auditiva, Gustave de Molinari se manteve, durante um longo tempo, física e mentalmente vigoroso, a ponto de atrair a admiração de todos que o viam.

Perto de sua morte, atingido pela paralisia parcial, ele retinha contudo sua lucidez de espírito, e meditava ainda sobre aquelas grandes questões que haviam preenchido sua vida assim como suas relações com os acontecimentos contemporâneos. Foi assim que Yves Guyot, colega e amigo próximo de Molinari, descreveu os últimos dias desse que tinha sido o mais radical dos economistas engajados da Escola Francesa. O nome de Gustave de Molinari iria em seguida ser esquecido nos anais da história, antes de ser redescoberto durante a segunda metade do século XX pelos libertarians americanos, que viram nele um verdadeiro precursor.

Molinari não era francês de nascença, senão belga, filho do barão de Molinari, um antigo oficial superior da armada napoleônica que se estabeleceu em Liège enquanto médico. Entre seu nascimento, em 3 de março de 1819, e o momento em que partiu da Bélgica para se instalar em Paris, em 1840, pouca coisa se sabe sobre sua infância e sua educação.

Liège - Bélgica
Liège – Bélgica

Como muitos jovens atraídos por uma carreira das letras, Molinari se instalou em Paris – o centro cultural dos países de língua francesa da época. Como ele esperava se estabelecer como jornalista, particularmente no novo domínio da “propaganda econômica”, Molinari rapidamente aproximou-se da Société d’Économie Politique. Esta sociedade, criada em 1842 sobre o modelo da Society of Political Economy de Londres, contava entre seus membros alguns dos economistas mais ativos da época.

Similarmente a Michel Chevalier, Molinari interessou-se particularmente ao desenvolvimento da rede ferroviária e aos efeitos desta sobre a industrialização na Europa. Seu primeiro ensaio, publicado em 1843 no jornal La Nation e em seguida reproduzido no La Gazette de France se debruçava sobre esse assunto. Em 1846, Gustave de Molinari é apontado como secretário-adjunto da Association pour la liberté des échanges fundada em Paris sob a impulsão de Frédéric Bastiat – a segunda do gênero na França, após à de Bordeaux, esta também impulsionada pelo infatigável Bastiat. Na esteira da nova função, Molinari igualmente torna-se um dos redatores do jornal da associação, Le Libre-échange.

Busto de Bastiat em Mugron - Aquitânia
Busto de Frédéric Bastiat em Mugron – Aquitânia

A carreira de jornalista econômico do jovem belga, com a qual ele havia sonhado desde sempre, finalmente decola. Cada vez mais ativo na defesa das suas ideias livre-mercadistas na imprensa parisiense, Molinari publica nos periódicos Le Courrier francês [NT: o Le Courrier belga existe até hoje], La Revue NouvelleLa Patrie; e logo em seguida no célebre Journal des Économistes. É igualmente neste período que ele publica seus primeiros livros: “Études économiques: sur l’organisation de la liberté industrielle et l’abolition de l’esclavage” em 1846, e “Histoire du tarif : I. Les fers et les huiles II. Les céréales” em 1847. Em 1848, foi contratado para anotar o volume II do livro “Mélange déconomie politique“, ao lado de Eugène Daire [NT: sua função neste livro foi a de Editor Científico]. Resumindo, nesse momento Molinari dá partida em uma abundante produção literária, com um ritmo intenso que ele sustentará praticamente até o fim de sua vida.

Durante a revolução de 1848, ele encontrava-se entre os ativistas liberais que tentavam rebater tanto a propaganda dos socialistas assim como a que vinha dos “conservadores do status quo”. O “club de la Liberté du travail“, do qual ele foi um dos fundadores, tinha exatamente este objetivo. Mas a liberdade de associação não sendo de forma nenhuma garantida pelo governo provisório, o clube foi “invadido e dissolvido por um bando de comunistas, e os membros, que não queriam usar da força, foram dispersados pela multidão” [NT: não sei atribuir a fonte]. Outro grande fracasso foi o do jornal Jacques Bonhomme, publicado por Molinari e Charles Coquelin; jornal que tinha como público-alvo as massas populares.

