15 dicas de que você está se tornando um liberal

O mundo muda muito rapidamente e deixa a gente tonto, mas algumas coisas nunca mudam. Por exemplo as pessoas continuam procurando uma razão para reclamar bastante da vida, e o liberalismo trouxe uma das melhores razões para isso: a violação constante aos direitos individuais de todas as pessoas humanas individuais individualizadas nelas mesmas.

Você já perdeu a conta de quantas vezes ficou de queixo caído com a burrice de certas leis? Se pergunta como as outras pessoas ainda acreditam nos políticos e suas promessas pretensamente salvadoras? Fica de cara com o sucesso de camisetas marketeando Che Guevara?

Eu tenho uma péssima notícia para seus amigos: VOCÊ PODE SER UM LIBERAL. Isso mesmo amiguinho(a), essa doença pega. Um dia você começa a defender a liberdade de expressão, e sem perceber logo você está se digladiando na internet com stalinistas e olavistas.

Mas não se desespere! No espírito liberal clássico de fraternidade e caridade voluntária não-obrigatória, a Liberzone fez um guia prático para que você descubra se o vírus pegou mermo ou se é só uma febrinha (daquelas de fim de semana quando o sol resolveu sair depois de meses de chuva).

Sem mais delongas aí estão as 15 dicas de que você está se tornando um liberal.

1) Você já acorda pensando: “como o estado vai me ferrar hoje?”

Cada macaco no seu galho

Já terminei de pagar os impostos do ano?

Todo dia é a mesma coisa, você quer dormir um pouquinho mais, e vem o estado te acordar antes da hora pra escovar os dentes, levantar a bunda e ir trabalhar. Afinal você precisa pagar impostos. O que seria de nós sem esse papai, não é? Nele você pode confiar, diferente do tal do mercado, e então…

2) Seus amigos de esquerda sempre reclamam da sua “fé no Deus mercado”.

Crente que é gente

Testemunhe sua benção! R$ 100,00 por favor.

“Ave Adão Smith, cheio de grana, o senhor é comércio”. Quando é que esses leitores de Rousseau vão ler um pouco mais de Voltaire? Não achamos que o “mercado” vai resolver nada. Pessoas resolvem problemas, comércio é apenas uma das formas. Chega a ser até engraçado, pois acreditar que o governo deve resolver todos os problemas existentes é que parece ser fé digna de uma igreja. Mas isso é fichinha, pois…

3) Seus amigos de direita te acusam de ser marionete nas mãos dos agentes pagos da KGB gayzista George Soros.

Fabulosa!

Afinal, como vou pagar o estoque de glitter e de KY?

Ainda bem que existem pessoas com visão alêm do alcance para enxergar essas conspirações. Às vezes o que falta pra gente é um diploma de astrólogo, ou umas férias em Miami. Se bem que Miami é bem colorida, vai que você toma uma Pepsi abortiva, esbarra numa gay pride e aí SE SOLTA PRINSSESSA!!!! Melhor ficar na Coca mesmo. Se bem que as FARC já dominaram o Brasil com o Foro de Sumpaulo vendendo Coca-ína. Melhor ficar em casa bebendo água mesmo. Mas não tem problema, já que…

4) Você não sai de casa porque senão estaria usando ruas públicas.

A segunda estrela do mar à direita e então direto, até o ancapistão

Você pode voar, você pode voar Peter Pan!!!

Assim como os comunistas não usam iPhone, caso contrário estariam contribuindo para a exploração de bebês em fábricas na China. Somente no interior da Suíça, onde maior parte das estradas abertas ao público são na verdade privadas, é que os liberais conseguem sair pra fazer compras, ir no cinema. No resto do mundo as pessoas usam as ruas públicas apenas para ir em lojas públicas comprar iPhones públicos com o dinheiro do Bolsa Família. Eu sei, nada disso faz sentido. Então para explicar…

5) Você tem medo de não conseguir ler todos os livros e artigos existentes sobre todos os assuntos relevantes à política, à economia e à cultura.

Tecnologia anti-social

Com esses assuntos eu chego a ter 0.1% do conhecimento humano.

A desvantagem de lutar contra a sujeição do indivíduo pelas normas do coletivo é que você sempre precisa explicar quando, onde e porque isso é errado. Se não explicar direitinho vem a turba e passa por cima. E para isso será necessário adquirir uma quantidade inadquirível de conhecimento. Parece impossível, mas não é. Somente a probabilidade é que é estatisticamente irrelevante.

6) Você para de culpar o governo pela falta de subsídio, mas começa a reclamar do excesso de impostos e burocracia.

É para o seu bem

“A sua agricultura desregulada é uma ameaça ao bem estar público.”

Antes eu era ecolô e artista, ficava indignado porque “o governo não faz nada”. É claro que eu estava errado, o governo sempre faz alguma coisa para atrapalhar. Hoje eu torço para que o governo não faça nada, e desfaça tudo que fez. Do pipoqueiro ao industrial de móveis, a melhor coisa que o governo pode fazer é não atrapalhar. Atuar na justiça e na segurança não é a mesma coisa que asfixiar a sociedade em centenas de milhares de regras micro-administrativas. Esse é um dos motivos pelos quais…

7) Você ri quando chamam o PSDB de direita ultraliberal.

Vergonha alheia

heoiheoiheoiheoiheoihe

A classificação de direita e esquerda já é complicada por si só, com todas as reviravoltas da história. O liberalismo foi considerado esquerda na França até meados de 1930, por exemplo, e agora tenta se livrar da associação com os conservadores no pós-guerra. Agora… somente na mente confusa de um esquerdista mainstream brasileiro o PSDB poderia ser chamado de direita. FHC deu beijinho em Fidel Castro, foi professor na Sorbonne. Tá de sacanagi!

8) O seu adjetivo preferido para a política econômica da maioria dos países é “keynesianismo”.

Ressaca monetária

Basta um pouco mais de estímulo econômico governamental…

Leia os jornais na seção econômica internacional e procure algum país onde o estado diminuiu de tamanho, não somente nas bolsas aos mais pobres, mas diminuiu em termos de proporção entre orçamento e PIB (mesmo que o PIB seja uma medida imprecisa da riqueza de um país). Pra não perder tempo eu contarei o resultado: não acharás nenhum. Se achar me conta. Se não estiver com vontade de procurar…

9) Você espera ansioso pelo próximo artigo abominável do Paul Krugman.

Krugonomics

“Oi! Sou milionário e faço parte do 1% que eu tanto critico.”

No Mundo Encantado de Krugman a Internet é uma tecnologia desimportante que logo vai sumir, a bolha immobiliária americana era uma propaganda de conservadores, os governos europeus vivem uma crise de longa austeridade fiscal, e outras maluquices engraçadas mais. Ele é o único caso onde a fantasia é mais fantástica que a realidade, nada abala sua convicção em ganhar dinheiro se aproveitando do sentimento de culpa daqueles que ele mais finge atacar: o 1% dos mais ricos. Quem lê Krugman, e o próprio Krugman, é branco, rico e odeia brancos ricos.

10) Você não sabe se a polícia ela existe pra ajudar, ou se dizem que ela pode te matar.

Esse aqui tá bem servido

Servir e proteger (os interesses estatais)

Ela existe para estimular a indústria dos donuts, todo mundo sabe. Uma pizza chega mais rápido, então porque não abrir uma pizzaria de segurança? Todas as leis existentes tranformam todos os cidadãos em criminosos todos os dias, e a polícia está lá para usar essa alavanca em favor do controle, do estímulo ao conflito social, da incitação ao medo da autoridade, etc. Proteger o cidadão somente se for um detalhe colateral que não atrapalhe os objetivos anteriormente citados. A diferença entre um policial e um segurança de shopping é que o segurança de shopping pode ser demitido e até preso. Você imagina o tipo de abuso que isso gera. E para diminuir esses abusos…

11) Você começa a defender o direito de casais homossexuais terem armas para defender seus filhos adotivos, sua propriedade privada e suas plantas de maconha.

Melhor não tentar nenhuma gracinha

Isso deve dar um nó na cabeça da esquerda e da direita

“Eu leio seus posts mas às vezes você escreve umas coisas horríveis!” Pois é, liberalismo é isso, é a parte boa do conservadorismo e da esquerda, e combate a parte ruim dessas ideologias. Então você atrai os maconheiros, os defensores da autodefesa, os gays, e aí choca todo mundo quando eles percebem que você não quer proteger minorias em detrimento das outras minorias, e sim que os indivíduos tenham liberdade e sejam responsáveis por suas escolhas e atos. Isso sai completamente da zona de conforto do cidadão médio, logo…

12) Você ataca opiniões autoritárias o dia inteiro, mas vira bicho quando alguém sugere censurar essas opiniões.

Não me provoque

Pandas não gostam de censura, tá ligado?

Como as pessoas não conseguem entender esse princípio tão simples? Liberdade de expressão é irrestrita, ou não é liberdade de expressão. Eu tenho o direito de pensar e falar o que eu quiser. Não tenho o direito de FAZER o que eu quiser. Isso traz a inconveniência de ter que conviver com discursos de ódio, mas se você começar a escolher quais discursos devem ser aceitados na sociedade, não vai poder reclamar quando outros escolherem o seu discurso como não tolerável. Ser intolerante com os intolerantes continua sendo intolerância. O que você tolera dentro da sua casa ou sobre quem você escolhe falar mal na internet, isso é escolha sua. Por outro lado liberdade de expressão não é justificativa para quando..

13) Seus amigos comunistas “brincam” contigo dizendo que vão pedir pro comitê te livrar do paredón quando a revolución chegar.

"Justiça"

Meu último pedido é passar por um julgamento imparcial.

Imagina se você faz uma piada dizendo que pediria para Hitler poupar o teu amigo judeu? Ou se você brinca dizendo que não mataria teu amigo cristão caso o Jihad chegasse ao seu bairro? Por algum motivo os comunistas não conseguem entender que essa brincadeira apenas demonstra como a violência está no âmago dessa doutrina. Vou citar de passagem que existem sim comunistas verdadeiramente comunais, do tipo hippies vivendo em comunidades, mas esses não fazem esse tipo de piada. Esses quase não falam né, estão numa zen, relax brou……….. Esses ficam tranquilos, diferente de quando…

14) Em um mesmo dia você irrita conservadores e socialistas.

Yes!

Já posso dormir tranquilo.

Vamos admitir? Grande parte de ter uma ideologia é poder encher o saco dos outros. É bom pacas irritar os outros, te dá uma sensação de não ser talvez tão ruim quanto você no fundo acha que é. Que sentimento maravilhoso, preencher o vazio da existência com o desprezo fingido. O quê? Pelo menos estamos estimulando o contato humano. E de quebra implantamos o liberalismo cultural, como exigido no contrato de blogueiro liberal pago pelas forças capitalistas neoliberais, a razão pela qual…

15) A maior parte da sua renda vem do Fundo Blogueiro Tucano-Neoliberal dos Irmãos Koch.

