Vendas disparam na 2a Jornada da Juventude Rolezinho

Segunda Jornada da Juventude Rolezinho
Segunda Jornada da Juventude Rolezinho

Tradicionalmente um período de baixas vendas, comerciantes comemoram aumento de faturamento após decisão de investir na oportunidade dos “Rolezinhos”.

Flavio Oliveira para a Folha de Taboão

Os membros da Associação de Lojistas do Shopping Itaquera têm bons motivos para acreditar que 2014 será um ano de aumento nas suas vendas. Somente na primeira edição do evento, realizado dentro do prédio e em parte do seu estacionamento, as vendas aumentaram em 20% em comparação com o mesmo período em 2013. Segundo o depoimento de José Prado, síndico dos lojistas, o sucesso da iniciativa foi garantido “sem investimentos significativos. Fora o equipamento de som, a montagem de palcos e a contratação da produção, os custos do evento foram mínimos e valeram muito a pena. A premiação saiu direto dos estoques com dificuldade de escoamento”.

Não são somente os comerciantes que comemoram. Nivaldo Peres, motoboy de pizzaria, se vangloria: “Beijei muito na boca, zoei com os manos e ainda ganhei sanduíche do McDonald’s”. Os líderes dos participantes da Jornada (MCs como gostam de ser chamados para não posarem de autoridade perante os outros jovens) se dizem satisfeitos com os resultados: “Conseguimos chamar a atenção da sociedade para o problema da falta de opções de lazer nas comunidades da periferia, mas de forma positiva, onde todos saíram felizes pelo menos de estar sendo ouvidos, diz o MC Cazuá, servente de pedreiro em uma grande empresa da capital.

Ele foi um dos que participou da Grande Final de MCs, em que jovens funkeiros apresentaram suas composições e o grande ganhador foi a revelação MC Gatinha, a moradora de Vila Medeiros, que mistura letras sensuais a uma crítica ao sistema político que na sua visão impede os favelados de se organizarem sem a intereferência pesada da polícia e dos traficantes. “Quem pode ser feliz / na minha comunidade / se as ordens vêm da polícia / ou da criminalidade” diz uma de suas músicas que conquistaram o público da grande final. “Ela entende o que a gente passa todo dia, meu pai morreu de tiro de polícia e meu primo morreu traficando”, opina Cleude Silva, 14 anos, que pretende voltar nas próximas edições do evento.

Para o sociólogo Pedro Bloch, essa transformação deve ser considerada uma conquista social: “Marx foi acurado em perceber os diferentes a injusta desigualdade entre a classe detentora dos meios de produção e a classe trabalhadora que vende seu trabalho, mas não podemos ficar presos em sua previsão de que o sistema vai ruir sozinho, ou de que cada classe social constrói uma lógica inevitável e totalmente distinta das outras. Os rolezinhos se transformaram em uma ponte real entre o imaginado e o possível.”

Estes bons resultados contrastam com o clima pesado de conflito no início dos rolezinhos, quando ninguém previa que os rolezinhos se tornariam fonte de aumento de renda, alternativa segura de lazer e motivo de uma discussão social racional entre grupos tradicionalmente opostos. Luis Perenguetti, o coordenador das mesas de debate Sessões Periféricas, conta como teve a ideia de se aproximar dos organizadores da Primeira Jornada, e propor o que se tornou o germe para a fundação do IDESPE (Instituto de Estudos Sociais da Periferia): “Eu telefonei para o Sr. Prado e disse que era preciso aproveitar a chance de cristalizar a vontade de confrontar ideias, o que desmonta barreiras tradicionalmente levantadas enter as diferentes classes sociais em São Paulo. A ideia era colocar sempre um representante da periferia, um da esquerda, um da direita, e um liberal para debater sobre uma determinada questão que afeta a vida nas periferias da capital”.

Os debates foram concorridos mesmo entre os rolezeiros. “Os jovens fizeram perguntas contundentes, suas experiências muitas vezes desconhecidas dos intelectuais expuseram a necessidade de continuar esse debate e envolver mais os moradores das comunidades nessa busca de reconhecimento. Alguns intelectuais ficaram realmente desconfortáveis”, explica Perenguetti, que logo após a Jornada fundou o IDESPE, colocou os vídeos dos debates à disposição no seu site e já pensa na próxima edição do evento. “Talvez o debate mais polêmico tenha sido o da descriminalização das drogas, a maior parte dos jovens não sabia que Portugal e um país vizinho (N.E. o Uruguai) já tinham feito isso, e que os EUA estão no processo de legalizar a maconha”.

O capitão da PM, Rodrigo Veluzzo, afirma que houve poucas ocorrências dignas de nota: 1 assalto na região sem relação com o evento, 3 celulares furtados e um início de briga entre dois jovens embriagados. “Se todo rolezinho for assim, teremos poucas preocupações”, brincou Veluzzo.  Mas verdadeiro alívio veio para o sargento Marcio dos Reis, boçbeiro responsável pela região: “Minha maior preocupação era a segurança dos próprios rolezeiros. Juntar 6.000 crianças e adolescentes em um protesto social dentro de um espaço confinado como o Shopping Itaquera é um grande risco em termos de rapidez de evacuação e segurança de multidões. O shopping está adaptado somente para uma determinada quantidade de pessoas calmamente fazendo compras. Imagina se acontece um incêndio bem na hora do rolezinho? Seria uma tragédia.”

Uma imagem tocante da Jornada foi reparar em três senhoras que sentavam em cadeiras que trouxeram de casa e se abanavam para tentar diminuir os efeitos do forte calor no dia da Jornada. Elas tinham trazido suas filhas que queriam participar do evento, mas a condição foi que elas viessem para as vigiar. “Eu estava preocupada né? O que minha filha e sobrinhos de 13, 15 anos vão fazer nesses rolezinhos? Mas achei muito bom, esse pessoal está de parabéns” conta bem-humorada Solange Maria Aparecida. “Eu comprei também esses abanadores na lojinha de 1,99, acho que eles estão ganhando em cima do evento”.

Outra mãe coruja que lá estava para ficar de olho no filho era a vendedora Regina Célia Nascimento, ela mesma uma funcionária de loja do Shopping Itaquera: “Eu trabalho aqui e fico feliz de ver que meu filho vem participar na paz, não ia gostar de ver ele metido em confusão com a polícia”. Perguntada se ela era contra os protestos antes da primeira Jornada, ela explica: “Não sou contra o direito de ninguém protestar, mas eu tenho responsabilidade de cuidar do meu filho, então ele precisa primeiro ficar consciente sobre o que ele está protestando. Se quer opção de lazer pode falar comigo que a gente dá um jeito”.

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