Acima do rio Bièvre

Este artigo foi escrito para o site Libertroll

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Bom dia leitores do Libertroll,

Ou boa noite, depende que horas vocês estiverem lendo isso, e ainda tem a diferença de fuso horário entre Paris e sei lá qual pedaço de terra batida serve de base para vossos pés. Pois é, eu moro em Paris, França, no “Continente”, e essa coluna será sobre as diferenças e semelhanças entre França e Brasil.

Placa de metal identificando o curso do Rio Bièvre, passando pelo 13éme.

Não apenas sobre isso. Como o Hermes, criador e editor do Libertroll definiu, uma coluna sobre como é “viver em um país socialista”, rs. Falarei mais sobre isso no decorrer da minha colaboração com esse trollog, porque os termos socialismo e capitalismo são como sua banda musical preferida: você adora falar sobre mas ninguém tem paciência para ouvir. Ou como time de futebol, não adianta falar bem, que o torcedor do time adversário vai ficar vaiando para ninguém te escutar.

Vou falar um pouco sobre mim, afinal, esse é o primeiro post da coluna. Sou muito preguiçoso. O Hermes teve que insistir muito para eu aceitar escrever. Mentira, ele apenas mandou um convite pelo chat do facebook, e eu, sem nada para fazer, resolvi voltar a escrever as besteiras pelas quais eu nunca fiquei muito conhecido, mas que faziam meu círculo de amigos pouco exigentes rir um pouco. Não, não me acho engraçado, quem está me acusando disso?!

Me formei em design de produtos na PUC-Rio em 1999, e não sei se você já teve contato com alguém de lá dessa época, 50% de chances de estar falando com um hipper, quero dizer, hippie hipster aluno do Prof. Ripper. Não me entendam mal, o Prof. Ripper é um arquiteto com ideias geniais sobre uso de materiais e sistemas de baixo impacto ambiental e alto envolvimento social, mas tudo isso com um grande distanciamento dos problemas diários que enfrentarão os futuros formados em suas classes.

Alguns alunos acabam utilizando bem seus ensinamentos, como o talentoso Fred Gelli (cujo principal cliente creio ser a Coca-Cola), e o pessoal das estruturas tencionadas de bambu para aluguel da Bambutec. Outros utilizam muito mal, como o vosso interlocutor momentâneo, que resolveu trabalhar com decoração artesanal de bambu no Rio de Janeiro, atendendo proprietários, comerciantes, arquitetos e engenheiros, e depois de 10 anos de muita labuta, desistiu e criou ranço.

Não me falem em bambu hoje em dia. Fui à China, índia, Equador e Colômbia, sem contar lugares inóspitos (por acaso você já foi à praia de Ponta Verde em Maceió?) pelo Brasil afora, para aprender e ensinar sobre como o bambu era a solução perfeita para todos os problemas da humanidade. Eu caí como um patinho na maior fraude pseudocientífica do nosso século: o apocalipse ambiental.

O bichinho da duvida começou a erodir as bases do castelo de cartas quando um amigo colombiano engenheiro florestal fez uma corajosa palestra chamada “os mitos sobre o bambu”, bem no meio do 7o Congresso Mundial de Bambu em Nova Déli (sim, isso existe). A partir daí comecei a ler, ainda em 2004, sobre como as florestas não eram “o pulmão do mundo” (o oceano tem mais direitos sobre essa reinvidicação), e sobre outros mitos mais, o que me abriu muito a cabeça, mas abriu também um buraco no meu chão.

Então quer dizer que a solução para o mundo não é plantar bambu, ser mais verde, estimular meios de subsistência dignos da idade da pedra? Então qual é a solução, se é que existe uma? Passei então a dar atenção àquilo que eu achava o assunto mais sonolento possível: economia política. Não sabia absolutamente nada, porém meu primo estava já bem envolvido, e passei a ler seu blog. Conheci a pletora de blogs e sites liberais, e desde então leio bastante sobre o assunto.

A social-democracia ecológica foi totalmente lavada de mim, escorreu da minha pele facilmente por ser um mito de bases filosóficas muito fracas, incoerentes. Foi como uma poeira que saiu com um pouco d’água. Sabe aquela piada de que a diferença entre um minarquista e um anarcocapitalista é de seis meses? Pois é, apesar de estar farto de rótulos e hoje me identificar de forma flexível dentro da escola do anarquismo individualista. Não pare de ler somente porque eu escrevi anarcocapitalismo!!!

Minhas perspectivas profissionais e financeiras não eram muito promissoras no Rio de Janeiro ( e continuam não sendo em qualquer lugar anyway), então decidimos, eu e a senhora, nos mudarmos para Paris (essa deliciosa cacofonia), aproveitando meus 25% de DNA francês. Meu avô materno era filho de dois bordelais, e o passaporte francês sempre correu no nosso sangue. A chegada em Paris, uma cidade que nunca havíamos visitado, foi traumática, nem o aquecedor sabíamos acender no apartamento de 18 m², mas em breve estávamos aproveitando a moradia em um dos países mais ricos, material e culturalmente, do mundo. Piqueniques, museus, TGVs, vinhos, queijos, é uma delícia morar num país civilizado, para variar.

Acabei enveredando pelo setor de turismo, como técnico responsável pelo maquinário de transporte geográfico humano, o famoso chauffeur, motorista de turistas brasileiros, ou para aproveitar a chance de um neologismo, moturista. A parte legal é que me esforcei em aprender a história e a cidade, e isso faz diferença em uma cidade embebida em história, cheia de esprit, de je-ne-sais-quoi (essa última foi de sacanagem). Você sabia que Paris tem mais de dois mil anos de história? Pois é. Conseguimos nos instalar no 13º arrondissement, perto de onde passava o rio Bièvre, outrora livre desde perto de Versalhes até o Sena, hoje obrigado a se esconder em tubos de concreto perto de Antony, antes de se jogar no sistema de esgoto de Paris. Você anda nas ruas do quartier Maison-Blanche e vê os selos de metal no chão indicando onde antes passava esse rio da Île-de-France.

Então messieurs-dames, me voici, colunista emergente deste novo site, para borbulhar desconhecimentos sobre a vida de um anarquista preguiçoso em um país corporativista com fama de socialista.

Até a próxima, onde devo destrinchar o horroroso artigo da newsweek sobre “A queda da França”.

Acima do rio Bièvre

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