Pensamentos sobre a Escola Austríaca de Economia

1) Praxiologia e individualismo metodológico

Esses termos são meio técnicos demais, mas querem dizer que:

– Todo indivíduo age de acordo com suas necessidades e objetivos. Toda interferência é injustificada, inclusive as interferências de uns nas necessidades e objetivos dos outros. Daí partem os direitos à vida, à propriedade e aos contratos.
– Somente o indivíduo tem necessidade e objetivos. Nenhum ente social possui necessidades ou objetivos. Da wikipédia “atribuir características individuais (vontade, ação autônoma) aos entes sociais seria um abuso de linguagem”. A sociedade é formada por indivíduos.

Quando alguém busca comida quer satisfazer sua necessidade. Quando alguém fecha um contrato de trabalho quer em troca satisfazer suas necessidades. Quando alguém rouba a comida de alguém ou não cumpre o contrato, está interferindo na capacidade da pessoa lesada de satisfazer suas necessidades. Quando alguém ajuda um pobre, está também agindo em interesse próprio, seja para ficar bem aos olhos de outros ou se sentir bem fazendo o que se considera uma boa ação. E assim por diante. No fim, todas as ações têm como objetivo a satisfação de alguma necessidade, de alguma vontade, mesmo que seja de vingança, ódio, etc.

2) Escassez

A escassez é o primeiro fato a ser pensado. As pessoas precisam comer, se vestir, morar, etc… Mas as coisas que o homem precisa para se sustentar, se multiplicar, e ainda se iluminar (estudo, lazer, cultura) são escassas, não estão disponíveis para consumo imediato na natureza. O homem precisa transformar matéria bruta em produto final. Para toda comida produzida , para toda casa construída existe um dispêndio de trabalho, ferramentas e material. Não existe almoço grátis, sempre algo foi gasto para se fazer o almoço.

A escassez inviabiliza pensar nos direitos materiais positivos como “direito à alimentação”, “direito à habitação”. Se alguém tem direito à uma casa, outros tantos alguéns têm obrigação de construir uma casa, faz sentido? Um direito que agrega várias obrigações não é um direito, é uma idealização da sociedade, pra não dizer da natureza.

3) Teoria do preço

É estranho ninguém antes ter feito uma teoria detalhada sobre a formação do preço, posso também estar enganado, mas acho que foi o Mises quem afirmou que o preço é o canal de comunicação entre o consumidor e o produtor. Através do preço o produtor pode se comunicar com o consumidor, o consumidor vai responder comprando mais ou menos, regateando ou não. Se comprarem muito, demanda alta, opa, o preço tá bom ou tá baixo. Se o preço já começa alto, o consumidor sabe que existe pouca oferta e muita demanda. E assim por diante. A mesma coisa com os juros, o preço do dinheiro, e o câmbio, o preço de outra moeda.

Com essa teoria em mãos, fica impossível pensar em qualquer planificação estatal da economia. Qualquer tentativa de fixar um preço vai apenas impedir que o produtor possa se comunicar com o consumidor e vice-versa. Fixando preços você está eliminando uma informação crucial para a tomada de decisões, na hora de produzir mais ou menos.

Se você fixa o preço de um carro por exemplo, toda a cadeia ligada à produção do carro, da extração de minerais, à petroquímica, ao fabricante de parafusos, todos os salários, as firmas de marketing terceirizado, o serviço de faxina, tudo, absolutamente tudo vai estar preso nessa fixação. Não é só isso, claro: existe o salário-mínimo, a contribuição compulsória aos sindicatos, os impostos sobre a produção, os impostos sobre o consumo, os impostos sobre investimento, a inflação… No final o preço não é mais um preço, é um frankenstein. E a empresa ainda pede pro governo barrar a importação de carros estrangeiros melhores e mais baratos, em nome da indústria nacional.

4) Livre-mercado

Se o preço é o único jeito de saber o quanto vale alguma coisa, uma das únicas ferramentas na tomada de decisões empresariais, qualquer interferência estatal na economia serve apenas para causar distúrbios nos mecanismos dos preços. Como eu disse, os preços não são mais tão confiáveis para se medir os riscos de uma decisão. A economia fica pior e mais lenta do que estaria sem a interferência do governo. Uma coisa que a escola austríaca aprendeu é que a economia cresce apesar de toda a interferência governamental, é incrível, com a exceção clara dos governos totalitários como o de Mao na China.