Encontro Nacional dos Blogueiros Liberais

É lucrativo ser blogueiro liberal!

Será que existe coisa mais ingrata que defender o liberalismo nos dias de hoje? Deve estar entre colecionar papel de carta e torcer pro Botafogo. Ma a gente faz é por amor, porque o Aécio perdeu muita grana naquele helicóptero e andou atrasando os últimos pagamentos. Sem contar que o Marco Civil vai acabar logo logo com o nosso facismo explorador das mentes na rede mundial dos computadores. Ai, ai, vida dura.

É isso aí amiguinhos, a brincadeira foi boa, mas eu tenho que voltar a lutar contra o exército de trolls petistas ou carolas que rondam pelos caminhos das internetes. Lembrem-se, não esmoreçam pois o que vem depois da vida é o descanso eterno, muito tempo pra pensar no que você deixou de fazer. Abreijundas!


Tradução de Raphael Moras de Vasconcellos do artigo “Gauche libérale, la grande amnésie”, de Alain Cohen-Dumouchel no endereço www.gaucheliberale.org em 26 nov. 2013

O fato de situar os liberais à direita do espectro político é um curioso acidente histórico, para não dizer uma anomalia que não é isenta de consequências sobre o fraco sucesso atual das ideias liberais e sobre sua incompreensão por parte do público. Pois parece claro que um movimento político não se define apenas por suas ideias, sua doutrina, sua filosofia, mas também por aquelas que ele combate.

Durante cento e cinquenta anos, os liberais ocuparam os bancos da esquerda na França. De 1789 a 1930, os liberais e seus movimentos afiliados se sentaram majoritariamente à esquerda. Em 1840, os deputados mais puramente liberais ocupavam a extrema esquerda da assembleia. Não contente de combater a direita nacionalista, clerical, corporativista e protecionista, eles se destacavam mesmo de outros liberais, mais lestos no compromisso com o poder. A outra esquerda, a esquerda jacobina, estava nessa época completamente desacreditada. A lembrança de suas violências e de seus fracassos econômicos e financeiros estava ainda fresca na memória dos franceses.

Essa esquerda liberal, esses “economistas” como se chamavam, militavam pela democracia republicana, pelo livre comércio, pela educação gratuita e obrigatória, pela universidade livre, pela liberdade sindical e de associação, pelo estado de direito, o respeito aos contratos e à propriedade privada individual, e por uma verdadeira laicidade. Eles lutavam contra as uniões (1) e comitês de patrões que buscavam influenciar os poderes públicos para obter a exclusão dos produtos estrangeiros. Eles restabeleceram a liberdade sindical e de associação interditadas pelos jacobinos logo após a Revolução. Eles igualmente aboliram a escravidão por duas vezes, antes e depois de Napoleão. Eles eram contados entre os raros membros da Assembleia que se opunham à colonização (sem serem unânimes na questão) bem ao contrário do socialismo crescente.

Até o meio do século XIX, a esquerda era quase exclusivamente o partido do indivíduo, contra a direita, que era o partido do coletivo, da família, da pátria e da religião. A virada da esquerda ao coletivo, tímida em 1830, se intensifica em 1848 e irá crescendo até o fim do século. A presença à esquerda de liberais republicanos ou radicais se mantém até o começo do século XX. É notável que nesse momento, o crescimento do socialismo faz desaparecer os liberais da esquerda sem contudo os jogar para a direita. Com a chegada do socialismo, são os princípios de 89 que são esquecidos e que desaparecem, sem serem retomados pela direita, sempre nacionalista, clerical e protecionista.

A guinada política liberal “de direita” não aparecerá até bem mais tarde, após 1945 em reação à dominação do marxismo entre os intelectuais (2). Ela continuará extremamente minoritária na França, ao contrário do liberalismo “de esquerda” que participou ativamente do poder durante todo o século XIX.

O que é assaz (3) extraordinário é que esse pertencimento dos liberais à esquerda é hoje mais que esquecido. Pode-se afirmar que ele foi apagado, ou seja, voluntariamente ocultado. Essa amnésia supreendente é obra principalmente da esquerda socialista porém é igualmente perceptível no seio dos liberais, dentre os quais alguns parecem se acomodar em e mesmo reinvidicar sua classificação à direita.

Uma das manifestações mais visíveis desse revisionismo histórico surge na invenção e no emprego constante na imprensa dos termos: “primeira” e “segunda” esquerda. O termo “segunda esquerda” foi inventado pelos jornalistas Hervé Hamon e Patrick Rotman na sua obra “A Segunda Esquerda: História Intelectual e Política da CFDT” (4). Ele foi retomado e tronado célebre através do famoso discurso de Michel Rocard sobre as duas cultura da esquerda, pronunciado aquando do congresso do Partido Socialista em Nantes em junho de 1977.

A “segunda esquerda” se define pela sua oposição à esquerda marxista, centralizadora e jacobina. Continuando a ser definitivamente anticapitalista apesar de demonstrar um certo realismo econômico, a “segunda esquerda” se quer descentralizadora, auto gestionária e afirma levar em conta a participação dos “cidadãos” (o conceito de indivíduo sendo ainda um tabu).

A noção ditadura do proletariado é aí excluída e, novidade, essa esquerda comporta em seu meio alguns social-democratas cristãos oriundos da CFTC (confederação francesa dos trabalhadores cristãos). Bem entendido, a denominação de”segunda esquerda” sustentada pela rocardianos (5) e largamente utilizada desde então por toda a imprensa sugere e mesmo impõe aos franceses a ideia que antes da primeira esquerda (a marxista coletivista) havia… nada. Incrível, os bancos à esquerda da assembleia se encontravam então vazios antes que os socialistas e marxistas os invadissem?

Contudo, a criação do Partido Socialista é bem tardia na França. É preciso esperar até 1905 para que os numerosos micro-partidos de obediência socialista se unissem para criar a SFIO (seção francesa da internacional operária), ancestral da formação política que conhecemos atualmente.

No fim do século XIX os primeros socialistas a serem eleitos deputados são independentes, tal qual Jean Jaurès,  o mais conhecido entre eles. Quanto aos comunistas, não aparecerão na assembleia até a cisão do congresso de Tours em 1920.

Então, infelizmente para os inventores da “segunda esquerda”, antes da auto-intitulada “primeira” esquerda da SFIO (6) ou stalinista, havia uma outra esquerda, individualista, liberal e republicana, que os socialistas querem absolutamente apagar da história. Nessa numeração socialista das esquerdas seria preciso chamá-la de “esquerda menos um”.

Um dos paradoxos dessa ocultação da esquerda liberal, é que ao querer fazer crer que a história da esquerda começa com aquela do socialismo, os inventores da “segunda esquerda” empregam, mais ou menos conscientemente, os métodos da esquerda stalinista que eles pretendem combater.

Notas do tradutor

(1) – Não fica claro se uniões são um tipo específico de associação de patrões: “Ils luttaient contre les unions et comités de patrons qui cherchaient à influencer les pouvoirs publics pour obtenir l’exclusion des produits étrangers.

(2) – O autor escreve “La mouvance politique libérale “de droite” n’apparaîtra que bien plus tard, au lendemain de 1945 en réaction à la domination de l’intellectualisme marxiste.” Não fica claro se intelectualismo é um termo corrente ou um neologismo querendo dizer o grupo de intelectuais e suas obras marxistas no pós-guerra do século XX.

(3) – É divertido usar assaz para assez, os portugueses usavam até o século passado. Mas é hipster.

(4) - Hervé Hamon, Patrick Rotman, La deuxième gauche : histoire intellectuelle et politique de la CFDT (na minha rápida busca, não encontrei referência à primeira edição).

(5) – Seguidores de Michel Rocard, político francês socialista, ex-primeiro-ministro, senador, etc.

(6) – Após a cisão entre socialistas e comunistas, socialistas continuaram na SFIO sob a liderança de um de seus fundadores, Jules Guesdes, sendo chamados de guesdistes: “Donc, malheureusement pour les inventeurs de la “deuxième gauche”, avant la soi-disant “première” gauche guesdiste ou stalinienne…


VTC, Táxi!

12fev14

*Full disclosure – eu sou motorista licenciado VTC (Voiture de Tourisme avec Chauffeur).

Cidadãos de bem, uma ameaça ronda os aeroportos e estações de trem de Paris… A ousadia é sua marca, os bancos confortáveis de seus automóveis servem de base para suas atividades desreguladas, e os clientes transportados de forma segura aos seus destinos não se importam com o estrago que estão causando em um dos mercados parisienses mais antigos da era moderna. Sim, bravos leitores, estou falando dos aplicativos de chamada de táxi por celular, com seu exército crescente de chauffeurs independentes VTC contra a infantaria entrincheirada dos táxis de bandeira.

Mais liberdade? De quem é essa ideia estúpida?

Ou isso é o que os taxistas querem que a gente pense.

Quando decidi escrever sobre a nova causa de desespero dos taxistas parisienses, me encontrava inseguro pois não sabia se teria material interessante para colorir este artigo. O que eu encontrei foi uma história tão exemplar de fisiologismo (o equivalente português para o inglês cronysm e o francês copinage), que vou usá-la para explicar brevemente o que vem a ser a teoria liberal da luta de classes.

Marx era um péssimo economista, mas não era inteiramente desonesto: “No que me concerne, eu não tenho o mérito de ter descoberto a existência das classes na sociedade contemporânea, nem o de ter descoberto a luta dessas classes entre si. Os historiadores burgueses expuseram, muito antes de mim, o desenvolvimento histórico dessa luta de classes, e os economistas burgueses a anatomia econômica das classes[1]. Esses burgueses foram, entre outros, Charles Dunoyer, Charles Comte, Augustin Thierry e seu genial precursor Jean Baptiste Say, que haviam notado a luta existente entre aqueles que produzem riqueza e pagam os impostos, e aqueles que decidem sobre como pode ser criada e para onde vai essa riqueza coletada pelos impostos.

CtrC+CtrV ao invés de CCCP

Você consegue imaginar para onde estou encaminhando nossa conversa? Como os taxistas chegaram a ter o poder de desafiar altas figuras do governo francês, atacar concorrentes mesmo com clientes dentro do carro, serem grosseiros e caros, e ainda por cima lucrar com a escassez no monopólio sobre um dos mercados mais supimpas de uma das capitais mais importantes da Europa? Luta de classes, mon ami: os políticos, burocratas, empresários big business, taxistas e montadoras de um lado; e nós, o resto, do outro.