Revolução de 1848
Revolução de 1848

Os “cinco amigos da liberdade” – como eram chamados Bastiat, Coquelin, Fonteyraud, Garnier e Molinari – se viram cercados por um clima intelectual no mínimo inóspito. A associação foi dissolvida em abril/maio de 1848, pois “a associação havia perdido a esperança de se fazer ouvir no meio do tumulto político”. Além disso, os acontecimentos da revolução causaram a dispersão dos seus principais membros, que encontravam enormes dificuldades simplesmente para se reunir.Apesar da eleição de Bastiat à Constituante [NT: assembleia de deputados para a redação da nova Constituição da Segunda República] e em seguida à Legislative [NT: assembleia de deputados criada pela referida Constituição], a revolução de 1848 foi um sério revés para a causa livre-mercadista. Após as críticas ao governo provisório feitas por Léon Faucher no jornal La Revue des deux mondes, de Jêrome Blanqui e Léon Wolowski no Le Conservatoire, assim como de Michel Chevalier no Les Débats, e à ocasião dos cursos que este ensinava no Collège de France, o governo extinguiu cinco cadeiras de Economia – entre as quais a de Chevalier – e reorganizou o Collège de France para calar toda fonte de críticas.

A manobra foi combatida por uma delegação enviada a Lamartine [NT: escritor e político moderado da Comissão de governo] pela Société d’Économie Politique e compreendia Léon Faucher, De Tracy, Horace Say, Dussard, Garnier, Renouard e Molinari. EM meio a este período turbulento, Molinari encontra tempo e tranquilidade suficientes para escrever sua mais famosa obra, publicada em outubro do mesmo ano no Journal des Économistes e intitulada “Sobre a produção de segurança”, artigo que suscitou um debate fortemente animado na reunião da Sociedade [NT: trecho originalmente incompleto, busquei construir algo que fizesse sentido].

Lamartine na Prefeitura recusando a bandeira socialista - 1848
Lamartine na Prefeitura recusando a bandeira socialista – 1848

Depois do golpe de estado de dezembro de 1851, Molinari sai da França e se instala na Bélgica com a ajuda de seu amigo Charles de Brouckère, o prefeito de Bruxelas. Com efeito, “o regime ditatorial ofendia as opiniões liberais do Sr de Molinari”, como escreverá Yves Guyot [NT: seu amigo e biógrafo]. Sua atividade não enfraqueceu. Ele publicou um pequeno volume sobre a revolução intitulado Les révolutions et le despotisme envisagés du point de vue des intérêts matériels, no qual ele extendeu seu desdém à revolução de 1848 àquela de 1789, insistindo sobre o crescimento terrível do poder estatal que a elas se seguiu. Molinari foi nomeado professor de economia político no Museu Real da Indústria em Bruxelas e no Instituto Superior de Comércio de Antuérpia. Foi nessa época que ele se consacrou à redação de seu tratado de economia teórica, o “Cours d’Économie Politique“. O objetivo de Gustave de Molinari era de preencher uma lacuna que ele via na ciência econômica de seu tempo: a ausência de uma demonstração suficientemente clarae precisa da maneira pela qual o mercado estabelece uma ordem pela operação de leis naturais conhecidas, e correlativamente de maneira que toda interferência nesta ordem cria a anarquia [NT: anarquia aqui no sentido vulgar de “conflito social”] que tanto preocupa os socialistas.

Ele continuou regularmente a enviar artigos ao Journal des Économistes em Paris, fiel à sua estratégia de difusão das ideias liberais através do jornalismo. Pela mesma razão, ele fundou o jornal L’Économiste belge em 1855. Seu radicalismo, e o desta publicação, eram absolutos. Molinari recusou até mesmo uma nomeação à filial belga da Société d’Économie Politique, com medo de que seu nome fizesse fugir os elementos mais moderados. Seu interesse plas associações nos meios operários o levaram igualmente a fundar em 1857, com seu irlão Eugène, o jornal Les Bourses du travail, projeto que fracassou ao fim de alguns meses. Ele publicou novas obras nessa época: uma sobre o livre mercado e o protecionismo intitulada “Le commerce des grains: dialogues entre un émeutier, un économiste et un prohibitionniste“, e outra sobre o Abade de Saint-Pierre e seu projeto de paz perpétua [NT: Charles-Irénée Castel de Saint-Pierre, escritor que influenciou Kant e Rousseau]. Nesse momento formou também um interesse particular pelas questões educativas, denunciando o ensino público como uma aplicação do princípio comunista. Essas reflexões conduziram à uma obra sobre a questão com Frédéric Passy, compilando os debates que os dois homens haviam tido sobre o assunto nas colunas do Journal des Économistes e do L’Économiste belge.