Esse exeplo é ótimo. Mao conseguiu o feito de matar milhões de fome e atrasar enormemente a economia. E não estou falando da grande marcha. Mao um dia num arroubo de loucura, querendo mostrar para o capitalismo que o comunismo era superior, decidiu que a China deveria produzir mais aço que qualquer outra nação. Aço, não ferro. Para conseguir isso, através de sua divina potência comunista, ordenou que todas as pessoas do país, ao invés de continuar suas vidas que já eram difíceis, fundissem todos seus pertences metálicos e enviassem para o entreposto governamental mais próximo.

Você pode imaginar coisa mais ensandecida? De um dia pro outro milhões de camponeses tiveram que parar de arar seus campos, começar a cortar montes de árvores, construir pequenos fornos com material de construção que conseguissem arrumar, e jogar suas panelas, pregos, ferramentas e sei lá mais o quê, na tentativa de produzir aço. Quando acabava a madeira usavam móveis para queimar. Pela causa comunista.

Veja só o resultado, Mao não conseguiu aumentar a produção de aço chinesa, claro. O ferro produzido era de baixíssima qualidade, não servia pra porra nenhuma. Ele não ganhou a competição idiota da cabeça dele. A “decisão” que ele tomou não levou em conta o preço das coisas. Não foi uma decisão baseada em economia. Como no comunismo não há propriedade privada, nada tem preço, a não ser no mercado negro. O preço que os “economistas” do governo colocam nas coisas são apenas ilustrativos, não servem para comunicar oferta nem demanda.

Sem tomar em conta os princípios fundamentais da economia, Mao causou uma catástrofe. Chegando o inverno os camponeses não tinham juntado comida suficiente, até tinham gastado mais no esforço. Tinham queimado os estoques de madeira e não podiam mais se aquecer. Não tinham mais móveis nem panelas. Dezenas de milhões morreram de fome. E o Chico Buarque ganha prêmio de melhor livro aos sons de “Dilma” “Dilma”.

Como Mises escreveu, toda tentativa do governo de melhorar a economia só pode piorar a economia. Os empresários, na sua constante luta pelo lucro, são obrigados a satisfazer os desejos dos consumidores por produtos melhores e mais baratos. Se ele não consegue fazer isso, outra pessoa vai aproveitar a oportunidade, e os consumidores vão mudar de fornecedor.

As coisas levam tempo, mas é só observar o salto qualitativo e quantitativo da qualidade de vida de antes da industrialização até os dias de hoje. A complexidade encontrada na produção de um simples lápis só é possível num ambiente produtivo altamente diversificado. A complexidade só é atingida depois de muito tempo de auto-organização, das pessoas buscando atingir seus objetivos individuais.

Uma empresa estatal, sem a busca pelo lucro, nunca vai ter o estímulo à eficiência de uma empresa privada.

Importação é sempre igual à exportação. Se você compra mais do que vende, a diferença é em mais bens em menos dinheiro. Se você vende mais que compra a diferença é mais dinheiro que bens. Dá no mesmo, já que dinheiro compra bens! Reservas de mercado apenas permitem a existência de produtos piores e mais caros. Abrindo a economia, como no caso dos computadores, em pouco tempo os produtos estão muito melhores e mais baratos. Os empregos eventualmente perdidos na quebra dos jurássicos fabricantes nacionais podem ser alocados em algum setor mais eficiente e produtivo, melhorando ainda mais a economia e a qualidade de vida geral.

Uma coisa engraçada entra no meio: hoje em dia as pessoas estão meio inflexíveis na hora de trocar de área profissional. Talvez uma parte seja a especialização exigida em alguns setores, masacho que tem muito de uma doutrinação socialista. Algo como “eu sou uma pessoa com vários direitos, quero ter uma profissão digna, a profissão que eu escolhi, que fiz faculdade, tenho direito a um emprego na área que eu me preparei.” Em épocas menos felizes, por exemplo nossos pais, ou avôs, ou bisavôs, nego fazia o que pintava! Escolher uma área, em tempos de crise, é um luxo. Na guerra as donas de casa viraram operárias, a Rainha Elizabeth virou mecânica! Manter pessoas empregadas através de  salários-mínimos, direito a greve, indenizações, só causa mais desemprego.

Quanto mais regulações, menos eficiência, mais encarecimento, mais fiscais assalariados e passíveis de serem corrompidos, mais barreiras de entrada para novos competidores. Uma só regulação é necessária: o direito aos contratos. Se alguém te vende alguma coisa e não cumpre o contrato, justiça. O resto é ilusão de controle. O dono de restaurante que vende comida estragada por exemplo. Se morrer alguém ele vai em cana. Se alguém passa mal, ele é multado ou vai em cana. Nos dois casos a reputação dele fica seriamente abalada e muitos clientes param de frequentar. Ele não é honesto porque existe uma vigilância sanitária, ele é honesto e limpo, ou minimamente limpo, porque é do interesse dele não envenenar ninguém!