Nesse momento de 2014 as empresas de aplicativos de celular e os independentes estão lutando para quebrar as muralhas dessa fortaleza. Façamos uma viagem ao passado. Era uma vez uma cidade que seria soterrada pelo estrume não fora, entre outras razões, pelo advento milagroso do automóvel (tão vilipendiado hoje em dia como uma grande causa do apocalipse). Em 1898 Paris conheceu seus primeiros veículos motorizados utilizados para transportar passageiros a título oneroso. [2] Eram pouco mais que carruagens motorizadas, e imagino que os cocheiros da época devem ter ficado alarmados com a chegada dessa nova concorrência. Talvez tenham feito “operações estrume” para atrapalhar o bom fluxo dos veículos nas vias públicas. Mas quem quer matar de vez a profissão dos cocheiros é o atual prefeito nova iorquino.

Cuidado onde pisa, Madame

Em 1903 apareceram os primeiro taxímetros mecânicos. Dois anos depois, um bisneto de Napoleão Bonaparte criou a Companie Française des Automobiles de Place (CFAP), e em 1906 já existiam 300 veículos conhecidos então como Autotax (do francês taximetre emprestado do grego, “medidor de tarifa”).  Os bancos investiram na compra de carros em 1907 e triplicaram o número de prestadores. 1910 é um ano importante para minha análise: a chegada das primeiras regulamentações [3] sobre as tarifas, e 1911 vê nascer a primeira greve dos taxistas parisienses. Ah, que tempos nostálgicos, não é? 144 dias de greve. A CFAP logo é comprada em 1913 por um banco, e muda de nome para G7. Hmmm. A sociedade CFAP fundada pelo neto do imperador é a mesma G7 que hoje se senta com os poderosos da política? Interessante.

Demorou pouco para o setor começar a ser capturado. De forma progressiva, certes, mas inevitavelmente vers o que hoje é um monopólio. Entre as décadas de 20 e 60, as grandes construtoras francesas (Citroën, Peugeot e Renault) entraram no mercado, seja criando, seja comprando companias de táxi, tinham a facilidade de possuir o capital já imobilizado (os carros).

Em nenhum lugar encontrei referência sobre a data da criação da primeira licença de táxi, concedida pelo prefeito da cidade, mas em 1950 elas já existiam, provavelmente desde 1937. Em 1962 a polícia tornou obrigatórios o exame de conhecimentos do chauffeur e o controle técnico do veículo. Em 1966 a prefeitura permitiu a venda de licenças entre taxistas, e assim começou a dança entre oferta e demanda ejetando o preço das licenças parisienses à estratosfera.

Eram estimadas em torno de €5.000 (preço ajustado) em 1974, 15 anos depois a €110.000, até chegar aos cerca de €240.000 atuais. Em 40 anos, um aumento de 4700%! Que ouro, que nada; banana para o petróleo. Fazendo uma conta conservadora das 18.000 licenças a €150.000, chegamos a um mercado de aproximadamente €2,7 bilhões, totalmente criado e mantido pela regulamentação governamental. A escassez artificial faz milagres financeiros para quem dela depende. E as pessoas ainda pedem mais regulamentação governamental para acabar com a especulação selvagem dos mercados, rç.

Valor das licenças governamentais em um mundo ideal

Já deu para entender qual é a razão de cólera dos taxistas, pas vrai? Querem tirar o doce da boca deles, coitados (em francês petit gâteau significa bolinho, seus ignaros, aquele doce de chocolate se chama fondant). Os taxistas que recebem gratuitamente as raras licenças novas querem garantir sua aposentadoria, e o taxista que pagou em uma licença antiga o preço de um apartamento não quer ver seu investimento virar fumaça. O estado cria um monopólio através das licenças (como mostra reportagem da Folha em 2013), incitando a especulação, e o culpado obviamente é o mercado malvadão, o comércio selvagem.

Fondant au Chocolat injustamente chamado de bolinho pelos brasileiros

Até 2005, o mercado VTC era tolerado pacificamente pelos taxistas. Esse setor dependia de uma licença chamada de Grande Remise, definição que vem do Ancien Régime, quando havia carruagens luxuosas à disposição dos “grandes” clientesOs motoristas eram aqueles Jarvis e James da vida, com quepe, terno e gravata, maneiras cordiais. Esses motoristas sempre foram cordiais, atenciosos e mantinham o carro tinindo. O contrário do que fazem os taxistas parisienses quem, segundo uma pesquisa recente, obtiveram o pior índice de satisfação (10%) entre 10 grandes capitais.

Com o amolecimento da regulamentação do setor VTC em 2005, e ainda mais profundamente em 2009, surgiu um grande número de novas empresas de transporte turístico e chauffeurs independentes, atendendo o gigantesco mercado de turistas estrangeiros em Paris (15.9 milhões em 2012). Mesmo com esse crescimento, existem apenas cerca de 12.400 veículos VTC na França [4]. Juntando taxistas e VTCs, o número de prestadores por habitante em Paris (3) é quase quatro vezes menor que o de Londres (11).

Pesquisa confirma que 70% das mulheres não admitem que sentem atração por motoristas uniformizados

É de se esperar que esse número cresça aceleradamente, devido à chegada e pressão dos novos players, as empresas que oferecem e gerem os aplicativos de reserva de VTC por celular ou sites de internet, tanto para turistas quanto para moradores e trabalhadores das cidades francesas. Os antigos Jarvis e James também estão bravos, mas como suas licenças não podem ser vendidas, e lembre-se que são cordiais, não possuem muita força política, nem muito a ganhar agredindo seus concorrentes menos luxuosos.

Gente, ser motorista não é engenharia espacial, até eu posso fazer. Não tem porque achar que se deve restringir o serviço a uma elite de motoristas que podem falar da nouvelle vague nas horas vagas. O consumidor deve ser o juiz final, decidindo onde gastar seu dinheiro suado, e se for enganado ou maltratado deve poder prestar queixa na autoridade competente.

É verdade que esse assunto de transporte é complexo, envolve o subsídio compulsório da infra-estrutura viária e ferroviária, a copinage entre o estado e as montadoras, a posse estatal do subsolo, etc. Benjamin Tucker já havia identificado quatro grandes monopólios no fim do século XIX, e no século XXI Kevin Carson adicionou dois outros; entre eles o do transporte. Desenvolveu a hipótese de que somente através dos monopólios estatais (legislação, moeda, terras, impostos, etc) foi possível tal expansão dos automóveis. Em outras palavras, caso as empresas de automóveis tivessem que depender do mercado ou do seu próprio capital para o investimento em estradas, talvez os automóveis estivessem mais diluídos em outros tipos de transporte individual ou de massa.

Eu quero você para culpar o mercado pelos problemas criados pelo governo

Mas eu escrevia sobre o amolecimento das regulamentações aprofundado em 2009. Um anos antes, o presidente bling bling Sarkozy recebeu o relatório Attali, que havia encomendado no começo de seu mandato, com 316 proposições para desbloquear setores comerciais, tirar as rolhas do gargalo do progresso. Apesar de não achar o Sarkô muito diferente do atual Flamby, essa atitude mostra pelo menos uma vontade de deixar o comércio agir um pouquinho, para depois poder dizer que os méritos são do governo. Enquanto isso o orwelliano Ministère du Redressement Productif mostra a intenção de se criarem soviets. Apesar de ainda apostar no welfare, o relatório pregava não colocar (muito) a dívida da geração atual nas costas das gerações futuras, acabar com as pensões injustas, e várias outras medidas óbvias sob o ponto de vista liberal. Como se pode imaginar o esforço se diluiu em reuniões, discursos e novos relatórios.

Seu dinheiro, Minha vida

Uma das proposições era sobre liberalizar o setor dos táxis, que segundo o relatório tinha se tornado um verdadeiro cartel  criado pelo governo, com regulamentações obsoletas que prejudicavam a sociedade. Não diga, caro relatório… Foi o suficiente para inflamar a cólera nos taxistas. Desde então, cada nova notícia sobre o que o governo vai fazer ou deixar de fazer para ajudar os táxis é motivo para: greves; bloqueio das autovias (chamam de opération escargot), aumentando as habituais centenas de kms de engarrafamentos diários dentro e ao redor de Paris; manifestações; e a cereja no bolo: a agressão aos motoristas e aos veículos VTC. No dia 13 de janeiro de 2014 os taxistas que bloqueavam as vias do aeroporto de Orly quebraram a janela e furaram os pneus de um veículo VTC parceiro do aplicativo Uber, COM CLIENTES DENTRO. No mesmo dia atacaram os colegas que não participavam da greve. Além de burros, são muito burros. E do tipo violento. Estão advogando contra si mesmos, brilhantes. Onde estava a polícia, você pergunta? O que foi feito com esses animais, você indaga? A polícia é um braço do estado, e o estado está do lado dos táxis. Nada foi feito, que os estragos sejam pagos pelo suor dos motoristas VTC.

Não é à toa que muitos taxistas estão eles próprios tentando obter a licença VTC. Alguns desses justamente depois de vender sua licença e passar a batata quente adiante. Existe na França a Agência da Concorrência, l’Autorité de la Concurrence, estabelecida no espírito ordoliberal da New Public Management, visão sob a qual o mercado é importante mas deve ser regulado pelo governo para corrigir suas falhas e garantir l’ordre publique. Vale lembrar Proudhon: a Liberdade não é a filha, mas a mãe da Ordem [5]. A referida agência foi mais uma instância governamental que se rebelou e se pronunciou contra o establishment taxista. No seu relatório de dezembro de 2013, em resposta à consulta feita pelo governo, afirmou que a proposta de regulamentação que passaria a obrigar um período mínimo de 15 minutos entre a reserva e o embarque do passageiro nos veículos VTC criaria uma distorção concorrencial em favor dos táxis, pois estes também podem ser reservados, enquanto os VTC não podem recolher clientes na rua. Com todas as palavras essa agência sugeriu a continuação da “liberalização regulamentada” do setor.

É claro que essa proposta é resultado da pressão dos taxistas, eles haviam pedido um período mínimo obrigatório de DUAS HORAS, é de matar. O governo ignorou a agência e a regulamentação dos 15 minutos entrou em vigor dia 1 de janeiro de 2014. Mesmo assim houve mais uma manifestação monstra dia 13 de janeiro que atravancou Paris. Talvez eles soubessem de alguma coisa pois os 15 minutos foram suspensos pelo Conseil d’État, a mais alta jurisdição administrativa francesa, pois o decreto «porte atteinte à la liberté du commerce et de l’industrie et à la liberté d’entreprendre», além de ser desfavorável aos consumidores. São os 15 minutos de fama (desculpem, era um cliché inevitável) da liberdade de comércio, pelo menos até a decisão final antes do fim do ano. Enquanto isso os taxistas seguem espumando sua raiva.