Jornal dos Economistas - Ed. Gilbert Guillaumin
Jornal dos Economistas

Em 1860, Molinari voltou a Paris, por razões que continuam obscuras. Colaborou no Journal des Débats, do qual seria editor de 1871 a 1876. Ele estava presente durante o cerco de Paris em 1870. Suas reflexões sobre o assunto e sobre a Comuna darão nascimento a duas novas obras: “Les Clubs rouges pendant le siège de Paris” e “Le Mouvement socialiste et les réunions publiques avant la révolution du 4 septembre 1870“. Nesses livros ele defende a liberdade de expressão e recusa a acusação formulada contra os Clubes socialistas de haver fomentado a Comuna, insistindo sobre seu papel positivo quanto ao moral da população durante o cerco. Ao contrário, foi a supressão da liberdade de expressão e dos Clubes pela força que levaram à revolução vermelha [NT: Molinari parece não comentar sobre as execuções e os abusos cometidos pelos revolucionários]. Molinari insiste sobre a ideia da liberdade de expressão como necessária para o progresso das ciências. Certamente, deixar as ideias socialistas serem difundidas e agitar os espíritos é um mal, uma ameaça que pesa sobre a liberdade, porém é um “mal necessário” do qual não podemos nos privar, salvo por um mal muito maior. O monopólio é fatal à ciência como o é à indústria. A agitação socialista, por nefasta que seja seu elogio a ideias liberticidas, havia contribuído a tirar os liberais de seu torpor entre1848 e 1851. Molinari considerava que a agitação deveria existir sem nenhum entrave para que se pudesse esperar um dia ver os franceses aprender a economia política.

Nessas obras supracitadas ele critica Napoleão III pela sua política em relação às associações operárias, política de repressão injusta que privou os trabalhadores de ferramentas que os permitiriam a melhoria de sua condição, e os levou a criticar o capitalismo ao invés de se focar nos pivilégios protecionistas [NT: capitalismo aqui usado no sentido não-marxista de “livre mercado”]. Molinari com efeito culpava as regulamentações que haviam imobilizado as relações de trabalho em uma situação desigual para os trabalhadores e encorajado a “fomentar uma guerra civil entre o capital e o trabalho em cada oficina”.

Napoleão III
Napoleão III

Entre 1878 e 1883, ele publicou no Journal des Économistes, sob forma de artigos em série, duas obras: “L’Évolution économique du XIXe siècle : théorie du progrès” e “L’Évolution politique et la révolution“. Como Marx, Molinari desenvolve uma teoria sistemática para explicar a emergência tanto da sociedade industrial de um lado quando do Estado moderno do outro, a partir de sociedades primitivas passando pelas sociedades feudais. Seu fio de Ariadne é a ideia de uma melhoria gradual da capacidade das pessoas de autogovernarem-se, quer dizer a ocuparem-se pacificamente e livremente de seus próprios assuntos sem a tutela paternalista do estado, atividade que desapareceria no longo prazo. Ele retorna a partir desse momentoà ideia de produção privada de segurança: a evolução natural das sociedades humanas tenderia a fazer desaparecer progressivamente esse arcaismo que é o monopólio de governo.

Com a morte de Joseph Garnier em 1881, Molinari torna-se editor-chefe do Journal des Économistes,o principal órgão do livre mercado nos países francófonos. Ele ocupa esse posto até 1909, e reúne ao seu redor um grupo de colaboradores que ele motiva com seu zelo e entusiasmo habituais. Apesar de sua idade avançada, sua atividade era ainda muito intensa, entre um grande número de artigos e de novas obras. Ele se ocuparia particularmente com três assuntos nessa época. Primeiro, ele retomou suas reflexões sobre as Bolsas do Trabalho, assunto que o apaixonava desde os anos 1850 [NT: segundo a wikipédia francesa, as atuais Bourses du Travail nas cidades do país, redutos do sindicalismo socialista, devem sua origem a esse economista entrincheiradamente liberal]. Ele se concentra igualmente sobre as relações entre economia e ética, em particular na sua obra “La Morale économique“. Enfim, em 1887, seu esquema de “Liga dos neutros” foi publicado pelo London Times, um plano de reaproximação de pequenas nações europeias a fim de desencorajar as grandes potências belicosas de se enfrentarem em empreendimentos conquistadores, plano utópico sob admissão do próprio autor.