5) Governo e impostos

Existem os libertarianos que se consideram anarcocapitalistas e outros minarquistas. Os primeiros defendem que o estado é desnecessário e indesejado e os segundos que o estado é útil na medida que se atém ao seu papel básico.

No caso minarquista, o estado seria necessário para manter aqueles direitos à vida, à propriedade e aos contratos. Justiça para os conflitos pacíficos e polícia para os conflitos violentos. A polícia é um monopólio da coerção física, e a justiça é um monopólio da coerção legal. Somente o estado tem o direito à violência nesse caso. E ainda ficam preocupados com os empresários. Por exemplo: censura só é Censura quando um governo censura e usa seus aparatos de coerção monopolística para efetivar a censura. Um jornal demitir um jornalista que publicou algo fora de seus objetivos é uma decisão empresarial. Se a sociedade não gostar pode parar de comprar o jornal. Se a sociedade não gostar da censura governamental vai poder fazer o que?

O estado pode ainda servir para fazer alguns investimentos de interesse público. Mas no fundo somente a polícia e a justiça são os papéis fundamentais de um estado. Educação, ruas, eletricidade, são coisas que têm preço e podem ser oferecidas de forma mais eficiente por empresas privadas.

Os anarcocapitalistas defendem que polícia e justiça podem ser oferecidos por entidades privadas. Acho possivel, mas ainda preciso pensar mais a respeito. Se o governo é composto por pessoas com objetivos e as empresas também, justiça e polícia privados não funcionariam porque buscariam ser sustentáveis e eficientes?

Hoje em dia sou minarquista pragmático, defendendo um estado de mais ou menos 20% da economia. O estado brasileiro está em torno dos 40%, e os europeus perto dos 50%. Não existe estado mínimo atualmente entre os grandes.

Os impostos deveriam ser somente para esse papel básico do governo, mas atualmente os impostos vão para coisas inúteis e incontroláveis como o personal trainer amante da mulher do governador pago com dinheiro desviado das contas públicas, salário do secretário da comissão nacional das cotas raciais, ou a bolsa do doutorando em sociologia que pesquisa o “direito” (como vimos uma obrigação) à cultura.

Quanto maior o governo, maior a quantidade de coisas inúteis e incontrolaveis. Se todo mundo é dono, ninguém é dono. Se tudo é prioritário, nada é prioritário. Se todos têm direito a tudo, ninguém tem direito a nada. Do you follow me?

Existem diferenças no impacto dos impostos sobre cada atividade. Ainda não pesquisei nem pensei muito, mas acho que o imposto deveria ser somente no consumo. Se você taxa a renda, você está punindo mais quem gera mais riqueza. Como explicado mais adiante, quanto mais riqueza gerada, maior a economia, menores os preços, maior a qualidade de vida geral de todas as pessoas dentro dessa economia. Ora, quem gera mais riqueza deveria ser recompensado para criar mais riqueza! Taxar na produção, no investimento ou em transação financeira é pior ainda, é cobrar antes mesmo que o lucro tenha sido efetuado, loucura loucura.

6) Valor subjetivo

Um bem ou serviço tem um valor de acordo com sua raridade e utilidade, voltando às questões da necessidade individual e da escassez. Ele não tem um valor inerente. Se as pessoas pararem de dar valor àquilo, ou se o bem for muito disponível, como o ar, o bem não tem valor. Mas se uma pessoa estiver se asfixiando o valor do ar sobe astronomicamente! A mesma coisa vale para o valor do trabalho.

Marx faz uma cagada fenomenal em todos os aspectos, mas um dos piores é o do valor objetivo do trabalho. Se você diz que um trabalho tem um valor fixo você está ignorando a existência da escassez e da formação de preços. Essa ideia ilógica é a base para a ideia que matou milhões de pessoas e continua matando e piorando a vida de bilhões de pessoas: a da exploração.

O cara sai da sua zona de conforto pra montar uma empresa que vai oferecer bens mais baratos e melhores que os existentes, ele oferece contratos para um bando de gente sem a mesma coragem ou sem a mesma capacidade de poupança, que podem recusar esse contrato, E O CARA TÁ EXPLORANDO? Se alguém não está pagando o tal valor objetivo do trabalho pior ainda, ele está sendo an evil capitalistic pig. Essa mentira marxista é a raiz de 90% do mal que o comunismo já causou.