Segundo o diretor geral dos Taxis Bleus, cooperativa de 3000 taxistas, “estamos numa completa anarquia”. LOL. Eu não sei o que dizer para este ser, ele precisa escolher melhor as palavras. Não sei se o pior é a ingenuidade dos motoristas, ou a cara de pau dos verdadeiros atores por trás da pressão governamental. Afora os  sindicalistas que garantem votos para a classe política, quem realmente anda nos corredores do poder são os donos das grandes empresas, que detêm quase metade das licenças de táxi de Paris.

Aquela empresa fundada pelo bisneto do Napoleão hoje é a maior da França e dona também de 50% da Taxis Bleus, e é dirigida por Nicolas Rousselet, filho do fundador do Canal+ (canal pagante de TV – parte da Big Corp Vivendi), quem também era grande amigo do ex-presidente francês François Miterrand. Por grande amigo entenda ex-subordinado transformado em ponte entre financiadores de campanha e o ex-presidente. A promiscuidade desse tipo de empresariado com o poder político é mais do que óbvia, basta seguir as migalhas de pão.

Papai me deu esse lobby de presente

O corporatólatra Rousselet reclama que a concorrência dos VTC é desleal para com o setor de táxi. Mais uma declaração estonteante para o caderninho. Esses doidos usam o termo “concorrência desleal” como se não fizessem parte de um cartel garantido pelo estado. Hahaha. Cara de mogno, de pau-ferro, de massaranduba. Enquanto os pequenos taxistas vão às ruas fazer o trabalho sujo e violento, os chefes mafiosos estão sentados em poltronas de couro contando a entrada de euros pelo aluguel de suas licenças, falando ao telefone com os atuais encarregados do poder executivo. Para ilustrar o imboglio, o diretor da escola de economia de Paris lembrou oportunamente da petição dos fabricantes de vela (apesar de ter atribuído ou ter sido atribuído citando um fato, e não uma parábola de Frédéric Bastiat).

Vou tentar resumir o que eu penso sobre a situação do setor de transporte de passageiro em carros, em Paris. O mercado de táxis logo foi capturado pelos políticos, para ganharem doações de campanha em troca de favores políticos, e os trabalhadores se agarram às boias mais próximas tentando garantir seu emprego ou o valor de sua licença, que não passa de um bem intangível sem valor fora das proteções governamentais completamente artificiais e anti-econômicas. Invariavelmente a demanda por esse tipo de serviço aumenta criticamente, criando tensão e promessas suficientes capazes de atrair empreendedores dispostos a correr o risco e a enfrentar os lobbies, as barreiras de entrada e o próprio governo na busca pelo lucro desperdiçado até então. Os novos empreendedores que conquistarem seu espaço se tornarão os futuros lobistas, e assim caminha a humanidade de mãos dadas com esse sonho incoerente chamado democracia republicana.

Está aí exemplificada a luta de classes sob o ponto de vista liberal. Deixo vocês com a cocotinha Vanessa Paradis cantando o crássico Joe le Taxi, em homenagem aos meus mais novos inimigos. As letras são tão sem sentido quanto as reclamações dos taxistas.

Notas bibliográficas:

[1] - Marx to J. Weydemeyer, March 5, 1852, Karl Marx and Friedrich Engels, Selected Correspondence (Moscow: Progress Publishers, 1965), p. 69.

[2]http://fr.wikipedia.org/wiki/Taxis_parisiens#De_1898_.C3.A0_1950

[3] – ndA Regulamentação no sentido de legislação regulamentar de um setor econômico, que é obrigatório e compulsório, diferente de regulação que se atinge de forma voluntária entre os agentes do comércio.

[4] – Autorité de la Concurrence, Avis n° 13-A-23 du 16 décembre 2013 concernant un projet de décret relatif à la réservation préalable des voitures de tourisme avec chauffeur (http://www.autoritedelaconcurrence.fr/pdf/avis/13a23.pdf), p. 9

[5] – Proudhon, Pierre-Joseph, 1848, La Solution du Problème Social (Paris: Librairie Internationale, 1868), p. 87.


A sardinha da Avenida Foch

*Este artigo apareceu primeiro no site Libertroll.

A candidata do PS Anne Hidalgo quer ser dona da Avenida Foch

O novo alvo dos socialistas ecolôs de Paris é a Avenue Foch (pronunciada fósh), um símbolo entre os endereços elitistas do mundo.

Esta via foi criada dentro do projeto de urbanização do presidente, e depois imperador, Napoleão III  entre 1850 e 1870, quando o seu capanga preferido, o prefeito Haussmann, derrubou 60% da cidade para construir uma cidade moderna nos padrões da época. O modelo a ser ultrapassado era São Petersburgo, e após 2,5 bilhões de francos gastos em 20 anos, o prefeito foi demitido deixando uma cidade com esgoto, iluminação a gás, banheiros públicos e, principalmente, à prova de fogo, com muralhas e espaço e trens suficientes para tropas se posicionarem e esmagarem revoltas facilmente. Paris tinha uma longa história de cidade turbulenta, e fácil de sitiar ou se revoltar.

A Avenida Foch foi então desenhada com 120 metros de largura e 1300 metros de comprimento, para que os burgueses de carruagem pudessem ver e ser vistos entre o Arco do Triunfo e o Bois de Boulogne (que estava sendo criado na época). Rapidamente se tornou um dos endereços mais chiques de Paris, atraindo os novos “barões” da indústria como os Rothschilds e os Onassis. Tomou o nome atual em 1929 após a morte do General Foch (que ganhou a batalha do Marne na Primeira Guerra Mundial e profetizou que, caso o Tratado de Versalhes concedesse a manutenção da união territorial da Alemanha, haveria guerra exatamente 20 anos depois). Hoje em dia, ou melhor, à noite, é um destino preferencial de prostitutas decadentes com carros próprios, que invertem a lógica tradicional da profissional à pied.

Além de ter um metro quadrado muito caro (média de 12 mil €/m²), os apartamentos são muito grandes e o preço atinge a estratosfera, na casa das dezenas de milhões de euros.  Na Segunda Guerra os alemães estabeleceram nessa avenida um escritório da Gestapo, onde escolhiam quais judeus seriam deportados para Auschwitz, e por isso os parisienses passaram a chamar a avenida de Avenue Boche (termo pejorativo que designava um alemão cabeça-dura). Há cinco anos atrás o governo andou perseguindo as escrituras dos ditadores africanos (Gabão, Congo, entre outros) com apartamento nessa avenida (os amigos dos ditadores do Qatar que também possuem apartamento lá, esses não, porque pode atrapalhar o investimento dos petrodólares na França). Segundo a fofoca, FHC e Sérgio Motta também compraram imóveis por lá.

Pois bem, os membros do PS (Parti Socialiste) de Paris, que como todo bom socialista gostam de uma arquitetura mais moderna, acham que o espaço pode ser melhor utilizado. Sua candidata nas eleições desse ano de 2014 é Anne Hidalgo, a atual première adjointe do prefeito também socialista Bertrand Delanoë, que termina seus dois mandatos, totalizando 13  anos, muito popular. Primeiro político francês de expressão a sair do armário publicamente, foi esfaqueado durante a Nuit Blanche por ser político e gay, mas mandou a festa continuar enquanto se encaminhava ao hospital. Ele foi o criador do Paris-Plages (vontade de ser Rio de Janeiro), do Vélib (as bicicletas públicas), do Autolib, do Tramway e mais recentemente da baixa de 80 para 70 km/h no Boulevard Péripherique (anel viário de 33 km ao redor da cidade).

Vejam, este senhor é um típico social-democrata de esquerda, que não se importa com quem você beija mas fica tremendo de medo se você entra em um carro (full disclosure: eu sou motorista de vans turísticas). Sem nenhum pudor ele sempre deixou claro que seu sonho era uma Paris de pedestres, onde o carro e a poluição seriam coisa do passado, mas através de uma estratégia maquiavélica de tornar o uso do carro um pesadelo, e quem disse que o governo não é eficiente em nada nunca tinha ouvido falar desse objetivo governamental que está sendo paulatinamente alcançado. Não é nenhum segredo que a prefeitura de Paris ganha zilhões com os estacionamentos e infrações de estacionamento, e que o estado recebe bazilhões com as multas de velocidade e infrações de trânsito (além da polícia dar proteção aos serviços de valet parking).

Um dia normal tem 170 km de bouchons (rolhas, engarrafamento) dentro e ao redor de Paris. Mas o transporte público e as bicicletas de 3000 euros vão nos salvar, algum dia aparentemente /sarc. Quem ganha de verdade com os Vélibs e os Autolibs são os moradores aisés de Paris e os conglomerados tais que JC Décaux, um exemplo de solução top-bottom corporativista que vira uma bandeira progressista, mesmo que tenha um custo de oportunidade milionário para o resto dos moradores.

Admitindo que estou reclamando de barriga cheia, se compararmos com a prefeitura do Rio, volto à Anne Hidalgo e seu projeto para a Avenida Foch. A avenida perderia sua via central que se tornaria um parque parcialmente ocupado por conjuntos habitacionais sociais (cités ou HLMs – Habitations à Loyer Modéré) e comércio. Os carros poderiam circular somente pelas duas vias laterais de uma pista cada (ou duas se proibirem o estacionamento de carros).

Segundo os objetivos oficiais progressistas™, o projeto serviria para devolver o espaço aos pedestres parisienses, para fazer entrar o Bois de Boulogne em Paris, tirar a universidade Paris-Dauphine do isolamento e fazer o 16éme arrondissement participar da “mistura social” através de novos moradores pobres e de classe média. Para além de suas boas intenções, ficamos sabendo de coisas mais concretas como os potenciais 400 mil metros quadrados de espaço para construções, sejam HLMs ou imóveis comerciais.

Todo mundo fica feliz, menos os atuais moradores do local, não é? Do lado político, a candidata não arrisca nada pois provavelmente não receberia mesmo votos desta parte da cidade. Quem é classe média pode ter o gosto de sentir um pouco de vingança contra quem mora lá, e quem é pobre pode sonhar em ganhar um apartamento gratuito novo, financiado sabe-se lá como pela entidade que tudo provê. E alguém vai ser encarregado de construir, desenhar, de demolir, de regular, de fiscalizar, decorar… Quantos empregos… o projeto vai dinamizar a economia! Ou pelo menos é o que quem não conhece a lei do custo de oportunidade vai pensar (keynesianismo, hello!). Muito mais que empregos, serão muitos contratos, e já imagino o comichão dos bolsos e o formigamento nos corredores cheios de interessados, que devem eles mesmos ter soprado a sugestão em algum momento nos ouvidos da candidata. Interesses privados sempre tentam usar a força do estado para criar oportunidades para si em detrimento dos outros.

