Justiça social aplicada à imprensa?

Nessa cobertura da eleição, existe uma batalha. Cada veículo, ou indivíduo, vai tender para um lado. O único argumento oferecido por partidários da Dilma atualmente e que considero interessante como discussão é o lance da diferença de alcance entre por exemplo Globo e blog do Nassif.

Não o argumento de que Globo seja necessariamente anti-PT, é fácil lembrar períodos em que as manchetes do JN e do Globo eram pró-Lula. A Globo tem interesses próprios? Claro, eu também tenho, você também, nenhuma empresa existe sem interesses.

A discussão que eu ainda acho interessante é a que traz os seguintes argumentos (apesar de discordar dos argumentos):

1) Globo e outros (senão todos) veículos não alinhados principalmente e continuamente com qualquer movimento de esquerda, necessariamente se beneficiaram da ditadura militar, que foi um movimento de direita.

Discordo, porém não que a ditadura militar tenha sido um movimento de direita. Foi. Mas que necessariamente todos os veículos não alinhados com a esquerda tenham se beneficiado da ditadura. Ou que Globo não tenha se alinhado à esquerda, principalmente, em nenhum período. Foi pró-Lula enquanto interessou, agora não interessa mais. Direito deles.

E se o problema é um pretenso cartel, então mais um motivo para fazer o governo dar mais liberdade ainda para a imprensa, deixando mais gente abrir jornais e TVs do jeito que quiser. Querer igualdade dizendo que Globo vende mais que Carta Capital é como querer influir no Campeonato Brasileiro. Monte seu time e ganhe o campeonato!

O movimento intitulado Blogueiros Progressitas (http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/carta-dos-blogueiros-progressistas.html) mostra um pouco dessa vontade de conseguir espaço de mercado através de regulações, através de reserva de mercado. Eu pretendo um dia destrinchar tudo que acho de errado nesse movimento, mas por enquanto vou citar somente o mais notório.

Reclamam que o capitalismo permitiu a liderança (injusta) dessas empresas grandes, mas “reinvidicam” uma política governamental que incentive propaganda privada e pública (nessa ordem) para os blogueiros progressistas. São blogueiros progressistas, nesse manifesto, “pessoas independentes das corporações de mídia”, “além de seus ideais humanistas”. Peraí. Eu sou independente das corporações de mídia, e tenho um blog. Também tenho “direito” de reinvidicar que o governo me arrume propaganda privada e pública pra que eu possa escrever minhas coisas?

Peço muita reflexão na hora de criticar a ética da imprensa em geral. Criticar posições, denunciar fraudes, boicotar jornais, sou totalmente a favor. Mas exigir uma “justiça social” para a imprensa, aí eu sou totalmente contra.

2) O alcance dos veículos anti-Dilma, ou pró-Serra, é maior que o dos veículos pró-Dilma, ou anti-Serra, e isso é uma injustiça.

Esse argumento é para mim ainda pior. Dilma hoje é governo. Não existe poder maior, mesmo que temporário, que o governo. Os brasileiros são bombardeados pela mídia paga ou voluntária de todos os partidários do governo, de todos as empresas públicas, de toda e qualquer repartição pública que lide com qualquer nível de comunicação. Empresas, repartições e pessoas que funcionam ou ganham seus salários com o dinheiro que os brasileiros pagam seus impostos. Fora a parte da sociedade brasileira que se posiciona categoricamente como de esquerda, muito significativa em porcentagem.

Esse alcance não é menor que o da imprensa de oposição. Juntando o alcance de comunicação do governo, mais o alcance das políticas assistencialistas do governo (sejam elas boas ou ruins para a economia), mais o alcance da imprensa pró-governo no Brasil, mais o alcance dos cidadãos esquerdistas, não é preciso se preocupar com a imprensa de oposição, no sentido monopolístico. Desvios éticos são identificáveis na defesa e no ataque dos dois candidatos dessa campanha, sejamos sensatos.

O problema principal desse argumento é que a maioria da esquerda confunde o justo com o desejado. O desejo da esquerda é que num determinado momento os maiores veículos de imprensa do país sejam alinhados com a esquerda. Enquanto não forem, serão injustos, e quando forem serão justos.

Como já falei, aqui na França os principais jornais são alinhados com a esquerda. Hoje, o normal na mídia é ser contra o Sarkozy (apesar dele ter sido) e suas políticas de contenção de gastos governamentais, ou nos casos mais moderados, ser em cima do muro. A direita e demais críticos da esquerda não ficam atacando os veículos. Atacam os protagonistas das notícias, assim como a esquerda também o faz.

Justiça social aplicada à imprensa?

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