7) Moeda e banco central

Uma economia nacional é a junção de todos os seus bens. A moeda apenas expressa esses bens. Não importa se você tem 50 trilhões de moedas ou apenas 20 milhões. A conta sempre vai fechar com quantidade de moedas dividida pela quantidade de bens disponíveis (do valor subjetivo desses bens). Se uma economia cresce é porque mais bens foram criados. Os preços se ajustam através daquele mecanismo de oferta e demanda e uma nova conta se fecha: os bens ficaram mais baratos, porque temos a mesma quantidade de moeda e mais bens que antes. Compreender isso é o primeiro passo para entender economia, mas por algum motivo isso é algo desconhecido do público em geral. Assim os governos podem continuar fazendo o que querem.

A inflação é causada ou pela queda brusca no fornecimento de bens, pelo estouro de uma bolha ou pelo aumento da quantidade de moeda, o que o Brasil já fez indiscriminadamente. Não é preciso falar sobre a impressão abusiva de moeda, coisa mais que inútil, criminosa.

Como o governo abusa do seu poder monopolístico do controle da moeda, e é impossível acabar 100% com a falsificação, um sistema como o do lastro ouro seria talvez mais sensato, ele só é produzido em quantidades mínimas e dificilmente se consegue enganar alguém com ouro falso. Uma alternativa ainda é a não monopolização da moeda, o indivíduo podendo escolher se vai usar real, dólar, yen ou ngultrum (do Butão, vi na wikipédia😉.

8) Bolhas (Boom and Bust)

Os austriacos são os únicos a dar ferramentas para analisar os ciclos de crescimento e recessão, fora dos clichés socialistas do “capitalismo expurgando sua própria maldade”, “canibalização do mercado”, “ganância e maldade inerente”, “o capitalismo traz o pior das pessoas”.

A crise atual é um exemplo claro. De um lado uma bolha do mercado imobiliário estourou, e uma grande quantidade de gente viu o valor de suas casas pagas ou hipotecadas, de moradia ou investidas, cair bruscamente. De outro lado grandes financiadoras semi-públicas e muitos investidores e bancos com grande número de clientes subprime quebraram. Esses foram os sintomas. Quais foram as causas?

Acho que no meio do seu segundo mandato, o Clinton estabeleceu um programa keynesiano, no estilo Mao, só um pouco menos louco e danoso: o estímulo ao mercado imobiliário. Forçou a abertura de financiamentos a juros artificialmente baixos, um monte de gente começou a comprar casas adoidado, para revender, passar férias ou investir. Ou seja, um monte de gente fazendo péssimos investimentos, durante uma década. Mas como saberiam eles? O presidente deu uma canetada, os preços das casas subia e não parecia ter teto, como pode dar errado?

Paralelamente, o FED americano, que deveria ser capitalista, manteve os juros artificialmente baixos durante todo esse tempo.

O sistema fracionário de reservas, uma regulação governamental, permite que os bancos inventem dinheiro para emprestar, e a alavancagem, outra regulação do governo, permite que os bancos possam multiplicar ainda mais a quantidade a emprestar. No fundo é o banco central imprimindo dinheiro, e enquanto a conta estiver fechando, hurray!

As pessoas passaram a se endividar mais, já que os juros estavam baixo. Através dos juros o governo estava informando ao mercado: comprem dinheiro! O consumo aumentou durante o período, fazendo parecer um crescimento da economia, mas sem o aumento correspondente de produção.

Não sei ainda de onde partiu a última base do castelinho de cartas, mas alguém empacotou financiamentos arriscados e chamou de subprime. Basicamente financiamentos baratos para maus pagadores. Isso tem cheiro, não, isso tem pestilência, você sente o odor a quilômetros. PÉSSIMO INVESTIMENTO!!!!!!

Está fazendo as contas? Estímulo ao consumo+Financiamentos públicos+impressão de moeda+Juros artificialmente baixos+Consumo de poupança+endividamento+péssimo investimento por uma década+subprime+reservas fracionárias+alavancagem igual a… Igual a???? Começa com C, continua com R, vai pro I, arremete no S, e termina retumbante no E.

Repara só que quase tudo isso está acontecendo no Brasil do PT, vide Minha Casa Minha Vida, o novo BNH.

E qual a solução do grande democrata-progressista-brotha-

feminismo-racialismo-cultura-netneutrality Obama? Pagar a conta com o dinheiro do resto da população que não fez péssimos investimentos durante uma década, para salvar um pouco a pele de quem fez péssimos investimentos durante uma década por culpa própria ou por causa do governo.

Desanima ver isso acontecer, mas pelo menos uma parte das pessoas vai aprender a lição: quanto mais o governo “estimula” a economia, menos a economia cresce. Chamar a economia americana de desregulada, de mercado livre, é uma piada.

Pensamentos sobre a Escola Austríaca de Economia

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s