Ou seja, o roteiro de teatro está todo bem amarrado: uma parte dos moradores da Avenida Foch ficará insatisfeita, os cofres da Prefeitura irão usar dinheiro público para subsidiar os investimentos iniciais, os cofres dos bancos cartelizados da república irão fornecer o resto do financiamento, empresários bem conectados e minimamente profissionais serão encarregados de criar esse sonho, a classe média terá a promessa de apartamentos para seus filhos desempregados, e a classe pobre terá a promessa de casa gratos. Bilhões passarão diante dos olhos de Madame Hidalgo, enquanto o dinheiro vai secar para o crédito de outros empreendimentos. Os preços da mão-de-obra e dos materiais de construção vão aumentar em Paris para alimentar este monstro faminto, criado a partir do sonho artificial de um grupo de pessoas que nunca deve ter dormido um única noite na região.

Longe de mim ficar defendendo genericamente os moradores da famosa avenida. Minha crítica é sempre em relação aos programas de cima para baixo de uma instituição que não respeita os direitos individuais. Uma grande parte dos apartamentos da avenida devem provavelmente ter sido comprados com dinheiro arrancado de inocentes pelos governos de outros países. Mas isso não isenta o próprio governo francês de ser a raiz dos problemas de habitação na França, seja através dos impostos e regulamentações trabalhistas e imobiliários, seja através de programas como o haussmanniano que subsidiou de forma faraônica a modernização de Paris, elitizando o espaço e expulsando os antigos moradores pobres. Se as pessoas ficam chocadas com os orçamentos e posses de grandes corporações, me espanta que não se espantem com as posses e orçamentos de governos, e no caso, da prefeitura de Paris. Qual é a empresa que possui espaço vago para construir em Paris, é dona da terra, do ar e do subterrâneo, e ao mesmo é dona das regras de construção dentro de Paris?

Oh, l’insanité, mes amis. A ordem espontânea dos mercados verdadeiramente livres nunca foi muito presente no setor imobiliário parisiense. Desde a urbanização de Napoleão III existe uma lei que regula e regulamenta de forma arcaica e estrita a construção imobiliária em Paris. Porque será que existe escassez de espaço habitacional e comercial em Paris??? Pelo menos a cidade é bonita e atrai turistas. Se é assim, por mim que expulsem todos os moradores menos eu, e transformem tudo em hotéis, assim terei mais clientes.

Democracia, no fundo, é isso: usar o governo para puxar a sardinha para o seu lado.


Segunda Jornada da Juventude Rolezinho

Segunda Jornada da Juventude Rolezinho

Tradicionalmente um período de baixas vendas, comerciantes comemoram aumento de faturamento após decisão de investir na oportunidade dos “Rolezinhos”.

Flavio Oliveira para a Folha de Taboão

Os membros da Associação de Lojistas do Shopping Itaquera têm bons motivos para acreditar que 2014 será um ano de aumento nas suas vendas. Somente na primeira edição do evento, realizado dentro do prédio e em parte do seu estacionamento, as vendas aumentaram em 20% em comparação com o mesmo período em 2013. Segundo o depoimento de José Prado, síndico dos lojistas, o sucesso da iniciativa foi garantido “sem investimentos significativos. Fora o equipamento de som, a montagem de palcos e a contratação da produção, os custos do evento foram mínimos e valeram muito a pena. A premiação saiu direto dos estoques com dificuldade de escoamento”.

Não são somente os comerciantes que comemoram. Nivaldo Peres, motoboy de pizzaria, se vangloria: “Beijei muito na boca, zoei com os manos e ainda ganhei sanduíche do McDonald’s”. Os líderes dos participantes da Jornada (MCs como gostam de ser chamados para não posarem de autoridade perante os outros jovens) se dizem satisfeitos com os resultados: “Conseguimos chamar a atenção da sociedade para o problema da falta de opções de lazer nas comunidades da periferia, mas de forma positiva, onde todos saíram felizes pelo menos de estar sendo ouvidos, diz o MC Cazuá, servente de pedreiro em uma grande empresa da capital.

Ele foi um dos que participou da Grande Final de MCs, em que jovens funkeiros apresentaram suas composições e o grande ganhador foi a revelação MC Gatinha, a moradora de Vila Medeiros, que mistura letras sensuais a uma crítica ao sistema político que na sua visão impede os favelados de se organizarem sem a intereferência pesada da polícia e dos traficantes. “Quem pode ser feliz / na minha comunidade / se as ordens vêm da polícia / ou da criminalidade” diz uma de suas músicas que conquistaram o público da grande final. “Ela entende o que a gente passa todo dia, meu pai morreu de tiro de polícia e meu primo morreu traficando”, opina Cleude Silva, 14 anos, que pretende voltar nas próximas edições do evento.

Para o sociólogo Pedro Bloch, essa transformação deve ser considerada uma conquista social: “Marx foi acurado em perceber os diferentes a injusta desigualdade entre a classe detentora dos meios de produção e a classe trabalhadora que vende seu trabalho, mas não podemos ficar presos em sua previsão de que o sistema vai ruir sozinho, ou de que cada classe social constrói uma lógica inevitável e totalmente distinta das outras. Os rolezinhos se transformaram em uma ponte real entre o imaginado e o possível.”

Estes bons resultados contrastam com o clima pesado de conflito no início dos rolezinhos, quando ninguém previa que os rolezinhos se tornariam fonte de aumento de renda, alternativa segura de lazer e motivo de uma discussão social racional entre grupos tradicionalmente opostos. Luis Perenguetti, o coordenador das mesas de debate Sessões Periféricas, conta como teve a ideia de se aproximar dos organizadores da Primeira Jornada, e propor o que se tornou o germe para a fundação do IDESPE (Instituto de Estudos Sociais da Periferia): “Eu telefonei para o Sr. Prado e disse que era preciso aproveitar a chance de cristalizar a vontade de confrontar ideias, o que desmonta barreiras tradicionalmente levantadas enter as diferentes classes sociais em São Paulo. A ideia era colocar sempre um representante da periferia, um da esquerda, um da direita, e um liberal para debater sobre uma determinada questão que afeta a vida nas periferias da capital”.

Os debates foram concorridos mesmo entre os rolezeiros. “Os jovens fizeram perguntas contundentes, suas experiências muitas vezes desconhecidas dos intelectuais expuseram a necessidade de continuar esse debate e envolver mais os moradores das comunidades nessa busca de reconhecimento. Alguns intelectuais ficaram realmente desconfortáveis”, explica Perenguetti, que logo após a Jornada fundou o IDESPE, colocou os vídeos dos debates à disposição no seu site e já pensa na próxima edição do evento. “Talvez o debate mais polêmico tenha sido o da descriminalização das drogas, a maior parte dos jovens não sabia que Portugal e um país vizinho (N.E. o Uruguai) já tinham feito isso, e que os EUA estão no processo de legalizar a maconha”.

O capitão da PM, Rodrigo Veluzzo, afirma que houve poucas ocorrências dignas de nota: 1 assalto na região sem relação com o evento, 3 celulares furtados e um início de briga entre dois jovens embriagados. “Se todo rolezinho for assim, teremos poucas preocupações”, brincou Veluzzo.  Mas verdadeiro alívio veio para o sargento Marcio dos Reis, boçbeiro responsável pela região: “Minha maior preocupação era a segurança dos próprios rolezeiros. Juntar 6.000 crianças e adolescentes em um protesto social dentro de um espaço confinado como o Shopping Itaquera é um grande risco em termos de rapidez de evacuação e segurança de multidões. O shopping está adaptado somente para uma determinada quantidade de pessoas calmamente fazendo compras. Imagina se acontece um incêndio bem na hora do rolezinho? Seria uma tragédia.”

Uma imagem tocante da Jornada foi reparar em três senhoras que sentavam em cadeiras que trouxeram de casa e se abanavam para tentar diminuir os efeitos do forte calor no dia da Jornada. Elas tinham trazido suas filhas que queriam participar do evento, mas a condição foi que elas viessem para as vigiar. “Eu estava preocupada né? O que minha filha e sobrinhos de 13, 15 anos vão fazer nesses rolezinhos? Mas achei muito bom, esse pessoal está de parabéns” conta bem-humorada Solange Maria Aparecida. “Eu comprei também esses abanadores na lojinha de 1,99, acho que eles estão ganhando em cima do evento”.

Outra mãe coruja que lá estava para ficar de olho no filho era a vendedora Regina Célia Nascimento, ela mesma uma funcionária de loja do Shopping Itaquera: “Eu trabalho aqui e fico feliz de ver que meu filho vem participar na paz, não ia gostar de ver ele metido em confusão com a polícia”. Perguntada se ela era contra os protestos antes da primeira Jornada, ela explica: “Não sou contra o direito de ninguém protestar, mas eu tenho responsabilidade de cuidar do meu filho, então ele precisa primeiro ficar consciente sobre o que ele está protestando. Se quer opção de lazer pode falar comigo que a gente dá um jeito”.


O Galo Castrado

17jan14

O Galo Castrado

Um chapon de Bresse esperando a panela

Esse artigo apareceu primeiro no site Libertroll.

No dia 3 de janeiro, a Newsweek (que era de papel, agora é online, e voltará a ser de papel nos EUA em março de 2014) publicou um artigo sobre a “Queda da França” que fez tempestade, e as marolas chegaram ao commentariat liberal brasileiro que em grande parte se jogou com vontade na prática do Schadenfreude, “está vendo? O capitalismo está ganhando do Socialismo!”.

Houve uma esperada reação por parte dos defensores de l’État, mas também por uma enxurrada de franceses que pensaram wtf, uma gringa moradora de Paris resolveu fazer french bashing? Qual é a parada do novo dono da Newsweek, um francês chamado Etienne Uzac? A autora Janine Di Giovani, que parece ser uma correspondente de guerra minimamente séria e respeitada, imediatamente sumiu, sua conta de twitter foi deletada, e convenientemente ela parece estar no Sudão se protegendo de balas e bombas. Uma corega veio em sua defesa chamando a França de galo que virou avestruz.

Quando Júlio César chegou ao Hexágono (o mapa da França nos lembra e é chamado deste polígono) mais ou menos 50 antes de Cristo, chamou o povo celta que ali habitava de gauleses, porque esses “índios” tribais cultuavam o galo, animal orgulhoso, d’allure fière, brigão, adúltero e que fica gritando quando todo mundo quer dormir (qualquer semelhança com o povo atual não é mera coincidência). Será mesmo que esse povo enterrou a cabeça na areia e não quer mais ouvir a voz da razão (americana)?

Para o étranger mais liberal ou conservador, o artigo é uma pâtisserie irresistível, e para os socialistas francófilos é um motivo crivado de ultrajes. Mas a verdade nua e crua é que o artigo é uma bosta, um rejeton jornalístico. A mina não teve a dignidade de verificar números, citar fontes, nada. Não passa de on-dit, de contar o que ouviu o vizinho falar  através da parede. Em Paris você ouve quase tudo que seus vizinhos fazem, mas pelo menos as janelas costumam ser de vidro duplo.