Placa comemorativa - Bolsa do Trabalho de Paris
Placa comemorativa – Bolsa do Trabalho de Paris

A partir de 1893, Molinari foi invadido por um certo pessimismo derivado da seguinte constatação: ele havia certa e largamente superestimado a capacidade dos consumidores , industriais e trabalhadores, que não buscavam privilégios econômicos, a identificar a intervenção governamental como sendo inimiga do progresso [NT: o texto original usa “subestimado”, incongruente com o contexto]. O livre mercado não poderia estar mais impopular e a tendência à estatização sempre mais acentuada. É nesse contexto que Molinari iria retroceder sobre uma concepção clássica de estado-mínimo, como um mal menor. Todavia, ele reencontrará as cores de seu radicalismo da juventude em sua última obra, “Ultima Verba“, escrito em 1911.

Molinari aposentou-se em 1909 à idade de 90 anos, após haver exercido 28 anos as funções de editor do Journal des Économistes. Yves Guyot, seu sucessor, o apreciava pela “elegância de seu estilo, a força e a delicadeza de sua expressão, a justeza dos termos” e via nele “um dos mestres da língua francesa”. Um amigo próximo da família, A. Raffalovich, revelou à Guyot após a morte de Molinari a intensa mas discreta atividade de caridade à qual este último havia-se dedicado durante sua vida. Gustave de Molinari deixaria de existir à Adinkerque em 28 de janeiro de 1912 [NT: pequena cidade costeira na fronteira belga com a França, próxima a Dunquerque; sua tumba fica no cemitério parisiense do Père Lachaise, próxima às dos liberais Jean-Baptiste Say e Benjamin Constant].

Tumba de Molinari
Tumba de Molinari

Bibliografia do texto original

- Guyot, Yves, « Gustave de Molinari », Journal des Économistes, fevereiro de 1912.
- Hart, David, « Gustave de Molinari and the anti-state liberal tradition, part I », Journal of Libertarian Studies, Vol. V n°3 verão de 1981
- Molinari Gustave (de), « De la production de sécurité », Journal des Économistes, fevereiro de 1849.
- Les révolutions et le despotisme, envisagés du point de vue des intérêts matériels, Méline, Cans & cie, Bruxelas 1852.
- « Notice sur la vie et les écrits de Charles Coquelin », Journal des Économistes, vol. 33, 1852.
- Cours d’économie politique. 2 vol., Lacroix, Verboeckhoven & Cie, Bruxelles, 1855.
- « La situation économique en Belgique », Journal des Économistes, ser. 8, 1856.
- L’abbé de Saint-Pierre, sa vie et ses oeuvres, Guillaumin & Cie, Paris 1857.
- Napoléon III, publiciste, analyse et appréciation de ses oeuvres, Lacroix, Van Meenen & Cie, Bruxelas, 1861.
- Les Clubs rouges pendant le siège de Paris, Garnier frères, Paris, 1971.
- Le mouvement socialiste et les réunions publiques avant la révolution du 4 septembre 1870, seguido de La pacification des rapports du capital et du travail, Garnier frères, Paris, 1872.
- L’évolution économique au XIXe siècle : théorie du progrès, Reinwald, Paris, 1880.
- L’évolution politique et la révolution, Reinwald, Paris, 1884.
- Conversations sur le commerce des grains et la protection de l’agriculture, Guillaumin & Cie, Paris, 1886.
- La morale économique, Guillaumin & Cie, Paris 1888.
- Ultima Verba : mon dernier ouvrage, Giard et Briève, Paris, 1911.
- Molinari Gustave (de), Passy Frédéric, De l’enseignement obligatoire, Guillaumin & Cie, Paris, 1859.

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