Antes de citar as mais óbvias inverdades do artigo, quero deixar claro que não estou defendendo “a França”, muito menos o governo e seus programas, e a primeira idiotice do artigo, mas que é norma na mídia e nas cabeças do mundo inteiro em geral, é a confusão entre sociedade e governo. Para mim é claro que são coisas diferentes, que aquela não deveria ser sujeita àquele, e que se um governo faz um monte de cagadas, não se pode culpar a sociedade como um todo, isso seria um tipo pervasivo de coletivismo vertical.

A autora compara a fuga atual de franceses, supostamente por causa do atual presidente Flanby, à revogação do edito de Nantes pelo absolutista Luís Quatorzinho, causa da fuga de cerca de 700.000 protestantes para países vizinhos mais acolhedores. Sério? Então porque houve um aumento de apenas 1.1% dessa fuga em 2012, contra 6% em 2011? Será que o Francisco Holanda (quase homônimo com o Chico Buraco né não?), primeiro presidente “socialista” desde 1995, inventou o sistema de imposto na França? “Since the arrival of Socialist President François Hollande in 2012, income tax and social security contributions in France have skyrocketed”.

Será que em 2011 pagávamos zero porcento de imposto? Óbvio que não, o que este presidente milionário hipócrita fez foi apelar para o mais baixo populismo de viés social-democrata e começar um programa de aumento de impostos para as grandes fortunas, que não foi totalmente estabelecido, e provavelmente vai parar por aí. Sim, os magnatas e BIG CEOs nominalmente passarão a “contribuir” mais para o leviatã, mas a gente sabe que todo mundo consegue escapar do fisco não é? Sejamos pobres ou ricos, sempre há uma brecha, e os magnatas contratam os melhores especialistas para isso. Então não desperdice humidade pelos personagens da Revolta de Atlas, o governo também parasita neles, mas parasita muito mais no resto, e invariavelmente eles se aproveitam desse parasitismo como explica a teoria da captura.

As they say, the problem with the French is they have no word for entrepreneur. ” É de dar pena, essa palavra é francesa, e os ingleses a adotaram no século XIX. Vocês sabiam que no século 11 um normando (um tipo de viking afrancesado, imagine o governo transformando o líder do Comando Vermelho em prefeito de Nilópolis) chamado Guilherme o Conquistador atravessou o Canal da Mancha e meteu a porrada na elite anglo-saxã enquanto eles discutiam quem ia ser o novo déspota, e se transformou ele mesmo no King of the Black Cocada. A partir daí, my friends, branco falou somente francês na corte real inglesa até meados de 1400, e até hoje dois terços das palavras da língua do Bardo de Avon advêm da língua de Molière, quem diria. Você que fica rindo da Franceball e suas bandeiras brancas não conhecia esse nobre francês que fez bully com os pobres ingleses, certo?

Does he realize Rome is burning?” Aqui ela chega aos píncaros da hipérbole, a França está queimando, e logo em seguida nos deixa confusos com uma série de elogios sobre a excelente infra-estrutura, o TGV, a Airbus, a LVMH (que está grafado errado no artigo), a melhor indústria agrícola, a maior indústria turística, e mais adiante ainda fala do excelente sistema de saúde. O que concluir desta construção incoerente de argumentos? Ela te faz pensar em Roma sob as chamas, e depois pinta o paraíso. Certamente não dá para comparar o sistema de saúde francês com o SUS, mas peralá, como todo sistema estatal monopolístico e subsidiado com impostos o daqui também sofre com a burocracia, a ineficiência e a espera, não me parece um modelo a ser copiado. “Masterful state-subsidized schools”… Ela consegue colocar o filho dela numa escola de elite em Paris, enquanto o sistema nacional sofre de échec scolaire em massa, notadamente dos balieusards (suburbanos) que vivem em cités (conjuntos habitacionais estatais).

“But the past two years have seen a steady, noticeable decline in France. There is a grayness that the heavy hand of socialism casts.” Então ela volta à parte negativa e determina que o problema da França é o socialismo, entrando na eterna batalha pantanosa de definições ideológicas. Não tenho como entrar nessa barafunda agora, mas basicamente: a “França” é uma república social-democrata com alto intervencionismo econômico, e as diferenças deste sistema para o inglês, por exemplo, são cosméticas (90% dívida pública/PIB para os dois), pelo menos no debate socialismo-capitalismo.

Adiantando um pouco o que deverei escrever em outro artigo, a França é mais um país tomado pelo corporativismo buro-tecnocrata ordo-liberal, o que pode ser caridosamente chamado de neoliberalismo (que não é a mesma coisa que capitalismo, socialismo nem liberalismo, pfvr). Para explicar os problemas macroeconômicos não basta chamar qualquer coisa que você não goste de algum termo guarda-chuva como socialismo.

A estatística de 5.5 milhões de desempregados é sim oficial, mas como todo governo, o francês somente comenta a categoria dos desempregados que estão procurando emprego. Agora, 8 dólares o litro de leite em Paris? Eu tive que rir, eu compro em Paris por aproximadamente 1 euro, ou ela nunca desce do salto alto para comprar o leite no mercadinho em frente ao Jardim do Luxemburgo onde mora, ou ela está mentindo deliberadamente.

“With the end of the reign of Gaullist (conservative) Nicolas Sarkozy (the French hated his flashy bling-bling approach) the French ushered in the rotund, staid Hollande. Almost immediately, taxes began to rise.” Como ela tem acesso a dados que ninguém mais possui? Em nenhum lugar ela cita fontes, e não se consegue achar ninguém afirmando a mesma coisa pelas internets. Em 1995 quando entrou o gaulista Chirac do mesmo partido UMP que Sarkô, a carga fiscal era de 43%, e 16 anos de governo UMP a taxa subiu para 44.2, de onde não deve ter mexido muito em menos de dois anos de PS. Onde está o profissionalismo desta jornalista?

Não existe nada como fraldas ou creches gratuitas, existem associações beneficentes, ajuda estatal para pais pobres de recém-nascidos, creches associativas, creches municipais pesadamente subsidiadas… A reeducação muscular pós-parto é para fortalecer o canal vaginal, uma medida preventiva, e não para diminuir a barriga e sensualizar as MILFs, sacrebleu!

“Who cares about the BRICS – the emerging markets of Brazil, Russia, India, China, and South Africa – when we have Paris? It is a tunnel-vision philosophy that will kill France.” A China é o segundo maior investidor na França, o Brasil é o QUARTO. O mercado de vinhos de luxo de Bordeaux atualmente está todo bagunçado por causa da febre Château Lafitte entre os milionários chineses, e o número de turistas chineses em Paris só não foi maior que o de brasileiros e americanos em 2012. Qual é o critério que ela utiliza na análise da visão (de negócios? cultural?) de um povo para crer que um país vai ser MORTO?

A partir desse momento a autora cita opiniões de amigos seus reclamando de coisas que seriam impossíveis ser causadas pelo presidente que entrou há pouco tempo, escolas, inovação, línguas estrangeiras, dá preguiça de ler esses argumentos preguiçosos. Como eu disse, parece fofoca de comadre.

Enfim, leitores do Libertroll, as poucas meias verdades que ela usa como base para o artigo (elitismo e hipocrisia dos políticos, nanny welfare state, desemprego e encargos trabalhistas, intervencionismo) não são suficientes para passar a mão na cabeça dos inúmeros absurdos que a escritora cometeu com o intuito desonesto de criar uma polêmica populista e manipuladora. Lutemos contra o estado, mas contra o real e não o inventado. Critiquemos o intervencionismo com argumentos embasados. E, principalmente: parem de torcer por uma visão Polandball da França, é bom para rir, mas faz passar vergonha em qualquer roda de festa bobo.


Este artigo foi escrito para o site Libertroll

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Bom dia leitores do Libertroll,

Ou boa noite, depende que horas vocês estiverem lendo isso, e ainda tem a diferença de fuso horário entre Paris e sei lá qual pedaço de terra batida serve de base para vossos pés. Pois é, eu moro em Paris, França, no “Continente”, e essa coluna será sobre as diferenças e semelhanças entre França e Brasil.

Placa de metal identificando o curso do Rio Bièvre, passando pelo 13éme.

Não apenas sobre isso. Como o Hermes, criador e editor do Libertroll definiu, uma coluna sobre como é “viver em um país socialista”, rs. Falarei mais sobre isso no decorrer da minha colaboração com esse trollog, porque os termos socialismo e capitalismo são como sua banda musical preferida: você adora falar sobre mas ninguém tem paciência para ouvir. Ou como time de futebol, não adianta falar bem, que o torcedor do time adversário vai ficar vaiando para ninguém te escutar.

Vou falar um pouco sobre mim, afinal, esse é o primeiro post da coluna. Sou muito preguiçoso. O Hermes teve que insistir muito para eu aceitar escrever. Mentira, ele apenas mandou um convite pelo chat do facebook, e eu, sem nada para fazer, resolvi voltar a escrever as besteiras pelas quais eu nunca fiquei muito conhecido, mas que faziam meu círculo de amigos pouco exigentes rir um pouco. Não, não me acho engraçado, quem está me acusando disso?!

Me formei em design de produtos na PUC-Rio em 1999, e não sei se você já teve contato com alguém de lá dessa época, 50% de chances de estar falando com um hipper, quero dizer, hippie hipster aluno do Prof. Ripper. Não me entendam mal, o Prof. Ripper é um arquiteto com ideias geniais sobre uso de materiais e sistemas de baixo impacto ambiental e alto envolvimento social, mas tudo isso com um grande distanciamento dos problemas diários que enfrentarão os futuros formados em suas classes.

Alguns alunos acabam utilizando bem seus ensinamentos, como o talentoso Fred Gelli (cujo principal cliente creio ser a Coca-Cola), e o pessoal das estruturas tencionadas de bambu para aluguel da Bambutec. Outros utilizam muito mal, como o vosso interlocutor momentâneo, que resolveu trabalhar com decoração artesanal de bambu no Rio de Janeiro, atendendo proprietários, comerciantes, arquitetos e engenheiros, e depois de 10 anos de muita labuta, desistiu e criou ranço.

Não me falem em bambu hoje em dia. Fui à China, índia, Equador e Colômbia, sem contar lugares inóspitos (por acaso você já foi à praia de Ponta Verde em Maceió?) pelo Brasil afora, para aprender e ensinar sobre como o bambu era a solução perfeita para todos os problemas da humanidade. Eu caí como um patinho na maior fraude pseudocientífica do nosso século: o apocalipse ambiental.

O bichinho da duvida começou a erodir as bases do castelo de cartas quando um amigo colombiano engenheiro florestal fez uma corajosa palestra chamada “os mitos sobre o bambu”, bem no meio do 7o Congresso Mundial de Bambu em Nova Déli (sim, isso existe). A partir daí comecei a ler, ainda em 2004, sobre como as florestas não eram “o pulmão do mundo” (o oceano tem mais direitos sobre essa reinvidicação), e sobre outros mitos mais, o que me abriu muito a cabeça, mas abriu também um buraco no meu chão.

Então quer dizer que a solução para o mundo não é plantar bambu, ser mais verde, estimular meios de subsistência dignos da idade da pedra? Então qual é a solução, se é que existe uma? Passei então a dar atenção àquilo que eu achava o assunto mais sonolento possível: economia política. Não sabia absolutamente nada, porém meu primo estava já bem envolvido, e passei a ler seu blog. Conheci a pletora de blogs e sites liberais, e desde então leio bastante sobre o assunto.

A social-democracia ecológica foi totalmente lavada de mim, escorreu da minha pele facilmente por ser um mito de bases filosóficas muito fracas, incoerentes. Foi como uma poeira que saiu com um pouco d’água. Sabe aquela piada de que a diferença entre um minarquista e um anarcocapitalista é de seis meses? Pois é, apesar de estar farto de rótulos e hoje me identificar de forma flexível dentro da escola do anarquismo individualista. Não pare de ler somente porque eu escrevi anarcocapitalismo!!!

Minhas perspectivas profissionais e financeiras não eram muito promissoras no Rio de Janeiro ( e continuam não sendo em qualquer lugar anyway), então decidimos, eu e a senhora, nos mudarmos para Paris (essa deliciosa cacofonia), aproveitando meus 25% de DNA francês. Meu avô materno era filho de dois bordelais, e o passaporte francês sempre correu no nosso sangue. A chegada em Paris, uma cidade que nunca havíamos visitado, foi traumática, nem o aquecedor sabíamos acender no apartamento de 18 m², mas em breve estávamos aproveitando a moradia em um dos países mais ricos, material e culturalmente, do mundo. Piqueniques, museus, TGVs, vinhos, queijos, é uma delícia morar num país civilizado, para variar.

Acabei enveredando pelo setor de turismo, como técnico responsável pelo maquinário de transporte geográfico humano, o famoso chauffeur, motorista de turistas brasileiros, ou para aproveitar a chance de um neologismo, moturista. A parte legal é que me esforcei em aprender a história e a cidade, e isso faz diferença em uma cidade embebida em história, cheia de esprit, de je-ne-sais-quoi (essa última foi de sacanagem). Você sabia que Paris tem mais de dois mil anos de história? Pois é. Conseguimos nos instalar no 13º arrondissement, perto de onde passava o rio Bièvre, outrora livre desde perto de Versalhes até o Sena, hoje obrigado a se esconder em tubos de concreto perto de Antony, antes de se jogar no sistema de esgoto de Paris. Você anda nas ruas do quartier Maison-Blanche e vê os selos de metal no chão indicando onde antes passava esse rio da Île-de-France.

Então messieurs-dames, me voici, colunista emergente deste novo site, para borbulhar desconhecimentos sobre a vida de um anarquista preguiçoso em um país corporativista com fama de socialista.

Até a próxima, onde devo destrinchar o horroroso artigo da newsweek sobre “A queda da França”.


“Entrez dans la bourse de Londres, cette place plus respectable que bien des cours, vous y voyez rassemblés les députés de toutes les nations pour l’utilité des hommes. Là, le juif, le mahométan, et le chrétien, traitent l’un avec l’autre comme s’ils étaient de la même religion, et ne donnent le nom d’infidèles qu’à ceux qui font banqueroute ; là, le presbytérien se fie à l’anabaptiste, et l’anglican reçoit la promesse du quaker. Au sortir de ces pacifiques et libres assemblées, les uns vont la synagogue, les autres vont boire : celui-ci va se faire baptiser dans une grande cuve au nom du Père, par le Fils, au Saint-Esprit ; celui-là fait couper le prépuce de son fils, et fait marmotter sur l’enfant des paroles hébraïques qu’il n’entend point : ces autres vont dans leur église attendre l’inspiration de Dieu leur chapeau sur la tête ; et tous sont contents.

S’il n’y avait en Angleterre qu’une religion, son despotisme serait à craindre ; s’il n’y en avait que deux, elles se couperaient la gorge ; mais il y en a trente, et elles vivent en paix et heureuses.”

Voltaire – Lettres Philosophiques 6 ou Sur les Anglois (1733)

via Lettres philosophiques – Partie 2 – Monsieur de Voltaire.


A posição cética sobre o Aquecimento Global

1) NÃO NEGA a verificação de um aquecimento desde 1850 nas temperaturas instrumentais globais médias
2) NÃO NEGA que o CO2 seja um gás de efeito estufa como vários outros
3) QUESTIONA a suposição de que exista um efeito relevante de feedback positivo causado pelo CO2 na atmosfera, gás esse que é um gás minoritário na atmosfera (0.0387%), e assim
3) QUESTIONA os modelos catastróficos que mostram uma grande variação para cima nas temperaturas no século XXI
4) QUESTIONA as suposições de que o aquecimento global recente tenha causado ou vá causar calamidades naturais e/ou sociais
5) DEMONSTRA que não existem diferenças relevantes entre a frequência de eventos climáticos extremos nos últimos 150 anos
6) QUESTIONA a suposição de que é melhor reduzir as emissões de CO2 do que se adaptar às possíveis mudanças climáticas
7) QUESTIONA a suposição de que a melhor forma de redução de emissões ou adaptação às mudanças seja através da via política subsidiada por impostos, fiscalizada por monopólios legais e compelida pela força da polícia


Entrevista de FRIEDRICH A. HAYEK à Revista Veja em 1979

http://veja.abril.com.br/especiais/35_anos/ent_hayek.html

Todos não são iguais

Um prêmio Nobel diz que não é possível distribuir
“pequenas igualdades” para todos. Tentar isso é
certeza de fracasso

José Paulo Kupfer

Muitos economistas, mais ou menos secretamente, podem pensar como ele. Outros recorrem a artifícios de linguagem e à sofisticação de conceitos para expor idéias muito parecidas com as suas. Mas pouquíssimos ousariam dizer as coisas que Friedrich August von Hayek diz de maneira tão clara, direta e chocante. E nenhum, seguramente, ostenta uma folha de serviços teóricos que se possa comparar com a sua em favor do livre mercado. Há exatos sessenta anos, Hayek defende a soberania do sistema de preços sobre qualquer forma de planejamento estatal da economia. Apesar de seus 80 anos, ele é incapaz de recusar, portanto, um convite para brandir argumentos contra o centralismo econômico – onde quer que seja.

Recentemente, Hayek deixou a pequena Freiburg, na Alemanha Ocidental, atravessou o Atlântico durante a noite e desembarcou em São Paulo no final da manhã. Logo depois do almoço, fez uma palestra que durou mais de três horas. Menos de 48 horas depois, como se fosse um jovem no pleno vigor da idade, ele partia para o Peru e de lá para o Japão – disposto a repetir sua eterna pregação: o planejamento governamental é uma forma disfarçada de socialismo, e o socialismo é o maior equívoco já produzido pelo homem. Prêmio Nobel de Economia em 1974 (junto com o sueco Gunnar Myrdal), Hayek é um monumento do moderno pensamento de direita, tanto economica como politicamente. “Sou realmente surdo do ouvido esquerdo, mas Marx deve ter sido surdo do ouvido direito”, diz ele numa de suas tiradas prediletas.

Nascido na Áustria, cidadão britânico, ex-professor no ultraconservador curso de economia da Universidade de Chicago, Hayek escreveu vários tratados de economia pura. Mas há três décadas se dedica à produção de estudos de filosofia política. Sua obra máxima – “The Constitution of Liberty” (A Constituição da Liberdade) – é praticamente desconhecida no Brasil. De seus trabalhos, apenas o “Caminho da Servidão” (“The Road of Serfdom”), de 1944, foi traduzido para o português. Ainda no segundo semestre deste ano, ele concluiu o terceiro volume de “Laws, Legislation and Liberty” (Leis, Legislação e Liberdade). Prepara agora a publicação de uma nova obra, na qual desafia os socialistas para um debate público, se possível pela televisão, transmitido para o mundo inteiro.

Nesta entrevista a VEJA, Hayek resume suas idéias econômicas e políticas.

VEJA – Na sua opinião, a chamada “democracia econômica” depende da democracia política e vice-versa?
HAYEK – Não. Democracia econômica é o tipo de conceito sem sentido. Democracia é um procedimento que permite que se adotem decisões políticas. Não há oportunidade ou justificativa para a democracia fora do campo político. Nesses termos, não conheço qualquer democracia perfeita, embora a Suíça e, em certa medida, a Alemanha Ocidental se aproximem de um sistema efetivamente democrático.

VEJA – E os Estados Unidos? Não entram nessa lista?
HAYEK – O sistema americano acabou reunindo o Executivo e o Legislativo num único corpo governamental. O assim chamado Legislativo americano, como ocorre em outros países, preocupa-se muito mais com os problemas governamentais e administrativos do que propriamente com questões legislativas. O princípio da separação dos poderes jamais alcançou um nível muito elevado. E, ainda que o sistema americano de checks and balances tenha sido uma tentativa de restringir a onipotência do assim chamado Legislativo, ele nunca atingiu aquilo que os pais da Constituição esperavam que atingisse.

VEJA – Como então deveriam funcionar os poderes do Estado?
HAYEK – Nenhuma assembléia única ou autoridade deveria ter o poder de derrubar leis gerais e impor medidas governamentais. Na democracia que imagino, é preciso dividir o poder entre duas assembléias eleitas. Uma, a governamental, renovada em eleições freqüentes, de acordo com as linhas de partidos organizados. A outra, o verdadeiro Legislativo, formada por membros eleitos para mandatos de largos períodos, não reelegíveis, e naturalmente não submetidos à disciplina partidária.

VEJA – Quanto ao governo, quais seriam as suas funções?
HAYEK – Os governos deveriam se limitar a fazer cumprir as regras gerais de conduta individual, aplicando-as igualmente para todos. Além disso, seria função do governo oferecer determinados serviços públicos. Isso não quer dizer, porém, que possa dispor de poderes de coerção ou de monopólios. O que mais me preocupa em relação aos governos atuais é justamente esse poder de coerção e os monopólios estatais.

VEJA – Em termos econômicos, que tipo de problema isso acarreta?
HAYEK – Uma efetiva economia precisa ser orientada pelo sistema de preços. Os preços comunicam aos membros do mercado um número muito maior de informações do que qualquer um pode possuir. Nenhum governo pode corrigir ou orientar melhor a economia do que o sistema de livre mercado, porque não consegue condensar todas as informações contidas nos preços. Por isso, toda interferência do governo nos preços ou nas quantidades produzidas – as duas variáveis que definem, em última instância, a chamada “intervenção estatal” – inevitavelmente reduz a eficiência da economia.

VEJA – O sistema de livre mercado não padece também de ineficiências?
HAYEK – Ele necessita de uma moldura legal apropriada para funcionar eficientemente. No presente, e verdade, não se pode dizer que essa moldura seja a mais adequada. Precisamos, por isso, trabalhar para aperfeiçoar as leis. Por exemplo, deve-se aplicar as corporações empresariais as normas que, lentamente, foram desenvolvidas para regular a conduta dos indivíduos. De todo modo, essa adaptação tem que ser lenta e gradual, orientada pela experiência, jamais através de reformas radicais.

VEJA – Se o livre mercado não conduz à ineficiência, como o senhor explica a crise de 1929?
HAYEK – Crises econômicas – e especialmente a de 1929 – não são causadas pelo mercado. Resultam de erros na política monetária.

VEJA – Seria esse o seu diagnóstico para os altos índices de inflação no mundo de hoje?
HAYEK – Exatamente. A inflação nada mais é do que um aumento exagerado na quantidade de dinheiro em circulação. Se o preço de um determinado bem aumenta, as pessoas gastarão mais para consumi-lo e, portanto, deixarão de comprar outros bens, cujos preços, teoricamente, deveriam cair. Os preços só não cairão se for emitido mais dinheiro para permitir que as pessoas continuem a comprar a mesma quantidade anterior de todos os bens.

VEJA – Como solucionar o problema da inflação?
HAYEK – Você quer saber qual é a saída política ou a saída inteligente? São questões diferentes. A tarefa da minha vida tem sido a de encontrar saídas políticas para as soluções que considero corretas, pois nem sempre as coisas coincidem. Naturalmente, é possível estancar a inflação cortando o excesso de dinheiro em circulação. Mas o preço é caro. A estabilização sempre leva a um período de desemprego agudo, a uma redução do nível geral de satisfação. Por isso, nenhum governo está disposto a enfrentar o problema com coragem. Afinal, seria difícil manter o poder. No fundo, não sou pessimista quanto ao futuro do mundo, mas sou extremamente pessimista quanto ao seu futuro imediato. Se os políticos atuais não conseguirem destruir o mundo nos próximos vinte anos, há uma nova geração com melhores idéias capaz de acertar os ponteiros.

VEJA – O desemprego é inevitável quando a inflação é alta?
HAYEK – Sem dúvida. O paradoxo é que, á curto prazo, a inflação reduz o desemprego. Mas, quando se utiliza a inflação como forma de reduzir o desemprego, acelera-se a própria inflação. No momento seguinte, quando se tenta controlar a inflação, o desemprego reaparece de forma ainda mais forte. Pois o que se fez, anteriormente, foi criar empregos temporários que só se sustentariam enquanto estivesse ocorrendo a aceleração inflacionária.

VEJA – Não haveria algum governo disposto a correr o risco do controle da inflação, já que o desemprego é inevitável?
HAYEK – Tenho muitas esperanças de que a primeira ministra Margareth Thatcher consiga êxito na sua política econômica na Inglaterra. Seria um importante exemplo para os demais países. Se na Inglaterra der certo, é possível, por exemplo, esperar a ascensão de um Franz Joseph Strauss*, nas eleições alemãs de maio próximo. Ele acredita firmemente na economia de mercado. De acordo com a verdadeira tradição liberal do século XIX, aliás, Strauss e o único liberal autêntico do país. Eu nunca disse antes e vou dize-lo quando voltar à Alemanha, embora esteja certo de que vou provocar algum escândalo com essa declaração.

VEJA – A experiência inglesa de controle da inflação é mais importante do que, por exemplo, a chilena?
HAYEK – É claro que a Inglaterra tem um poder de repercussão muito maior do que o Chile. Além disso, no caso chileno, os aspectos tidos como socialmente injustos de sua experiência recente fazem com que seus resultados sejam menos convincentes.

VEJA – A economia mundial não está precisando de um novo Keynes?
HAYEK – Não, pelo amor de Deus! Keynes é amplamente responsável pelo que está acontecendo agora. Suas teorias, ao contrário do que se pensa, não contribuíram para a recuperação econômica depois de 1930. Serviram, isso sim, para desviar os recursos de suas corretas aplicações, causando o presente nível de desemprego e, antes disso, o surto inflacionário com o qual estamos convivendo. Para ser sincero, porém, estou sendo um pouco injusto com ele.

VEJA – Por quê?
HAYEK – Keynes foi um dos maiores combatentes contra a inflação e morreu no momento errado. Pouco antes, ele me disse, pessoalmente, que iria mudar o rumo de suas idéias. Alguns dos seus discípulos, muito mais keynesianos do que o próprio Keynes, é que confundiram as coisas e levaram o mundo a acreditar em teorias elaboradas para as necessidades políticas da Inglaterra, na época. Em todo caso, é encorajador notar que as teorias baseadas no livre mercado começam a reviver na Inglaterra. Alemanha e até mesmo na França. Nos três maiores países da Europa começa a tomar corpo um conjunto de novas idéias, difundido por jovens economistas, sempre voltado para a soberania da economia de mercado. Nos Estados Unidos, o futuro imediato é menos confortante. Se Ronald Reagan vier a ser presidente, talvez aconteça alguma mudança. Eu, no entanto, preferiria que a Presidência dos Estados Unidos fosse ocupada por William Simon.

VEJA – O controle de preços não é uma arma eficaz no combate às altas taxas de inflação?
HAYEK – De forma alguma. Ninguém tem poderes para controlar os preços de maneira eficiente. Os preços são sinais sobre coisas que ainda não conhecemos. Não se pode, enfim, corrigir um sinal do qual não se sabe o que está assinalando. O controle de preços termina por desorientar a produção, conduz à escassez e esta ao planejamento central. O fim dessa linha é o socialismo, e o socialismo é um equívoco.

VEJA – É possível abolir as desigualdades sociais no sistema de livre mercado?
HAYEK – Não, porque um mercado efetivo determina preços e a remuneração de todos os serviços, no exato valor que lhes é dado pelas pessoas. As pessoas são muito diferentes em suas habilidades e oportunidades. Se tentarmos tratá-las com igualdade, o resultado para cada uma delas seria desigual. Para fazê-las iguais – ou mais iguais -, no sentido material, precisaríamos tratá-las de modo desigual, o que significa, necessariamente, usar do arbítrio.

VEJA – O senhor é favorável a que se cobre um imposto sobre heranças?
HAYEK – Na Inglaterra, por exemplo, a herança é fortemente taxada. Isso destrói fortunas tradicionais de forma miserável. Os ricos não gostam de pagar imposto e preferem antes dá-lo a companhias de seguros do que entregá-lo ao governo. Além disso, esse imposto desestimula a acumulação de capital.

VEJA – Mas isso não contradiz a sua afirmação de que o sistema de livre mercado proporciona igualdade de oportunidades?
HAYEK – Não asseguro que as pessoas terão as mesmas oportunidades com a livre iniciativa. Na verdade, existem heranças mais importantes do que a material: inteligência, educação, etc. As pessoas não podem imaginar que se passarem parte de suas vidas pescando na beira do rio se transformarão em presidentes de grandes empresas. A idéia de que seja possível a distribuição de “pequenas igualdades” para todos é um non sense. Tentá-la é certeza de fracasso. Mais do que isso: a tentativa leva apenas a que se dê a alguns o que não se pode dar a outros. A capacidade pessoal e as oportunidades não são determinadas pela economia de mercado, mas sim pelo lugar onde acidentalmente nasceram ou pelos seus atributos físicos.

VEJA – As desigualdades sociais são, então, inevitáveis?
HAYEK – Eu penso que se trata de uma questão de possibilidades. Sociedades criativas podem assegurar um padrão mínimo a partir do qual todos pudessem ser capazes de ganhar mais. Isso, contudo, é tanto mais difícil quanto maior for o número de pessoas de tipos diferentes. Na Inglaterra e na Alemanha, talvez seja mais fácil alcançar esse nível mínimo do que, por exemplo, no Brasil. O fato é que não se pode – e nem se deve – assegurar aos esquimós ou aos índios da Amazônia as mesmas condições oferecidas nas cidades. Não teria sentido, por exemplo, conceder férias remuneradas aos esquimós, embora essa seja uma vantagem importante para os demais membros da sociedade moderna.

VEJA – Assim sendo, como o livre mercado poderia resolver os problemas das regiões subdesenvolvidas?
HAYEK – O desenvolvimento dessas regiões é uma questão de se descobrir oportunidades e habilidades, as quais são mais efetivamente alcançadas através da livre competição. Somente quando for dada às massas subdesenvolvidas oportunidade para que utilizem suas capacidades terão elas a possibilidade de deixar o estado de pobreza em que se encontram.

VEJA – Por que o senhor defende idéia de que cada empresa deveria emitir seu próprio dinheiro?
HAYEK – Já perdi as esperanças de que qualquer governo nos dê um dinheiro decente e de boa qualidade. Os governos emitem papel sem qualquer lastro e nos empurram uma moeda corrompida, inflacionada. Se é assim, por que os governos devem manter o monopólio da emissão? As empresas poderiam emitir e pôr em circulação unidades monetárias, procurando controlar a quantidade emitida. Com isso, garantiriam um valor no mínimo constante em relação às demais moedas oferecidas pelas instituições – ou governos – concorrentes.

VEJA – Mas não ocorreria, no caso, o fenômeno de a moeda boa ser expulsa do mercado pela moeda má?
HAYEK – Isso só se aplica no caso de moedas com taxa de troca fixa. O valor relativo das moedas competitivas privadas seria determinado pelo mercado. Ninguém poderia impor uma moeda inferior em substituição a outras mais valiosas.

VEJA – Seus colegas economistas não ficam perplexos diante da sua sugestão?
HAYEK – Os economistas, infelizmente, encaram a economia como uma ciência matemática ou física. Esquecem-se de que ela lida com fenômenos complexos. Em conseqüência, os rumos seguidos pela ciência econômica estão errados. A busca das comprovações matemáticas, econométricas e coisas do gênero não leva a nada. Esse é, inclusive, o engano do meu bom amigo Milton Friedman. Ele se prende às relações entre aumento de moeda em circulação e elevações de preços. Por não conseguir mensurar estatisticamente as mudanças nas estruturas de preços, nos preços relativos – que é o que importa -, simplesmente considera o fundamental como acessório. Pior, no entanto, é o caso de Wassily Leontief e os outros economistas que acreditam no planejamento econômico. É fantástico que alguém considere ser possível prever o que vai acontecer na economia melhor do que as informações contidas nos preços – ou seja, as informações condensadas das experiências de milhões e milhões de pessoas. Esses são tolos perigosos.

*Chefe da União Democrata Cristã (CDU), na Baviera, e possível sucessor de Helmut Schmidt, no cargo de primeiro-ministro, caso o partido deste – o Social-Democrata (SPD) – perca as eleições de maio próximo.




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